O aquário desenterrado – Samarone Lima

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Samarone Lima nasceu na cidade do Crato, interior do Ceará, em 1969. É jornalista, cronista e poeta. Foi finalista do prêmio Jabuti por duas vezes (na categorias reportagem e poesia) e foi 2º colocado na categoria poesia do Prêmio Brasília de Literatura.

Livro: Este é o 2º livro de poesias de Samarone e o seu 1º pela Confraria do Vento. Ótimo projeto gráfico, tanto na capa, quanto no miolo. O formato menor, quase de bolso, ajuda a realçar o intimismo dos poemas contidos nele. A única ressalva seria a ausência de algum texto introdutório na primeira das orelhas do livro.

Tema e Enredo: Em linguagem concisa e seguindo a trilha do melhor da nossa poesia – Drummond e Bandeira vêm à mente – temas como família, corpo e memória são privilegiados.

Forma: Os poemas são compilados da forma mais simples possível, sem divisão explícita de temas, por exemplo.

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[learn_more caption=”CRÍTICA” state=”open”]

Após finalizar a leitura deste belo conjunto de poemas escritos por Samarone Lima, fiz uma brincadeira mental que volta e meia realizo quando termino um livro. Às vezes, me pergunto a qual Estação do Ano equivaleria a obra cuja leitura acabei de terminar. No caso de O Aquário Desenterrado, eu escolheria sem dúvidas o Outono. Não apenas pela sobriedade. Ou pelo gosto que estes versos possuem pela memória e pela ruína, mas porque há no livro um senso de temporalidade no qual a decadência se apresenta com força inquestionável, sem no entanto ter se firmado plenamente. É por isso que em Manchas do tempo, um dos poemas mais cifrados deste livro enganosamente transparente, encontramos um Eu lírico surpreso ao perceber, observando um pássaro voando, o quanto “Não há manchas do tempo/sob suas asas”. O animal funciona como um bom contraste: ele é justamente o contrário de todo o percurso vivido pelo Eu lírico e os personagens que o rodeiam. Ao contrário do pássaro, O aquário desenterrado está cercado de dramas obcecados com as marcas deixadas pelo tempo, bem como com os possíveis limites à compreensão da nossa experiência pessoal e familiar.

Assim, o tema dos limites da memória, o mistério de ter vivido uma série de fatos cujo desvendamento, ou mesmo recordação, vão perdendo a própria substância à medida que nos distanciamos, é central ao livro e pode ser encontrado como uma questão posta em diversos poemas. A busca da memória, por exemplo: “Saio à procura de memórias, palavras/murmúrios./Encontro escadas, corredores/maçanetas geladas/de lugares que nunca vi”. Mais adiante, no mesmo poema, o Eu lírico, frustrado, desabafa: “tudo está no subsolo”.

A sombra da decadência e a preocupação com a memória não são novidade em nossa literatura, tanto na poesia, quanto na prosa. Pelo contrário, constituem uma das nossas tradições mais consolidadas e marcam presença firme inclusive em nossa produção contemporânea. Neste sentido, a poesia de Samarone não traz nada de especialmente novo à poesia atual e isto pode ser apontado sim como uma ressalva. Por outro lado, suas preocupações se afastam, e isto me agrada, de certa dicção excessivamente marcada pelo tempo presente, ou excessivamente preocupada em reinventar a todo custo pressupostos de experimentação do High Modernism anglo-saxão, francês ou brasileiro – duas tendências que hoje em dia têm três ou quatro bons poetas em cada uma delas, seguidos de dezenas de epígonos pouco interessantes.

Em Samarone, está ausente a marca senhorial, nostálgica, em cujas preocupações podemos encontrar a tentativa de conciliar um mundo em transformação, presente em muito do que foi escrito durante o modernismo brasileiro. Em O aquário desenterrado, as marcas sociais de uma classe média baixa, originada em pequenos centros urbanos nordestinos, se faz perceber nas evocações ao cotidiano e à poesia do Crato, bem como às desventuras familiares. Aliado a isto está uma poética das mudanças do corpo. Dentes caindo, cadáveres, pernas amputadas: pequenas tragédias pessoais são narradas de modo conciso e nos ensinam que o tempo não detém por nada sua marcha. Conscientes desta verdade, precisamos, parece nos dizer o Eu Lírico, a todo instante reinventar modos de sobreviver. Esta consciência da finitude e de um lugar social se alia às já citadas consciências dos limites tanto da memória, quanto do aprendizado trazido pela experiência. Desta maneira, a idealização do passado, do presente ou mesmo da própria sobrevivência é geralmente afastada em favor de uma poesia fascinada pelo tempo, contudo agarrada à materialidade das coisas.

Infância e vida cotidiana aparecem com frequência nestes poemas, porém nem sempre com a melhor fatura. É curioso, mas O Aquário desenterrado começa irregular, compilando alguns poemas que achei menos interessantes em sua metade inicial. Os versos contidos em O elefante azul, ou A avó, por exemplo, soam diretos demais, prosaicos e sem a tensão conceitual e imagética de O aquário desenterrado, ou A rosa da memória. No entanto, os poema mais fracos acabam ajudando a compor uma boa unidade do livro, formado por um repertório de motivos e objetos. Um destes motivos é o contraste entre o território da infância e o desencantamento do mundo adulto. Marcada pela liberdade de imaginação e pelo não racional, creio que muitas vezes, porém, o universo infantil é colocado em excessiva dicotomia em relação à vida adulta.

Em resumo, a poesia de Samarone neste livro quer dar conta de duas hipóteses, ambas elaboradas quando o Eu Lírico olha para trás: 1) Nada mudou; 2) Tudo mudou, mas empurrado pelo tempo. É da tensão entre estas duas perspectivas que O aquário desenterrado retira sua força, como comprovam os versos do ótimo poema Junção: “Meus olhos, como os teus/um dia se deslumbraram com uma imagem/que se perdeu/(como a de um circo que atravessa a cidade/e não fica)”.

Lido em Ago. de 2009

Escrito em 19.08.2009

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[author_info]Cristhiano Aguiar é escritor e crítico literário, doutorando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

O aquário desenterrado

Samarone Lima

Confraria do Vento

1a. edição 2013

82 p.

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Aquele aquário grande, na sala

Que arrancava exclamações, elogios

Que encantava primos e vizinhos

Deve ter secado com nossa diáspora íntima

Deve ter se perdido em alguma mudança

Deve estar quebrado

Deve ser caco

Deve ser algo que apenas exista

Apenas corta

E de nada serve”.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Roberto Dutra Jr, Revista Mallarmargens, em maio de 2014

(http://www.mallarmargens.com/2014/05/roberto-dutra-jr-resenha-o-aquario.html).

“Já no segundo poema, “O elefante azul” a força e a forma da memória líquida do autor coloca no poema esse elefante na árvore de uma vida que não consegue nunca mais se desviar do enviesado olhar poético. O elefante nunca mais sai do galho assim como a poesia é a única maneira de registrar cada passagem das vidas que circulam sua vida. “Meu pai / que me perdoe / por ter mentido / todos esses anos”, os versos finais do poema, são uma eloqüente declaração ao mundo da inevitabilidade de ser poeta; o elefante permanecerá no galho e o poeta o deixará no verso.”

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Entrevista

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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