O homem dilacerado – Fernando Varga

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A cada passo dado, o morto lhe parecia pesar mais ao ombro. O rastro denunciando o caminho percorrido começava a pintar-se de pequenas manchas, pois a mortalha já se desgastava, machucando o corpo nas agruras do terreno. Ao perceber, o rapaz parou e jogou o pano com força ao chão.

– Arre! – gritou, enquanto ia até o lado do defunto. – Mas a culpa é do senhor, mesmo! Tinha de ir atrás de João Gabiru?

Encarou bravo aquela careta de morte matada. Depois, ajoelhou-se e repuxou a mortalha por debaixo do corpo.

– Desculpe. – sussurrou ao ouvido do finado.

Recolheu o pano e continuou a empreitada, os pés descamando de tanto agarrar no solo cru. Urubus seguiram-lhe por horas, fazendo um grande arco lá na frente, voltando tudo e desaparecendo um tempo lá pra trás. O sol castigou sem dó o andarilho até se esconder.

Passou a noite zelando o cadáver, que apodrecia e chamava a atenção de animais. Descansou o quanto deu as pernas enfraquecidas e as mãos feridas. Não teve sono, apesar da fadiga. Ficou olhando o corpo com remorso, mirando-o no rosto, esforçando-se para não perceber os rasgos dramáticos no abdome. Mas aqueles olhos aflitos pareciam-lhe reprovarem a covardia. Incomodado, mergulhou nas lembranças da infância para fugir àquela imagem. A vida sempre lhe fora difícil, mesmo antes de tudo isso começar, no entanto, há sempre um, ao menos um lugar bom para se visitar na memória.

Não soube se sonhou acordado ou se foram os seres nas trevas, mas os sustos foram constantes. Temeu solitário pela morte, os olhos arregalados para enxergar melhor enquanto o fogaréu iluminava ao redor de mansinho e criava vultos que se movimentavam. Agarrou-se à pistola confidente. Tudo foi ficando mais confuso conforme o fogo ia se enfraquecendo e a imaginação, por contrário, se iluminando. Só teve alívio aos primeiros raios de sol a despontarem no horizonte, distantes e rasteiros. Estava exausto. Porém, ficar ali parado seria ceder a alma do pai ao diabo. E depois a própria.

Caminhou alimentado pelo dever e pelo devir, e então lhe faltavam apenas alguns metros. Puxou o pano reunindo as últimas forças para manter as mãos fechadas. Nem mil enxadadas lhe rasgariam mais os calos do que aquele farrapo. Ao chegar ao lado do monte de terra remexida, para onde já haviam mandado seu irmão mais velho, outro facínora, largou o corpo do pai e estirou-se ao chão. Com os olhos fechados e a boca seca, experimentou a vertigem dos romeiros pagadores de promessas e suspirou.

Respirou o ar quente, sentindo grudar a camisa às costas e encher-se de terra. Ainda havia muito a fazer. Ajoelhou-se e, com as unhas e a revolta, pôs-se a arranhar a terra batida até fazê-la moer. A perseverança só não era maior do que a dor. Dor na alma, murcha, como fosse ela a varada de faca. As mãos, mesmo, já não as sentia.

Ao cair da tarde, a terra removida e as unhas esfaceladas deixaram uma cova rasa, mas suficiente para dar de proteção das intempéries da superfície. Por cansaço, carregou o defunto junto ao próprio corpo. Os braços laçando o peito e o rosto colado ao ombro, em um último abraço que não pôde dar ao pai em vida. Uma despedida sem glamour ou protocolos.

Quando o corpo rolou, largado buraco abaixo, a queda fechou-lhe a boca dura, o tronco estirou-se de lado e o rosto permaneceu virado para o céu, com uma mão estendida ao lado. Já não percebia mais, naqueles olhos, o desespero de ser matado. Apenas a fome de vingança.

Sacou a pistola da cintura e a observou por alguns segundos, antes de jogá-la sobre o finado. Poderia afirmar, por um instante, ter visto os lábios do defunto mexerem-se, como fosse aquele pai das lembranças de criança. Não lhe dirigia um “obrigado” pelo empenho, somente a alcunha com a qual acostumara-se desde sempre:

– Frouxo! – claro, típico.

Ao terminar de encher a vala com a terra removida, montou uma pequena cruz com gravetos e trapos da mortalha. Não orou, pois se Deus andasse por aqueles lados, não permitiria tanto sofrimento nas duas famílias. Também não jurou nada nem ninguém sobre leito de morte nenhum. Estava tudo enterrado. Apenas recostou-se, exausto e dilacerado, à sombra do final da tarde.

Nem antes fez e nem nada faria depois. Ao final das contas, era só isso mesmo: um frouxo. Só que agora era um frouxo livre. Permitiu-se, sim, soluçar os parentes já tombados e as incertezas da vida, se abrindo para ele. O sorriso empoeirado foi, então, sendo lavado, de pouquinho em pouquinho, pelas lágrimas escorrendo sem esforço.

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Sobre o autor

Nasceu em São Paulo-SP (1985). É estudante de Letras e redator web, tem contos publicados na Coletânea Universo Fantástico (Ed. PerSe) e na edição especial Cybéria da Revista Zzzumbido. Mantém uma página no Facebook em seu nome.

1 comentário

  1. Que linda ilustração! Que orgulho de fazer parte dessa edição e ter um puxadinho na casa da família Vacatussa.
    Parabéns a toda gente que trabalhou na edição e a que foi publicada!
    Um grande abraço e muito sucesso a vocês!

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