O mundo da gente tá sempre em perigo – Joana Rozowykwiat

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Ele vestiu o uniforme, engoliu o café da manhã, beijou a boca de mainha e fez um afago nos meus cabelos. A gente olhou pra ele com aquele jeito de sempre, achando tão lindo, tão forte. Ele saindo pela porta bem cedo, porque o mundo estava sempre em perigo, tinha hora pra bandido, não.

Não tardou e Dona Vera bateu à porta, queria algum favor. Um negócio aí de um sobrinho que tava envolvido com coisa ruim. Nem era nada de droga aquela vez. Era de dívida, parece. Quase que eu disse Pega a senha, dona, que aqui é pedido demais, nem Papai Noel na véspera de Natal recebe tanta encomenda. Nem a pizzaria de 10 reais no domingo à noite, minha mãe vivia falando.

Mas era assim mesmo. Tinha o povo agradecido, que respeitava, tinha o que invejava e tinha o que ficava com medo. Ele saía assim de uniforme e a gente via a cara das pessoas. Ele já tinha escapado de tanto tiroteio, emboscada, de tanta alma sebosa. Já tinha aparecido na televisão um monte de vezes. Prendeu assassino, estuprador, uns filhinho de papai e até o homem que robou um bujão de gás na rua de cima.

No bairro, tinha pra ninguém, não. Num aparecia um que mexesse com a gente. Era bom dia, boa tarde e boa noite. Julinha quer isso? Julinha quer aquilo? Todo mundo tentava agradar. Ou virava a cara. Esses dava pra ver logo que era gente que num presta, maloqueiro, faznadinha da Estrela.

Aí naquele dia ele saiu assim, o dia ainda raiando. Com a roupa toda completa. Vieram buscar ele na porta de casa. Num lembro se era protesto, se era assalto. Se tinha confusão, arruaça, bandidagem, pouca vergonha, ele ia lá resolver. E resolvia.

Foi por isso que, quando ele saiu, a gente olhou assim, com aquele orgulho, né? E por isso que, quando mostraram na televisão o povo todo xingando ele, chamando de filho disso, filho daquilo, eu não entendi foi nada. E tome a campanhia a apitar, a sala a encher, o telefone a tocar. E a gente bestinha lá, sem compreender o que danado era aquilo. Uma coisa tão sem cabimento, sem sentido. Uma hora o homem é o salvador, na outra ficam esculhambando. Ô povo falso, a gente ficou pensando.

Foi então que disseram que ele atirou num menino. Mainha disse logo que devia ser criminoso, flor que se cheire num ia ser. Mas depois todo mundo ficou sabendo. O pirralha era lá do bairro mesmo. Estudava até no ginásio, filho de Emerenciano do açougue. Na correria, um monte de pneu queimado, um fumacê, quebra-quebra, as lojas tudo fechando as portas, a galera gritando, aquelas bombas, né? Aí parece que o moleque falou alguma coisa, fez alguma ameaça, um gesto de que tava armado, sei lá. Sei que disseram que ele atirou.

Com certeza achou que era algum bandido mesmo, algum coisa ruim. A esposa de Emerenciano só fazia chorar na televisão. Conseguia dizer era nada. A patroa dela é que disse que era discriminação, porque o moleque era preto e pobre. Lá na porta de casa, até ovo jogaram. Ninguém teve mais paz, não. E eu ficava olhando aquela mulher chorando na tela e num tinha lógica nenhuma ele ter feito aquilo.

O negócio dele era com gente do crime, era ajudar as pessoas, resolver os problemas. E preto e pobre a gente também era. Esse povo fica sem noção às vezes, fica tudo cego. Porque bastava olhar a gente pra notar, né? Num tá vendo que ele num ia atirar, assim, do nada, no filho de Emereciano!

Mas parece que atirou mesmo. Filmaram e tudo. E eu só pensava nele saindo pela porta, todo fardado, todo-todo. Porque ô homem bonito, mainha deu foi sorte. Aquele jeitão de quem bota moral. Como é que pode ter atirado assim no menino? Num acreditei muito, não.

Até ver o vídeo no celular. Até a repórter aparecer lá na rua. Até que ele não voltou pra casa. Meu Deus, como pode isso? O mundo da gente tá sempre em perigo mesmo. De repente, vem alguém e rouba ele de nós.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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