O observador e o nada – Micheliny Verunschk

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PRÓLOGO

Autora: Micheliny Verunschk nasceu em Recife-PE, 1972. É autora dos livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme, 2010), b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP.

Livro: O livro é composto por um poema dividido em quatro partes que ocupam 22 páginas na coleção Poesia Viva, do Centro Cultural Sã Paulo. Micheliny apresentou este texto no Autores em Cena, do Itaú Cultural, em 2006, uma leitura dramática (disponível no YouTube). No palco, a escritora é acompanhada pelo músico Edinho Almeida, com direção de Alberto Guzik.

Tema e Enredo: Ao longo do texto surgem imagens que impactam pelo que pulsam de dor e desejo; fascinam pelo que sugerem de podridão e mistério. A ideia de um santo matador, de uma carne dilacerada, de escadas para um inferninho particular articulam sensações de náusea e vazio.

Forma: O poema é divido em duas linhas narrativas que se alternam: há um narrador, sem identidade definida, trancado em um ambiente com um inseto; há também a busca desse narrador por um matador de aluguel, um santo libertador.

CRÍTICA

Asco e voyeurismo; um pesadelo

Em O observador e o nada, Micheliny Verunschk apresenta um poema curto e potente, uma singela caixa de pequenos horrores. É um texto que antecipa temas e interesses de narrativas posteriores, como seu recém lançado primeiro romance, Nossa Tereza.

O livro é composto por um poema dividido em quatro partes que ocupam 22 páginas na coleção Poesia Viva, do Centro Cultural Sã Paulo. Ao longo do texto surgem imagens que impactam pelo que pulsam de dor e desejo; fascinam pelo que sugerem de podridão e mistério.

O poema é divido em duas linhas narrativas. Há um narrador, sem identidade definida, trancado em um ambiente com um inseto; há também a busca desse narrador por um matador de aluguel, um assassino que mate por instinto, um santo libertador.

O primeiro verso indica a herança de certos cânones, sendo Kafka (Metamorfose) e Clarice Lispector (A paixão segundo G.H.) talvez mais próximos: “O inseto me observa”. Essa frase apresenta sintomas que voltam ao longo do texto: o asco e o voyeurismo; um pesadelo.

Há uma tensão intrigante gerada na união dessas duas possibilidades narrativas; um suspense onírico na linha dos filmes de David Lynch, que tem no pavor íntimo uma medida de reconhecimento – uma voz que revela seu “rio escuro e lamacento” de “águas podres”, que “exala o cheiro dos esgotos vivos”.

A imagem de um santo matador, de uma carne dilacerada, de escadas para um inferninho particular articulam, com espontaneidade inquieta, uma ideia de náusea, de vazio. Micheliny chega ao que parece central nesta pequena narrativa de ódio e ternura: o homem e a existência; Deus e o silêncio; o observador e o nada.

Existe no texto de Verunschk a beleza peculiar dos poetas que escrevem, sem esforço aparente, imagens que transcendem significados imediatos, permanecendo depois da leitura como peças de um estranho quebra-cabeças, assombrando pelo que mantém em segredo em um canto escuro.

É uma pequena narrativa que parece se completar na performance no palco, através da leitura dramática, da encenação de seus versos, da ambientação de suas possibilidades existenciais. A autora apresentou este texto no Autores em Cena, do Itaú Cultural, em 2006 (disponível no YouTube). No palco, Micheliny é acompanhada pelo músico Edinho Almeida, com direção de Alberto Guzik.

Lido em novembro de 2014

Escrito em 24.11.2014

 

FICHA TÉCNICA

O observador e o nada
Micheliny Verunschk
Coleção Poesia Viva, Centro Cultural São Paulo
2a. edição, 2003
22 p.

TRECHO

“Nenhum animal me pareceu mais ameaçador e

aterrorizante que a negra serpente do meu sonho, negra e

coberta de espinhos da cabeça

(de naja)

à cauda,

cada agudo, uma presa envenenada.

Era eu a serpente do meu sonho. E quando alguém a matou

(eu nunca mato, fraco pulso até no sono)

senti ternura e respeito pelo animal morto,

meu Deus sacrificado.

Quis tocar a serpente, quis me furar em seus cravos, quis

tatuar o seu rosto no meu,

minha culpa, minha culpa, minha culpa,

verônica tardia.”

 

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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