O falcão maltês – Dashiell Hammett

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PRÓLOGO

Autor: Dashiell Hammett nasceu em Maryland, Estados Unidos, em 1894. Participou das duas Guerras Mundiais como sargento, trabalhou como detetive e começou a escrever suas primeiras histórias nos anos 1920. É considerado um dos precursores e expoentes do romance policial noir, publicando cinco romances e dezenas de contos. Hammett também trabalhou como roteirista de Hollywood e chegou a ser indicado ao Oscar pelo roteiro de Horas de tormenta (1943).

Livro: O falcão maltês é considerado uma das principais obras da literatura policial, contribuindo para o surgimento e consolidação de uma nova espécie de narrativa policial, que ficou conhecida como noir. A história primeiro saiu como folhetim em 1929, na revista Black Mask, e, no ano seguinte, foi condensada em livro.

Tema e enredo: A partir da visita de uma misteriosa mulher ao seu escritório, o detetive Sam Spade se vê numa trama que ele sequer sabe qual o mistério que deverá investigar. O que parece ser um caso para encontrar sua suposta irmã mais nova, vira um caso de roubo, envolvendo assassinatos, gângster e incêndio.

Forma: Segue o estilo noir, que entrelaça as narrativas de enigma com a da investigação. Apesar de ser em terceira pessoa, a narração acompanha apenas as ações de Sam Spade. O que acontece além do seu alcance só chega aos leitores de forma indireta, quando o detetive lê o jornal, observa e conversa com as pessoas.

 CRÍTICA

 Policial às escuras

No artigo Tipologia do romance policial, presente no livro Poética da prosa, o pesquisador Tzvetan Todorov fala de diferentes espécies de narrativa policial. A primeira e mais conhecida é chamada de enigma. Ela se consolidou no período entre as duas guerras mundiais e tem como característica principal o fato de se passar em dois momentos – a história do crime e a história da investigação para desvendar o crime narrado na primeira parte. Nesse campo, encaixam-se autores como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Georges Simenon, com seus respectivos detetives Sherlock Holmes, Poirot e Maigret.

A outra espécie de romance policial tem origem nos Estados Unidos, foi criada pouco antes da Segunda Guerra Mundial e ganhou força após o conflito. Essa narrativa terminou ficando conhecida como romance noir, por conta da Série Noire publicada pela editora Gallimard, que se dedicou a difundir o gênero na França. O romance noir se caracteriza pela fusão das duas histórias da narrativa de enigma, fazendo com que a investigação se dê ao mesmo tempo em que ocorre o crime. Um ótimo exemplo disso é o livro O falcão maltês, do escritor norte-americano Dashiell Hammett (1894-1961), um dos precursores do romance noir.

Ao entrelaçar as duas tramas, o autor consegue o feito de dar uma sensação de abismo à narrativa. A partir do momento em que uma misteriosa mulher chega ao escritório do detetive Sam Spade, a história se desenrola quase que instantaneamente, a medida que viramos as páginas. As idas e vindas (fruto de mentiras, personagens dúbios e traições) são tantas que fica impossível desvendar o mistério, como também qual exatamente é o mistério. Diferente de um Sherlock Holmes com suas deduções certeiras, por exemplo, Sam Spade não sabe nem sequer qual o caso que está investigando. O que parece ser um caso para encontrar sua suposta irmã mais nova, vira um caso de roubo, envolvendo assassinatos, gângster e incêndio. É como se estivéssemos andando por uma ponte em construção, cada passo é recheado pela expectativa da queda.

Muito desse efeito é obtido pela narração que, apesar de ser em terceira pessoa, acompanha apenas as ações de Sam Spade. O que acontece além do seu alcance só chega aos leitores de forma indireta, quando o detetive lê o jornal, observa e conversa com as pessoas. Uma técnica que Dashiell Hammett demonstra domínio não apenas para provocar um horizonte de nevoeiro no leitor, mas para extrair momentos de exuberância estética como na abertura do capítulo dois, quando Sam Spade é acordado no meio da noite para receber a notícia de que seu sócio Miles Archer fora encontrado morto.

Ali, abre-se uma ferida no leitor, desmontando o que se passou e jogando a lição da traição para as páginas seguintes, num processo contínuo de reconstrução da história. Como os personagens envolvidos na trama não são exatamente confiáveis, as versões contadas por eles são escorregadias por natureza, carregadas de interesses e silêncios. Mesmo a cliente misteriosa que procura ajuda de Sam Spade se revela uma incógnita. No primeiro encontro ela se apresenta como senhorita Wonderly, depois se esconde como Leblanc e, por fim, revela-se como Brigid O’Shaughnessy.

O próprio Sam Spade não passa incólume ao nosso olhar. Por mais que sejamos conduzidos por suas ações, o salvo conduto de narrador indireto é vulnerável, porque não sabemos de tudo o que detetive sabe previamente e, como Spade não tem de interesse em nos explicar, consequentemente ficamos em desvantagem na interpretação dos fatos ocorridos. Assim, compartilhamos da mesma desconfiança que outros personagens nutrem em relação a ele, ao sabermos que Spade mantinha um caso com a esposa de seu sócio, tinha motivos e meios para cometer o assassinato, apresenta traços de ganância, arrogância e limites éticos questionáveis, deixando-se envolver pela cliente sedutora.

Tudo isso faz com que a leitura não seja uma simples espera até a revelação final. Embora não se furte a presentear os leitores com uma conclusão final, Dashiell Hammett consegue equilibrar essa sensação de surpresa e descoberta ao longo das 293 páginas da obra, fazendo com que o ato de virar a página se torne um mergulho no desconhecido.

Lido em abril/maio de 2016
Escrito em 15.05.2016


Relação com o escritor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

O falcão maltês
Dashiell Hammett
Tradução de Rubens Figueiredo
Companhia das Letras
1ª edição, 2001
293 páginas

TRECHO

“A campainha de um telefone tocou no escuro. Depois que havia tocado três vezes, as molas de uma cama rangeram, dedos tatearam na madeira, algo duro e pequeno tombou com um baque no chão atapetado, as molas rangeram de novo e uma voz de homem falou:

– Alô… Sim, é ele mesmo… Morto?… Sim… Quinze minutos.  Obrigado.” (p. 17)

EPÍLOGO

Cinema: Além da sua importância para a literatura policial, a fama de O falcão maltês também se deve ao fato de ter sido adaptado para o cinema com sucesso, em 1941, com direção de John Huston e papel para o ator Humphrey Bogart, que renderam três indicações ao Oscar (melhor filme, ator e roteiro). No Brasil, o filme ganhou o nome de Relíquia macabra.

Folhetim:O falcão maltês é o terceiro romance publicado por Dashiell Hammett e o mais célebre do autor. Foi publicado originalmente como folhetim em 1929 na revista Black Mask, criada pelo jornalista H. L. Mencken e o crítico George Jean Nathan, em 1929.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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