O guarda-chuva cor-de-rosa – Leandro Filho

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A chuva estava forte. Os pingos grossos caíam na grama e no asfalto. Mamãe sempre fala que a chuva assim é perigosa, mas um sorriso brincava em meus lábios naquele momento. Era gostoso aquele som; reconfortante sentir meu cabelo pesado, as roupas encharcadas, a água escorrendo pela minha pele. Decidi ficar ali parado, esperando algo que eu mesmo não sabia o que era, mas uma hora aconteceria.

Olhei em volta, a praça estava deserta, cinza, triste. Quem mais iria arriscar aguentar aquela água toda? Naquele momento, enquanto a chuva caía sobre mim e porque ela estava caindo, eu sabia que era a pessoa mais feliz do mundo. Do meu jeito.

O vidro embaçou com a minha respiração, puxei a manga da blusa e passei na superfície gelada para poder continuar vendo através. Não fazia ideia de a quanto tempo estava ali. A chuva caindo, eu suportando-a com um sorriso. Ouvi crianças em algum lugar por perto, risos e vozes chegavam como ecos carregados pelo vento. Eu não conseguia encontrá-los com o olhar.

Vozes alteradas vinham do outro quarto. Pareceu começar por algo tão bobo que no início eu não dei atenção, mas logo eram gritos ecoando pela casa. Um trovão estourou em algum lugar, achei ter sentido o chão tremer. A chuva ficou mais forte no momento em que ouvi minha mãe gritar palavras que não consegui entender. Uma porta bateu. Passos no corredor, na escada…

Respirei fundo, o ar fresco na praça me completava naquele momento. Sentado no banco eu balançava as pernas deixando o tempo passar. Olhei para trás, a casa estava lá, a luz brilhando na sala.

Eles não entendem. Eles não se entendem e outra vez aconteceu. A discussão alta continuou no andar de baixo. Corri para a cama, deitei apertando o travesseiro sobre a cabeça. Eu não queria ouvir de novo. Mamãe e papai estavam lá embaixo. Juntos e totalmente separados. Eu também não entendia. Não fazia sentido algum. Era culpa minha?

Senti meu corpo frio sob a chuva que já tinha me deixado mole; o corpo meio sem resposta alguma. Fiquei imóvel primeiro, paralisado, mas nem o travesseiro ou a porta conseguiu abafar o som da discussão. Cansado e perdido pulei da cama, saí do quarto e desci as escadas correndo.

– Você não confia em mim.
– Não há motivo para eu confiar… não se importa mais com esta família ou…

As palavras que ouvi estavam cortando umas às outras. A voz grossa de meu pai, a tristeza de minha mãe. Meus ouvidos doíam, o coração apertado. Saí para a rua, eles não notariam por mais que eu batesse a porta. É… eles não perceberam.

Perdi a noção do tempo. Tremores percorrendo meu corpo; estava tão frio, mas eles não foram me tirar dali. Eu estava totalmente só. Respirei fundo me conformando com aquele mundo cinza. Era tudo que me restava. Fechei os olhos, rendido.

De repente a chuva sobre minha cabeça parou.

Em volta o ruído continuava, o que tinha…? Abri os olhos e um guarda-chuva estava sobre mim. Uma garota da minha idade sentara-se ao meu lado sem que eu notasse. A reconheci, era a filha dos nossos vizinhos. Já ouvimos muitas discussões na casa dela também. Seus olhos castanhos tinham um brilho tristonho. Ela suspirou e chegou mais perto para cobrir a nós dois, não parecia se importar com o banco molhado sob sua calça ou com meu estado encharcado.

Trocamos um sorriso sem jeito.

– Eu entendo você. – ela falou.

Éramos dois fugitivos e um guarda-chuva cor-de-rosa.

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Sobre o autor

Nasceu em Guarulhos-SP, em 1995. É formado em Letras / Editoração pela Mackenzie e trabalha como escritor com foco no fantástico e no maravilhoso. Tem o livro de fantasia "O deus adormecido" publicado pela Zap Book (2014).

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