Raimundo Carrero lança O senhor agora vai mudar de corpo

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Livros costumam revelar sobre quem o escreveu: indicam verdades secretas e imaginadas, sugerem emoções íntimas e forjadas. O senhor agora vai mudar de corpo, novo romance de Raimundo Carrero, ocupa a fronteira imprecisa entre memória, dor e criação; o autor revisa eventos trágicos – o Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em outubro de 2010, que deixou seu lado esquerdo comprometido – e a partir desse ponto propõe um relato baseado em biografia e ficção: lembranças e fabulações sobre a existência de um corpo em crise.

“Minha missão no mundo é escrever, e acho que tudo que acontece comigo deve ser transformando em literatura”, diz o autor, natural de Salgueiro. “Quando acordei lúcido, depois que adoeci, a minha primeira ideia era saber se ia conseguir continuar escrevendo. Fui liberado do hospital no dia 4 de novembro de 2010 e, quando cheguei em casa, liguei o computador e fui testar minha capacidade criativa. Percebi que podia escrever e naquele momento decidi escrever esse livro”, revela Carrero.

Passou algum tempo até o livro chegar à forma que Raimundo considerava ideal – não uma autobiografia ou autoajuda, e sim um romance. “Primeiro iria se chamar Às vésperas do sol, considerando a hora que acordei do AVC. Tentei escrever três vezes, mas sempre saía tipo relatório, ‘fui atendido tal hora’, ‘fiz tais exames’. Minha vida privada no fim das contas não tem interesse para o leitor. Quando a cuidadora me disse a frase ‘o senhor agora vai mudar de corpo’ vi o título e um romance sobre o AVC. A doença é um pano de fundo, é um livro de arte. Não procure respostas sobre o AVC ou cuidados. É uma reflexão sobre o comportamento humano, a condição humana”, destaca.

A história é narrada em terceira pessoa, uma voz atenta ao personagem Escritor – uma versão literária de Raimundo Carrero -, um observador sensível a suas dores e pensamentos sobre a existência de um corpo após uma tragédia. “Tentei antes escrever na primeira pessoa, mas não consegui bons resultados”, lembra Raimundo. “Depois de uma conversa com minha psicóloga, percebi que não podia tratar essa questão dolorosa como jornalismo, e sim como arte. A primeira solução foi sair da primeira pessoa, criar um personagem. Não é Raimundo Carrero, é um escritor chamado Raimundo Carrero, não a pessoa física”, explica.

Essa espécie de deslocamento é a chave para perceber o alcance universal da obra: o texto deixa de ter natureza expositiva, como um diário, e se torna algo mais amplo e difuso: uma intimidade destruída, a compreensão gradual de uma nova existência. “Consegui deixar o escritor solto enquanto personagem e o narrador oculto, sem deixar que os dois se contaminassem. Deu muito trabalho. Tanto que eu chamaria este livro de romance confessional. São confissões: busquei exemplos em minha vida privada, minha juventude, adolescência. Não é minha autobiografia, é um tratado sobre minha formação literária e vida pessoal”, sugere o autor.

Cada capítulo é dividido em temas: O corpo e o crime, O corpo e as sombras, O corpo e a arte; tópicos que indicam alegorias como recurso de estilo. “Quando tratava de um assunto real, buscava a metáfora. Esse é um livro típico de oficina literária, procurei aplicar todas as técnicas que ensino a meus alunos, nos cursos de literatura: o uso de metáforas, de símbolos, imagens, afirmações abstratas”, explica.

É um livro que ressalta as virtudes técnicas do autor pernambucano: Carrero parece dominar a história ao ponto em que os anos de preparo e escrita evoluem em um texto com o ritmo cativante do improviso. “A música pra mim é improviso, invenção, não é apenas repetição de partitura”, diz o autor, que tocou saxofone na juventude. “A literatura também é assim: solto minha alma, mas a técnica está tão integrada à escrita que posso usá-la com a facilidade e o fluxo de uma conversa”, diz o autor.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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