O internato – Nivaldo Tenório

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O internato fica longe, foi lá que meu pai aprendeu a ser homem, essas palavras são dele. Mais. Que por causa disso é que se formou engenheiro e se casou e assumiu os negócios da família. Mamãe me prometeu que ia me visitar sempre que desse, eu era seu melhor amigo, ela não sabia viver sem mim, e nos abraçamos. Sua pele molhada nas bochechas era salgada e morna.

Na semana da viagem, ouvi uma conversa dos dois:

“Não é o caixão dele que está saindo.”
“Você me prometeu que ele não estudaria lá.”

Eu passava as manhãs com mamãe. Gostava de ajudá-la na cozinha, Você está ficando craque nas saladas, ela dizia, e eu estava mesmo, mas o cheiro de cebola, mamãe, é horrível, pior nos olhos, Está chorando?

Depois do almoço, sozinhos de novo, a tarde era toda no quarto dela, deitados na cama. Ela às vezes cochilava, mas eu não conseguia, e pegava o álbum de fotografias e olhava tudo de novo. Só há fotos da menina, em baixo sempre um registro à caneta. Uma letra redonda e cuidadosa informava a ocasião: festas de aniversários, passeios, brincadeiras no parque. E do começo ao fim das páginas os vestidos iam perdendo os babados, as saias encurtando e os chapéus dando lugar aos penteados.

“Cadê seus cachos, mamãe?”
“Eu já lhe disse. Ficaram por aí.”
“Eu queria o meu cabelo como o seu.”
“Essas fotos estão me deixando nostálgica.”
“O que é nostálgica?”
“Nostalgia é saudade”, e naquela tarde me falou pela primeira vez da casa onde cresceu, das paredes claras, pois seu pai pintava todos os anos, antes das festas de ano-novo.
“Por quê?”
“Pelo mesmo motivo que mudavam frequentemente os móveis de lugar.”
“Qual?”
“Medo dos dias todos iguais.”

Então eu disse que não entendia o que ela queria dizer.

“Eu sei, meu querido, sou uma tonta, às vezes esqueço que você é só uma criança.”
“Já tenho nove anos.”
“Foi o que eu disse, venha aqui, dê um beijo em mamãe.”

E aí ela me falou sobre pintar a casa e mudar os móveis, e eu vi o pai dela, de camisa arregaçada, fazendo força pra colocar os móveis em seus novos lugares, enquanto a mulher, indecisa, aqui, meu bem, deste lado não, sim, um pouco para trás. Ele fazia tudo sem reclamar. Seguia as orientações e quando as indecisões dela geravam o esforço inútil, ele não se aborrecia, seus olhos estavam sempre bestas de amor, e os braços dispostos a qualquer esforço desde que a fizessem feliz.

No internato o início do semestre começava em março, era um dia claro, de chuva. Acordamos bem cedo.

“São duas horas de estrada, não vamos nos atrasar”, meu pai disse, no café, mas fora ele, ninguém comeu.

Cedo demais. Eu não sentia vontade de comer.

“Você não tem mais idade para essas bobagens”.
“Eu já guardei umas frutas e biscoitos que ele pode comer na estrada.”

Não. Eu tinha de comer. De me acostumar, pois no internato todos madrugam, tem a higiene pessoal e o serviço religioso, antes da escola, e lá todos dão uma enorme importância aos rituais e às coisas nos devidos lugares, por isso precisava comer, mesmo sem fome.

“Ele tem tempo. Não precisa começar hoje”. Mamãe, de novo, e diz como se já não houvesse dito que guardou umas frutas e biscoitos.
“É por isso.”
“Por isso o quê?”

“Você não me deixa bater nele. Não me deixa transformá-lo em gente.”

Eu ouvi papai dizendo isso à mamãe.

Foi no dia que ele resolveu que eu devia ir para o internato.

Eles foram chamados lá na minha escola, a diretora me mandou sentar e ligou para eles, ela olhava pra mim enquanto falava ao telefone, acho que foi meu pai que atendeu, ela lhe disse que ele precisava vir à escola e tinha de ser agora. Eu não conseguia ouvir o que ele dizia, acho que o tempo todo só ela falava e ele, do outro lado, estava impedido por causa da culpa do filho. Ela era uma mulher gorda e devia ser alta. Todo adulto era alto, naquele tempo. Ela aparecia do nada, vivia nos vigiando, atenta ao menor sinal que nos denunciassem.

A porta do internato é pesada. Parece porta de igreja. Não consegui ouvir se a campainha soou lá dentro. Achei que ela nunca fosse se abrir, que não era o tipo de porta feita para abrir, mas de repente ouvi passos e uma fechadura rangeu em seguida.

Nivaldo Tenório nasceu em 1970 em Garanhuns-PE. Publicou o livro Dias de febre na cabeça (2012), que ganhou nova edição em 2014 pela Confraria do Vento. Participou das coletâneas Tempo bom, Recife conta o Natal e Osman Lins de contos.

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