O vinho – Roberta S. Saboya

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Um sábado chuvoso. A primeira noite em que ficava sozinha em muitas semanas. Jamais transformaria o sentimento em palavras, mas a verdade é que estava aliviada. Deixou o silêncio da chuva entrar pela janela. Sentia-se exausta do entra e sai dos filhos, sempre à espreita, repetindo em looping a mesma pergunta todos os dias. Estava preenchida de carinho e cuidados na mesma proporção em que esmagada pela cobrança.

O que ela deveria sentir? Mesmo sem saber, respondia aos filhos sempre que perguntavam: “Sim, estou bem”. “Sim, estou bem”. “Sim, estou bem”. O confuso era que estava de verdade. Desde a morte do marido, não tinha tido tempo para sentir nada. Ou será que não sentia nada por que seu casamento já não era mais amor? Era nada, além de rotina.

Com a janela aberta, percorreu os cantos do apartamento onde morava há vinte anos. A cada passo, ela era preenchida pelo prazer de ser a dona do próprio território. Viu as roupas, os remédios, os sapatos do homem que uma vez amou. Estava tudo no lugar, como ela sempre quis. Finalmente agora ia conseguir manter o apartamento arrumado, como sempre quis. Foi à cozinha e preparou uma macarronada ao pesto com muito manjericão, do jeito que gostava e nunca pôde fazer. Ele odiava! Enquanto cozinhava, lembrou de cada idiossincrasia do marido, hábitos que a levavam à loucura todo santo dia. Comeu bem devagar, degustando não só o molho pesto, mas o poder (a liberdade?) que sentia a cada garfada. Depois, sentou-se à frente da tevê para escolher o filme da vez. Não haveria debate. Ela estava no comando. “Sim, estou bem”. “Sim, estou bem”. “Sim, estou bem”. Respondia para si mesma às perguntas que não se calavam nem na ausência dos filhos.

Meia hora de filme e percebeu que faltava alguma coisa para fazer do sábado chuvoso uma noite perfeita. Foi à adega e pegou o melhor vinho que tinha. Procurou o abridor e iniciou sua saga. Tentou abrir a garrafa uma, duas, dez vezes. Não conseguia.

A chuva aumentava lá fora. Tanto, que teve que fechar a janela. Os pingos passaram a bater forte contra o vidro. O que era silêncio passou a ser ruído. Ela colocou uma música qualquer e voltou a fazer tentativas. Onze, doze, vinte tentativas frustradas. Foi então que se deu conta que jamais abrira uma garrafa de vinho antes. Era tarefa dele.

O barulho da chuva ficou mais alto do que a música, mas ela não conseguia tirar as mãos do abridor e da maldita garrafa de vinho. Era uma questão de honra. Tentou tanto, que conseguiu quebrar a rolha. Mas o vinho continuava fechado. Talvez se empurrasse a rolha… Ela tentou e tentou. Faltava muito pouco. Seria mais uma vitória numa noite só dela. De repente, parou. Percebeu que estava contabilizando os desafios, tornando memoráveis sentimentos transitórios para poder compartilhar com ele. Olhou o apartamento, as fotos, as roupas, a poltrona vazia. A rolha quebrada nas mãos, entendeu que perdera seu companheiro de rotina. Abriu a janela para tentar respirar. Sufocada pela dor, ansiou que a porta da frente se abrisse e ela pudesse dizer ao primeiro filho que chegasse: “Não, não estou bem”. “Não, não estou bem”. “Não, não estou bem”.

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Sobre o autor

Nasceu no Rio de Janeiro (1976). É escritora e roteirista. Roteirizou programas como Socorro! Meu filho come mal e Mar doce lar. Trabalha em seu 1º livro. Escreve para ninguemperguntoumaseuvoufalar.com

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