O herói injustiçado – Luzilá Gonçalves Ferreira

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O heroísmo é, ao que dizem, uma virtude. Sei não. Na história dos povos sempre se exaltou a figura do herói como alguém que se sobressaiu em situações limite, em atos de coragem. Mas nem sempre, na história dos povos, o herói é recompensado. No Brasil conhecemos alguns nomes: Fernandes Vieira, Henrique Dias, Tiradentes, Zumbi dos Palmares. E entre eles, também mulheres: Clara Camarão, Joana Angélica, Bárbara de Alencar. Na destruição do Quilombo dos Palmares, dois nomes se sobressaíram, exaltados por governos e autoridades, e aos quais se prometeram recompensas diversas, terras, títulos. Por um tempo os sanguinários Bernardo Vieira de Melo e Domingos Jorge Velho, que se gabaram da morte de centenas de negros por suas próprias mãos, foram louvados e festejados. A promessa de sesmarias, traje elegante e comenda a Jorge Velho, parece terem chegado do Reino quando já o bandeirante morrera, esquecido, no Piauí, onde fora buscar ouro. Envolvido na Guerra dos Mascates, Vieira de Melo, deportado, morreu em circunstâncias misteriosas, numa prisão em Lisboa. Entre nós, um herói que existiu, que lutou, não foi reconhecido mas se lamentou, se queixou, se mostrou humilhado, esquecendo a qualidade de herói que chamava para si. Era poeta, chamava-se Zebedeu, se dizia filho de um certo Braz Vitorino. Quase uma criança, aceitou lutar contra o reduto dos negros em Palmares. Sob forma de poema em décimas, Zebedeu enviou ao Conselho Ultramarino uma Petição em que descrevia os horrores passados em combate, enquanto praça, e de que resultara aleijado. Pedindo ao Conselho que considere o caso, ele advoga para si, nada menos do que o posto de capitão. E escreve:

Ao Conselho Ultramarino
Que tão justiceiro é,
Zebedeu, praça de pé
Filho de Braz Vitorino,
Em moço, quase menino,
Para Palmares marchou
Pelo que lá se estrepou
Sendo um dos desgraçados,
Que voltaram aleijados
E por fim nada ganhou.
Ali de arcabuz na mão
Dia e noite combatendo
De fome e frio morrendo,
Descalço, de pés no chão
Ao lado do valentão
Felix José dos Açores
Que apenas viu dos horrores
O painel desenrolar-se
Foi tratando de moscar-se
Com grande sofreguidão.

Recordando a ajuda de Santo Antônio na luta contra os holandeses, segundo se contava, ele nomeia o Santo, também seu companheiro de lutas, havia pouco tempo sido nomeado militar pelos governantes:

Do que venho de narrar,
Apesar de ser bolônio,
Pode o padre Santo Antônio
Muito bem corroborar;
O que não é de esperar
Proceda d’outra maneira,
Atento a sua fieira
Sua afeição, valentia,
Pois junto a mim noite e dia
Não desertou da trincheira.

Os versos seguintes criticavam as injustiças do governo, as ações imparciais do Conselho, agraciando covardes, nulos, com doações de terra, ou dinheiro:

Ele viu bem, como eu,
Quando o combate soou
Quando a corneta tocou
A gente que então correu;
A essa foi que se deu
Como garbosa e valente
Terras, dinheiro, patente
Com grande injustiça e agravos
Pra aqueles que aos vis escravos
Não trataram como gente.

No final do poema, hipócrita e fingindo humildade: (era preciso bajular os poderosos) o simples filho do desconhecido Braz Vitorino confessa um desejo desproporcional, ambiciona o posto de capitão:

A vós Conselho afamado
Que a justiça só visais
Para que não amparais
O pobre do aleijado?
Que no mundo abandonado
Sem ter quem lhe estenda a mão,
Tem por certo a perdição
Da vida, pois quase morto
Só poderá ter conforto
Se o fizerdes – capitão.

O pessoal do Conselho Ultramarino deve ter rido com o poema. Evidentemente, Zebedeu, estrepado em combate, não obteve resposta. Quem já ouviu falar no pobre poeta como sendo um herói de Palmares?

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Sobre o autor

Nasceu em Garanhuns-PE, em 1936. Entre 1980 e 2006 foi professora de Letras da UFPE. Publicou mais de 30 livros, entre romances, contos e ensaios. Com o romance Muito além do corpo (1987), venceu o Prêmio Nestlé.

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