O bom e o mal do bem (parte final)

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IV
A REINVENÇÃO DE TUDO

Processos de reestruturação social me remetem logo às suas bases. E a base de toda ficção civilizatória está, para o bem ou para o mal, seja lá o que isso quer dizer, nos seus processos de formação de indivíduos, ou seja, na educação. Será que essa formatação de escolas que se assemelham a presídios ou manicômios (como já diziam Foucault e Paulo Freire) vai atender às novas demandas sociais que vivemos hoje? Ou só segue reproduzindo esse marasmo caduco de controle e autopreservação e formatando indivíduos que atendam ao que se entende por utilidade e produtividade? No início do ano caiu no meu colo um livrinho da década de noventa chamado Escola sem paredes, que falava de algumas iniciativas de formação mais fluidas em contraponto ao formato convencional de ensino de disciplinas regulares, preparação para o vestibular e foco no mercado de trabalho – que reduz as identidades individuais a meros produtores de artefatos,  prestadores de serviços e consumidores. O livrinho falava sobre uma escola do Rio de Janeiro chamada Lumiar que previa grades de matérias fluidas de acordo com as aptidões de cada estudante, turmas pequenas com pedagogos e especialistas em cada atividade em lugar de professores, estudos interdisciplinares não categorização por gênero, classe social ou idade, e sim por aptidões e escolha dos estudantes, ensino de artes, culinária, agricultura desde a infância. Não sei a quantas anda esse projeto hoje em dia, ou se ele já foi ouroborado pelo mercado e só um recorte de nobreza pode garantir a seus filhos esse ensino diferenciado. Mas a escola ainda existe e, pelo que colhi de informações, sua estrutura parece se manter. Viva! No movimento feminista, e contra essa formatação de ensino convencional, muitas mães tem optado montar grupos de mães e filhxs para, entre elas, iniciar os processos de formação das crianças (o que, pelo que pesquisei, no Brasil ainda é contra a lei.). Recentemente também vi filmes falando sobre processos de desescolarização, escolas ligadas à pensamentos da permacultura interligando arte e natureza à produção do saber… Recentemente vi uma matéria de uma professora acadêmica que largou a universidade em prol da construção de novos formatos de educação. Uma amiga querida, que já trabalhou no educativo das principais galerias e museus de arte do país está, nesse momento, negando todos os convites de emprego enquanto se reinventa e reestrutura sua contribuição intelectual e de formação para a rede de pessoas a sua volta. Isso tudo é muito bom! Assim como nas linhas de pensamento dos teóricos já citados, um dos nossos principais pensadores em educação no Brasil escreveu uma vez “No momento em que os seres humanos, intervindo no suporte, foram criando o mundo, inventando a linguagem com que passaram a dar nome às coisas que faziam com a ação sobe o mundo, na medida em que se foram habilitando a inteligir o mundo e criaram por consciência a necessária comunicabilidade do inteligido, já não foi possível existir a não ser disponível a tensão radical entre o bem e o mal, entre a dignidade e a indignidade, entre a decência e o despudor, entre a boniteza e a feiura do mundo. Quer dizer, já não foi possível existir sem assumir o direito e o dever de optar, de decidir, de lutar, de fazer política. E tudo isso nos traz de novo à imperiosidade da prática formadora, de natureza eminentemente ética. E tudo isso nos trás de novo à radicalidade da esperança. Sei que as coisas podem até piorar, mas sei também que é possível intervir para melhorá-las” Paulo Freire, Pedagogia da autonomia.

E aos homens de bem, detentores do saber, controladores de normativismos, digo: Deus, de quê mais eles são capazes? Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade, tende piedade. Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Libertai-vos, irmxs! Palavra da salvação, graças a Deus.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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