O olhar de Estevão Azevedo sobre Raduan Nassar

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Em 30 de Maio deste ano, o escritor Raduan Nassar foi agraciado com uma das mais importantes honrarias literárias da língua portuguesa: o Prêmio Camões, que confere ao vencedor um prêmio de 100 mil euros. Uma das novas vozes de destaque em nossa literatura contemporânea é o potiguar Estevão Azevedo, cujo romance Tempo de Espalhar Pedras foi o vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. Além de ficcionista e editor, Azevedo também concluiu recentemente, na USP, sua dissertação de mestrado sobre a obra de Nassar. Assim, para entender um pouco mais sobre a importância da literatura do autor de Lavoura Arcaica, conversamos, por email, com Estevão Azevedo.

CRISTHIANO AGUIAR | Para começar, por que deveríamos ler Raduan Nassar?

ESTEVÃO AZEVEDO | Sua obra é das melhores coisas que a literatura brasileira já produziu. Se ela não é grande em extensão — são apenas três livros, e não muito longos —, sua profundidade é vertiginosa. Raduan é um dos maiores estilistas da prosa brasileira, de uma singularidade impressionante. Ele se definiu em entrevista, de forma engenhosa, como um “paralelepípedo lírico”, e o peso e a densidade de seus textos, a energia neles concentrada, que vem em grande medida de um trabalho de linguagem nas fronteiras da poesia, tornam essa autodefinição brilhante.

Raduan não é dos autores que se pode facilmente encaixar numa linhagem, saber de quais outros descende ou quais lhe seguiram, e só isso, esse caráter de ponto fora da curva na ficção brasileira, já o torna motivo de grande interesse. Não bastassem as qualidades estritamente literárias, sua biografia também intriga e atrai muitos leitores: com pouco tempo de carreira e já consagrado, o autor não só decidiu abandonar a escrita como há mais de três décadas vem afirmando ter renegado a literatura, tão importante, segundo ele, quanto a criação de galinhas. Muitos especulam e querem crer que essa recusa é simulada, mas a coerência com que é mantida desde então é no mínimo exemplar.

CA | Se você pudesse apresentar a obra de Nassar para um leitor que não a conhece ainda, quais seriam as principais características a serem destacadas?

ESTEVÃO AZEVEDO | É uma obra ímpar, como eu disse acima. Ela se relaciona ao contexto de sua produção, os polarizados anos 1960 e 70 no Brasil dominado pela ditadura civil-militar, mas o faz por uma via subterrânea, tortuosa e indireta, na qual cabem múltiplas tradições: judaico-cristã, islâmica, filosófica, alquímica e literária. Essa voracidade faz com que seus textos tenham forte tom mítico-alegórico e deem conta de questões universais e atemporais.

O conto Menina a caminho, por exemplo, se passa numa pequena cidade que tem como uma de suas inspirações a Pindorama natal do autor, mas incorpora passagens, estrutura e descrições de textos da Grécia antiga para falar do processo de amadurecimento da personagem. Tanto esse conto quanto a novela Um copo de cólera e o romance Lavoura arcaica investem numa estrutura cíclica, trazem um final que mais parece um recomeço, mas que não é expectativa de redenção e sim perpetuação de uma impossibilidade, de um fracasso.

A novela traz um embate verbal e físico violento entre dois amantes, no qual está em jogo uma disputa pelo papel de narrador. Lavoura arcaica (assim como a novela, adaptado para o cinema, mas com mais sucesso) tem como personagem principal André, o filho que abandona a casa depois de cometer incesto com a irmã. A disputa entre pai e filho, cada um representando um dos troncos da família — o das regras versus o da libido, o da tradição versus o da novidade — rendeu algumas das passagens mais bonitas da literatura brasileira.

Outra característica marcante da obra de Raduan é, como já dito, a linguagem: ler um parágrafo de Lavoura arcaica, por exemplo, é uma experiência de prazer estético que independe, inclusive, da qualidade e da importância das questões de fundo ali discutidas. A sonoridade, o ritmo, a engenhosidade das metáforas, as aliterações, a força das imagens, tudo isso confere ao texto uma força que talvez não tenha par na literatura brasileira. Como exemplo aleatório, um trecho do romance:

“[…] eu, o epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto, arrolando na minha fala convulsa a alma de uma chama, um pano de verônica e o espirro de tanta lama, misturando no caldo deste fluxo o nome salgado da irmã, o nome pervertido de Ana, retirando da fímbria das palavras ternas o sumo do meu punhal, me exaltando de carne estremecida na volúpia urgente de uma confissão (que tremores, quantos sóis, que estertores!) até que meu corpo lasso num momento tombasse docemente de exaustão.

CA | Na sua dissertação de mestrado, você estudou de forma específica o tema do erotismo na obra de Raduan. Poderia falar um pouco mais sobre a sua pesquisa?

ESTEVÃO AZEVEDO | Na verdade o percurso foi o inverso. À medida que eu me detinha na obra de Raduan, mais e mais eu percebia que o fio que costurava tantas questões complexas e tantas tradições era o de um conflito erótico-discursivo. Ou seja, a obra tem no erotismo um de seus temas centrais, de modo que meu estudo não podia deixar de circular por essa seara. Abrindo aleatoriamente um de seus livros em uma página qualquer, é fácil notar que o autor opta sempre por ancorar sua imaginação em partes do corpo, não um corpo qualquer, mas o erótico, eleito como palco e arma dos conflitos. O corpo erótico serve como elemento de analogias universais, é a base de todas as metáforas.

No conto Menina a caminho, por exemplo, a protagonista deambula pela cidade e os episódios a que assiste — a conversa dos garotos, as brincadeiras de duplo sentido das senhoras na janela com o garoto na rua, o cavalo que urina, a descoberta do próprio corpo — fazem-na ter contato com sexo e violência, que se reunirão no desfecho da narrativa. Em Hoje de madrugada, um homem em seu quarto de trabalho recusa o pedido de afeto da mulher de “corpo obsceno debaixo da camisola”. Em “Aí pelas três da tarde” o narrador receita um desnudamento completo, de roupas e de regras. Um copo de cólera traz o embate verbal e físico — ideológico e sexual — entre uma mulher e um homem. Lavoura arcaica traz as marcas do imaginário licencioso: vertigem, excesso ou desmedida estão no cerne do relato de André, que deixou a casa da família após o incesto e é instado pelo irmão mais velho a retornar.

Minha pesquisa tenta entender de que forma esse erotismo viril, encampado quase sempre pelos protagonistas-narradores masculinos, uma vez ameaçado — pela cultura, pela mulher, pela velhice, pela lei —  reage violentamente por meio do apego ao privilégio da narração. Os protagonistas de Raduan almejam o silêncio de um tempo pré-viril, de uma infância em que a sexualidade não seja vista como ameaça, mas para tentar resgatar essa experiência do passado, não param de falar, defendem com unhas e dentes seu protagonismo verborrágico.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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