O sexo, a cidade e uma rainha – Michele Santos

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Acima, o céu de Barcelona inaugurava a noite. Antes de achar as chaves, deu com O Julgamento, arcano maior do tarô, vinte anos entremeado a si. Guardara a carta de tarô como se um patuá. Atrás, o recado epistolar: “buscar fora/meus dentros”. Fé depositada no verso do arcano, tão logo saíra do tarôzinho da Brígida na Consolação, o misticismo em voga, as palavras em eco da amiga, ‘você deve buscar fora’. Fazia 1989, São Paulo, devia ter uns dezoito anos.

Quando Brígida vaticinou a previsão, Eli – no RG constava Eliseu – encasquetou que tinha a ver com a transfiguração que almejara desde sempre: libertar a rainha que sempre habitara o corpo nascido de pau, a vergonha do pinto desde a escola, Elisabete viadinha! Pois: viadaça. Mais tarde, a culpa posta em silêncios na mesa do jantar pelos esfregas diários com outros meninos, ‘esse menino não abre a boca, Dina’; ‘tá com quebranto, leva na benzedeira’; ‘já tentou um psicólogo?’ – a casa pesava de pudor, uma cruz gigantesca acima da cadeira do avô demarcava a mui respeitosa vaga, o lugar nunca mais ocupado desde sua morte, até a noite em que se viu só com o colega em casa, os estudos pré-vestibular, e foi na sagrada ocupação do fantasma que deixara-se preencher, febril, no colo grosso do amigo Fábio. Jurava ver a cruz em chamas, ou talvez não; então só o que abria nele, pela primeira vez, era que queimava, fundo, ardido. Passara semanas de febre junto ao mutismo habitual. Inaugurava a si uma obsessão: como seria ter sido invadido acaso houvesse uma porta de frente? Munido da curiosidade, deu a conhecer as mesmas ruas em que viviam, noturnas, elas. Iniciado no hormônio, logo os comprimidos iam suprimindo pelos, pomos, o grave da voz. Abdicados os estudos e a família, soubera por carta registrada, entregue na quitinete da Santa Cecília, que a avó passara e o espólio seria dividido entre os netos. Os medos grandes pelo risco de o futuro encostar-se no das companheiras, mortinhas de faca, escondidas em matagais, ignoradas pelas famílias, diluíam-se. Apertou com extremada fé ambas as cartas. O julgamento. A herança. A mudança, enfim. Chorou.

Nesse dia rezou a alma da avó.

Com os contatos postos, a estadia em Bangkok antes da Europa, cidade de grandes mormaços e médicos fazedores de fêmea. Correu inaugurar-se em Barcelona, quando finalmente cicatrizada. O agente, um italiano alaranjado, havia de fato encomendado a vinda de um travesti jovem, bonito, de pouco uso; un travestito, cazzo! Descartou-a. Um mês foi o prazo dado para arranjar-se com a volta.

Não, não voltaria. Poderia ficar perdida por dias em delírios de admiração no oco entre as pernas, uma mulher, uma mulher! – exaltava-se. Em precisando, voltaria a fazer rua, decidiu.

Não foi preciso. O mês passando em agonia até o vigésimo nono dia, numa daquelas ocorrências fantásticas; das que empenam a guilhotina do herói no julgamento, das que enveredam o tiro pela culatra, das que inventam mil e uma histórias para adiar a morte. Era o tempo da série Sex and the city e a febre da brazilian wax, especialidade de Eli nos dias da quitinete. Não fosse a astúcia com as bandagens de cera quente e o sucesso da técnica, não estaria a essa hora mesma buscando as chaves e dando com a carta de tarô no bolso do casaco, depois de encerrado o expediente do Reina Elizabeth, a tranquilidade de mais um dia passado entre elas, tão distintas entre alegres, flácidas, polpudas, envaidecidas – desejosas vaginas peludas.

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Sobre o autor

Paulistana, agitadora cultural, mulher, professora. Publicou "Toda via", no verão de 2015 e tem textos nas revistas Mallarmagens, Raimundo, Gente de Palavra, Magma, e em diversas antologias independentes.

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