O marechal de costas – José Luiz Passos

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PRÓLOGO

Autor: José Luiz Passos (Catende-PE, 1971) é escritor, crítico literário e professor da UCLA. Mora há vários anos nos Estados Unidos. Seu romance O sonâmbulo amador ganhou o prêmio Portugal Telecom em 2013.

Livro: Competente projeto gráfico da Alfaguara. A composição da imagem da capa traduz uma importante metáfora encontrada no encerramento do romance.

Tema e Enredo: Acompanhamos diferentes linhas temporais ao longo do romance, porém todas são mediadas por duas vidas: a do marechal-golpista Floriano Peixoto, nosso segundo Presidente da República e o primeiro dos Vices a assumir o poder em nossa ilustre história republicana; uma cozinheira alagoana, vivendo em 2013 como agregada de um jurista aposentado

Forma: O autor do premiado O sonâmbulo amador não escreve um romance histórico tradicional. Pelo contrário, a fragmentação que já encontrávamos em seus dois romances anteriores reaparece aqui, desta vez bem melhor amarrada do que antes.

CRÍTICA

O passeio de Floriano

O fundamento do ótimo romance O Marechal de Costas, do pernambucano José Luiz Passos, se baseia em uma reflexão a respeito da ideia de tempo. Há dois ensaios de Borges que podem nos ajudar a entender esta hipótese. O primeiro é Kafka e seus precursores, no qual o escritor argentino cita uma série de autores – Lord Dunsany, ou Kierkegaard, por exemplo –  que, não obstante sejam cronologicamente posteriores a Kafka, aos nossos olhos nos soam irredutivelmente kafkianos. E por quê? Devido ao fato de que uma obra acaba nos levando a reler o passado de outra maneira, a partir dos novos pressupostos estabelecidos por ela. Dizendo de outra forma: o passado a todo instante se move, como um magma, sendo ressignificado por cada contexto de contemporaneidade. Assim, nas tantas dinâmicas dos atos de leitura, não basta entendermos o tempo como algo linear, pois Kafka não só possui precursores, como é simultaneamente o precursor destes mesmos precursores.

O segundo ensaio de Borges se chama Nova refutação do tempo. Neste caso, Borges questiona a nossa tradicional perspectiva de que o tempo é constituído por uma relação de causa e efeito. Qualquer coerência concedida à experiência histórica é uma artificialidade; o que há, pelo contrário, são instantes autônomos e absolutos. É como se cada fato fosse, por si só, infinito; cada fato seria um elo independente em uma rede de multiversos: “não existe a vida de um homem, nem sequer uma de suas noites; cada momento que vivemos existe, não seu imaginário conjunto. O universo, a soma de todos os fatos, é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos com que Shakespeare sonhou”; “As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada e muitos espelhos”.

Ora, do que trata O marechal de costas? Acompanhamos diferentes linhas temporais ao longo do romance, porém todas são mediadas por duas vidas: a do marechal-golpista Floriano Peixoto, nosso segundo Presidente da República e o primeiro dos Vices a assumir o poder em nossa ilustre história republicana; uma cozinheira alagoana, vivendo em 2013 como agregada de um jurista aposentado. Embora tanto as Jornadas de Junho, quanto os primeiros anos da República Brasileira, sejam as principais molduras históricas do livro de Passos, personagens como Dom Pedro II, Dilma Rousseff e Napoleão Bonaparte nos mostrarão vislumbres de outros contextos históricos e dramas políticos. O autor do premiado O sonâmbulo amador não escreve um romance histórico tradicional. Pelo contrário, a fragmentação que já encontrávamos em seus dois romances anteriores reaparece aqui, desta vez bem melhor amarrada do que antes. Há um equilíbrio maior na linguagem do romance: Passos enxugou os excessos de lirismo do seu primeiro livro; assim como não está presente o mundo delirante d’O sonâmbulo amador. A própria matéria-prima da qual ele parte assim o exige. Mais adiante, tento explicar por quê.

Uma das primeiras palavras-chave através das quais precisamos pensar O marechal de costas, aliás, é justamente essa tal de política. Comentários críticos empolgados a respeito deste romance, assim como do recém-premiado, com o Jabuti, A resistência, de Julián Fuks, me deram a impressão de que a literatura brasileira teria abraçado o seu potencial político apenas em 2016. Não me entendam mal, pois a empolgação sobre os dois livros é justa e bastante merecida, contudo a força política da literatura brasileira está consolidada há muito tempo. De Graciliano Ramos, passando por Carolina Maria de Jesus, de Lygia Fagundes Telles a Machado de Assis, o político é um dos campos de privilegiada atuação da nossa prosa ficcional. O que há de bem-vindo, no entanto, é outra novidade, no caso de Passos (sobre Fuks, conversamos em outra oportunidade): O marechal de costas é um dos nossos poucos romances a enfatizar a problematização das cenas do poder político. Sim, aqui temos algo novo e instigante. O marechal de costas nos lança, em vários momentos, aos campos de batalha, simbólicos e literais, da política institucional e dos seus protagonistas.

Deste modo, O marechal de costas é a primeira obra significativa a explicitamente tematizar, mesmo quando seu foco maior está no século XIX, o período de transição, apontado por muitos como tendo iniciado em 2013, de mais uma fase da democracia brasileira. Além disso, ele é também o primeiro grande romance-sintoma da crise, trauma e miséria que têm assolado a nossa esquerda. Na violência das vidraças quebradas, assim como no personagem do professor esquerdista, encontramos a discussão ambígua dessa crise. Leio a ideologia de O Marechal de Costas como vinculada à esquerda, no entanto,  Passos, através em especial do personagem do professor, tensiona o pêndulo ideológico do romance, como se nos recomendasse: “atenção, há algo de disfuncional em nosso discurso; estamos em um beco sem saída” (duvidam? Leiam as bobagens que o personagem fala sobre a classe média a partir da página 112, classe social que é, afinal de contas, um dos calcanhares de Aquiles do pensamento de esquerda brasileiro).

Voltemos, portanto, àquelas ideias de Borges sobre o tempo. Na página 147, Passos escreve: “Que ano é este, 1815, 1893, 2013?”. É justamente a relativização da ideia de um tempo linear, de estritas causas e efeitos, que organiza toda a estrutura do romance. Neste sentido, a fragmentação narrativa, muitas vezes um cacoete das escritas contemporâneas, é a forma adequada aqui, pois transforma em linguagem literária não apenas uma concepção relativizada do tempo, mas também das dinâmicas históricas, políticas, que são o assim chamado “conteúdo” de um romance. Esta dinâmica é ainda fortalecida pela entrada de um tom ensaístico em diversas passagens do livro, nas quais Passos inclusive cita as fontes históricas – reais, ou não (confiram o jogo de “falsa não ficção” da página 184) – que foram consultadas, quebrando a todo instante a quarta parede do romance. Napoleão, Floriano, Dilma, Dom Pedro II, Custódio de Mello, Silvino de Macedo, entre outros personagens, têm momentos de suas vidas justapostos uns em relação aos outros, formando um grande amálgama de uma mesma catástrofe a se repetir. Afinal, é surpreendente nos depararmos não só com mais um Vice nas rédeas da República, mas saber, como bem reconstitui o romance na página 152, que a gota d’água da crise que precipitou a queda de Dom Pedro II foi justamente uma querela sobre o preço das passagens dos bondes! Por fim, aos olhos de nós, leitores contemporâneos, como não enxergar Michel Temer – nomeado, de forma escondida, em um trocadilho contido em O marechal de costas  – como o maior dos precursores de Deodoro e Floriano Peixoto? Penso que é exatamente por aí, em um gesto borgeano, que o livro de Passos quer nos conduzir.

Ainda sobre a linguagem, eu me referia anteriormente a um estado de equilíbrio que José Luiz Passos adquiriu em seu novo livro. O viés poético e onírico de sua prosa continua em O marechal de costas, porém de modo bastante pontual, em imagens belas e estranhas tais como “Contra o azul da tarde, o II lembra um tomate escurecido, uma bexiga subindo afoita com seus dois riscos em forma de cobra, um seio, muito embora não seja a fruta nem as serpentes o que ocorre a Floriano, mas sim a cabeça de uma criança ansiosa, tirando do berço, pela primeira vez, seus olhos de engolir o mundo”. O traço poético no romance potencializa uma história que, por si só, é contundente e sempre um tanto absurda. Dias atrás, assisti a uma mesa na Balada Literária na qual os dois autores convidados falavam, admirados, o quanto os acontecimentos dos últimos anos – e a temporada deste seriado, em 2016, é a mais desconcertante – eram mais impressionantes do que aquilo que a imaginação de escritores ou roteiristas conseguiria alcançar. O mesmo se diz dos fatos históricos recontados em O marechal de costas, pois sabiamente Passos evita uma mão pesada na condução narrativa e simplesmente deixa o passado fluir.

Isto nos leva, para encerrar, ao seu maravilhoso protagonista. O Floriano Peixoto de O marechal de costas é revelado em momentos de absoluta intimidade, em algumas cenas. Apesar disso, a sua opacidade só faz se intensificar. Conjugando fatos criados pelo próprio Passos com dados históricos, Floriano é criado com complexidade; suas questionáveis escolhas políticas estão postas, mas também sua condição humana e mesmo as boas realizações do seu governo (p.186). Quem foi, afinal de contas, este soturno nordestino, obcecado por Napoleão Bonaparte, pai de uma numerosa prole de filhos, desenhista de vaginas? O romance não só não nos dá uma resposta, como põe em evidência a impossibilidade de uma resposta. Porque, para além de pensar a natureza do tempo, há também, estruturando a criação ficcional do seu protagonista, a constatação do quanto cada vida humana é indevassável. Uma pena, por outro lado, que no núcleo contemporâneo, não tenhamos personagens tão bons quanto Floriano e os seus coadjuvantes. Neste ponto reside minha única ressalva a O marechal de costas: nenhum dos quatro personagens – o professor, a cozinheira-narradora, o jurista e seu filho – fogem de um certo esquematismo, em especial no caso dos personagens masculinos. Eles me pareceram mais dispositivos que fundamentam uma estrutura temporal, e temática, romanesca e menos seres vivos. Mesmo a cozinheira, que chega a trilhar um arco narrativo completo, com direito a uma surpresa ao final do romance, não tem tanto a dizer. Para alguns leitores, isto será suficiente; não o foi, no meu caso. Esta ressalva, no entanto, não abalou o prazer que senti ao ler o romance, um dos belos lançamentos de 2016, ano cujos ecos continuarão ao longo de um incerto 2017.

Lido em novembro de 2016.
Escrito em novembro de 2016.

FICHA TÉCNICA

O marechal de costas
José Luiz Passos
Alfaguara
1a. Edição, 2016
200 páginas

TRECHO

“A República inventou a censura. Imaginem. Mas Floriano permaneceu vice fiel, embora contra o golpe. Em carta, disse, Não sou mais amigo do sr. Marechal Deodoro desde o dia em que ele duvidou da minha lealdade, ele disse assim, Mas sou seu camarada, sou militar e, antes de tudo, sou brasileiro”

OUTRAS OPINIÕES

Diogo Guedes, no Jornal do Comercio, em 23 de outubro de 2016

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2016/10/23/livro-de-jose-luiz-passos-aborda-politica-passado-e-presente-257801.php)

“Sem conclusões óbvias ou partidarismo, o autor pernambucano cria um romance sobre a política ainda mais impressionante por ir alé dela. Sua prosa, mais fluida, ainda que com a mesma qualidade de O Sonâmbulo amador, sugere que a ‘gênese do passado está no presente, não o contrário’, citando Rousseau.”

RobertoTaddei, na Folha de S. Paulo, em 29 de outubro de 2016

(http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/10/1827285-obra-mistura-se-a-perplexidade-diante-dos-fatos-de-nossos-dias.shtml)

“aos poucos, vamos nos relacionando com essas figuras “históricas” na chave livre da ficção. No romance, temos maior chance de experimentar conexões atemporais com os personagens num processo que nos humaniza em nossas baixezas e grandezas. Não há santos nem demônios na política brasileira ou nas revoltas das ruas, de hoje ou de ontem.”

Ubiratan Brasil, n’O Estado de São Paulo, em 9 de novembro de 2016

(http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,analise-livro-sobre-floriano-peixoto-mostra-um-golpista-visto-pelo-avesso-e-sua-sombra-moderna,10000087144)

“Idealizações à parte – há também nas mulheres um espírito bélico intolerável –, o fato é que a bisneta de Floriano é um contraponto que merecia melhor tratamento ficcional. A impressão é que se lê um romance feito em estado de emergência, sem tempo mesmo, construído de fragmentos. Floriano emerge como um onanista incestuoso que poderia ter saído das páginas de Lavoura Arcaica, um sexomaníaco que “via no Corcovado e na Serra dos Órgãos formas e volumes de mulher”. E também como um vice (do marechal Deodoro, primeiro presidente da República) pouco confiável.”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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