O lado avesso – Ana Lira

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… compreende?

aquela conversa antiga…
em que tentavas me explicar os vencedores…
palavra que me soa estranha

vencedor
vence-dor…
vencer-a-dor

não te parece estranho que o vencedor seja quem menos padece durante as batalhas?

mas o diálogo estacionou…
dois dias… dois dias… mais dias…

e o poder é dado a quem merece…
– muitas vezes, quem merece aceita as regras

o capitão-do-mato
o juiz
ou o rei

o que é a figura de um rei?
alguém que | ao desistir de sua própria trajetória | tenta conformar os traçados dos outros?

e contar a história como uma conquista sua…
o vencedor…

não te parece estranho?

durante séculos o que vence-a-dor sequestrou… perseguiu… queimou…
mas elas nunca perderam
elas
nunca
perderam

o fogo transmutou seus corpos em algo mais potente do que podemos imaginar…

um poema…
que ronda os campos sensoriais em ensinamentos-códigos
acendendo velas… fogueiras
promovendo alquimias…
criando novas formas por elas iniciadas

o lado avesso do conto-dos-vencedores é moradia dos sedimentos…

dos mistérios… das perguntas que precisamos fazer…
o espaço onde reside o além-da-representação…
o terreno de indagação das fórmulas…

o tear que emenda uma pergunta na outra…
como reticências em série
em fogo brando…
e chama acesa…

te parece estranho?

um dia… quem sabe… mais dias…
esta palavra enevoada-em-dor desfaça
e teu contar
refeito
recomece…

como no dia em que tentavas me contar
esta história que desmanchei

… compreendes?

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Sobre o autor

Nasceu em Caruaru-PE, 1977. Fotógrafa e artista visual que vive e trabalha em Recife. É especialista em Teoria e Crítica de Cultura. Foi integrante da Vacatussa e escreveu para diversos veículos impressos e online espalhados pelo país.

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