Obituário – Alex Xavier

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Falecerá amanhã, quarta (29/02/2017), em Santo Antônio do Engenho de Baixo-SP, aos 73 anos de idade, o obituarista Egberto Teixeira Gomes, vulgo Arauto da Morte, como era chamado, pelas costas, na redação. Autor de cerca de 800 mil necrológios durante os cinquenta anos dedicados ao diário Folha do Estado, na capital, orgulhava-se por jamais anunciar uma morte em falso, apesar dos leitores que, todos os dias, enviavam a ele a notícia da passagem de si mesmos para o outro plano, em uma tentativa de descobrir se alguém se importaria com elas, se amores nunca gritados seriam, enfim, anunciados, se velhos inimigos teriam remorso pela ausência do contraponto, se os amigos se libertariam da obrigação de elogiá-los e deixariam escapar os porém e os no entanto que esconderam por tanto tempo. Conhecido como reservado e conservador, nas poucas vezes que foi visto fora do ambiente de trabalho, assistia, desacompanhado, a um filme no cinema. Seus relacionamentos mais duradouros foram com o fila Maximus, companhia nos passeios pela praça perto de sua casa na Lapa, e com o barbeiro, que cortou seu cabelo por quarenta anos, sempre com o mesmo penteado da esquerda para a direita. No jornal, costumava sair de sua sala somente para comemorar uma vitória do São Paulo diante da mesa do santista Eliseu Tamada, o editor de Esportes. Deixa noiva e filho, cuja existência será surpresa para todos, pois abandonou ambos – ela, no altar, ele, na barriga dela – quando deixou, aos 22 anos, sua cidade-natal. Voltou apenas em seus últimos dias atrás de redenção e à procura de um novo dono para o velho Maximus. A família não participará o ocorrido nem convidará parentes e amigos para acompanhar o sepultamento, pois a ex e o herdeiro recusaram tanto o cachorro como o pedido de perdão, motivando a angústia que levou, mais tarde, àquela pontada no peito. Neste momento, aguarda o fim, sozinho e sem sinal de celular, no chão gelado da casa do antigo sítio de seus avós, onde deve ser encontrado dentro de três ou quatro dias, dependendo de como o primo Albertino se sai na pescaria. O corpo será velado com o caixão fechado, porque o cão, faminto, não tardará a devorá-lo. Entre soluços, Gomes escreve o próprio obituário, mesmo após jurar por décadas que nunca o faria. A quinze minutos da meia-noite, espera apenas resistir a tal intervalo para não errar a data de seu próprio óbito, manchando um currículo impecável.

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Sobre o autor

É paulistano e tem 42 anos. É um jornalista refugiado na ficção. Integrante do coletivo literário Discórdia (www.facebook.com/ColetivoDiscordia), publica no Medium (@alexxavier_27042) e em revistas como Gueto e Subversa.

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