O coice da vaca em Diogo Mainardi

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Por ser um site de crítica e opinião, às vezes a gente precisa falar aquilo que ninguém gosta de ouvir. Seja em relação a um livro, a uma ação do governo, a um evento, a postura de um autor. Mas até então essas patadas que a gente dava apareciam misturadas com o restante do conteúdo do site, em especial no blog, junto a notícias de eventos, listas de livros, comentários sobre matérias, acontecimentos, devaneios e tudo que cabe na palavra blog.

Depois do último domingo, porém, resolvemos instituir O Coice da Vaca, que se consolidará no site como uma nova coluna exclusiva para nossas patadas. Acreditamos que a criação desse espaço servirá, além de dar maior visibilidade aos coices, como uma forma de reforçar na equipe do Vacatussa a necessidade de se posicionar criticamente sobre o mundo e exercer nosso papel de estimular o contraditório.

Para inaugurar este novo espaço, nosso primeiro coice será, claro, dirigido ao escritor Diogo Mainardi. Ele é autor dos livros Malthus (1989), Arquipélago (1992), Polígono das secas (1995), Contra o Brasil (1998), A tapas e pontapés (2004), Lula é minha anta (2007) e A queda (2007), mas no fim das contas é mais conhecido por sua coluna na revista Veja e sua participação no programa Manhattan Connection, da GloboNews.

A presença dele na estreia da coluna é óbvia porque foi ele o responsável por alimentar nosso desejo bovino de dar coices, nos fazendo criar este espaço. Para quem não assistiu ao Manhattan Connection do último domingo (26 de outubro de 2014), nem se deparou com o trechinho da sua fala sobre o Nordeste na timeline do Facebook, aqui vai a transcrição em que ele culpa o Nordeste pela vitória de Dilma Roussef na disputa presidencial.

– “Essa eleição é a prova de que o Brasil ficou no passado. Não é nem Bolsa Família nem marquetagem. O Nordeste sempre foi retrógrado, sempre foi governista, sempre foi bovino, sempre foi subalterno em relação ao poder, durante a ditadura militar, depois com o reinado do PFL e agora com o PT. É uma região atrasada, pouco educada, pouco construída, que tem uma grande dificuldade pra se modernizar, se modernizar na linguagem, a imprensa livre, a liberdade de imprensa é um valor que vai de metade do Brasil pra baixo”.

Embora a fala de Mainardi já me pareça autoexplicativa para evidenciar o preconceito, a visão deturpada de uma suposta classe dominante e a total ignorância do escritor em relação ao Nordeste, vou coicear alguns pontos com argumentos na intenção de desconstruir o seu discurso supostamente moderno. Não vou nem me demorar no julgamento dele sobre imprensa livre no Brasil, nem no diagnóstico que ele fala da dificuldade do Nordeste em se modernizar na linguagem, ignorando que o último grande movimento cultural e estético do Brasil foi o Manguebeat.

Meu foco aqui será a imagem que ele constrói do Nordeste. Como antídoto, vou trazer o reforço do livro A invenção do Nordeste e outras artes, escrito pelo doutor em História Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Valendo-se dessa obra, a gente percebe que o discurso de Diogo Mainardi, na verdade, é a reprodução de um estereótipo que desde o fim da escravidão vem sendo disseminado para manter a ordem das coisas como está. O estereótipo e o tom de arrogância, segundo Durval Muniz de Albuquerque Júnior, é uma estratégia para naturalizar o discurso e alcançar uma “estabilidade acrítica”.

Em outra palavras, ao repetir que o Nordeste sempre foi retrógrado, bovino, pouco educado e subalterno, Mainardi quer se impor como o moderno, o civilizado, o muito educado e o dominante. “O ‘Norte’ é o exemplo do que o ‘Sul’ não deveria ser. É o modelo contra o qual se elabora ‘a imagem civilizada do Sul’”, (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011, p. 72).

Mas ao negar o processo histórico em seu discurso para acobertar as mudanças de conjuntura política que levaram a construção da imagem do Nordeste coitadinho e miserável, Diogo Mainardi parece não conseguir enxergar que o seu próprio discurso não tem nada de moderno. Afinal, de acordo com Durval Muniz de Albuquerque Júnior, essa visão do Nordeste começa a ser construída lá no fim do século XIX, tendo o ano de 1877 como marco dessa divisão entre o norte e o sul no Brasil, quando ocorre um desequilíbrio no jogo do poder com o enfraquecimento do Nordeste, por conta da seca e o “fim ‘abrupto’ e sem indenização da escravidão”.

Apesar de tachar o Nordeste como retrógrado, o que vemos é o discurso de Mainardi reproduzir os mesmos estereótipos, a mesma visão de mundo do século retrasado, comprando acriticamente a ideia de um Nordeste antigo, como se a região deste 2014 fosse a mesma descrita pela imprensa e por intelectuais de viés naturalista nos anos 1920, que relatavam com espanto o problema da seca, do cangaço e do fanatismo religioso de Padre Cícero e Antônio Conselheiro.

Por tudo isso, o coice da semana vai para… o escritor Diogo Mainardi.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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