Olá, robô – Cristhiano Aguiar

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Toda casa possui uma série de barulhos cotidianos. Alguns têm origem do lado de fora: aquele passarinho na janela, o acelerar do motor de um ônibus ou os reclames dos vendedores de rua anunciando frutas, por exemplo. Outros barulhos são mais domésticos: os rangidos das portas, latidos do cachorro no quintal ou os estalos da dilatação, ao longo do dia, dos brutos materiais que compõem os objetos.

No caso da minha infância, me acostumei a escutar, antes de dormir, um som peculiar, que classifico ao mesmo tempo de doméstico e estrangeiro. Com a casa às escuras, meu pai, professor de engenharia elétrica da então Universidade Federal da Paraíba, tinha o hábito diário de trabalhar madrugada adentro no seu escritório. De repente, eu ouvia, deitado já na minha cama, uma sequência de sons robóticos vinda daquele escritório. Todos aqueles que usaram fax ou utilizaram internet discada sabem do que estou falando. Trata-se daqueles barulhinhos que indicavam o processo de conexão do computador com a internet. Agora mesmo os escuto. E volto à hoje inacessível casa onde nasci e cresci, lá em Campina Grande, toda às escuras – agora mesmo ela está imersa na noite –, porém permeada pela luminosidade meio branca, meio azulada, do local de trabalho do meu pai.

Digo isto para explicar o quanto os computadores e a internet entraram precocemente na minha vida. Por meu pai trabalhar academicamente com tecnologia, tive contato com o futuro de forma muito mais rápida do que o normal, ou pelo menos mais rápido do que seria o usual a uma criança vivendo nos anos 80/90 no interior da Paraíba. Logo, quando na minha escola chegou o laboratório de informática, nada daquilo era novidade para mim. O mesmo não pode ser dito de outros colegas meus e a escola foi para muitos deles o primeiro contato com um computador. Com a chegada do laboratório, foram implementadas as Aulas de Informática. Eu as detestava e hoje sei o motivo: era um conteúdo metalinguístico. O computador usado para ensinar a se usar um computador. Diante daquele contexto, no qual toda uma inclusão digital ainda não tinha sido feita no país, fazia sentido, contudo a proposta pedagógica parava aí. A nova tecnologia não ajudava no ensino da língua portuguesa, da história, da geografia, da matemática. O pior é que muitos dos programas e do sistema operacional estavam em inglês, o que dificultava a vida de vários alunos. Em tempos de catástrofe, há sempre os beneficiados: por já ter um em casa há bastante tempo, virei uma espécie de monitor involuntário daquelas aulas.

Um dia descobri em uma das máquinas da escola um programa simples, que permitia aos alto-falantes do computador reproduzirem em áudio qualquer coisa que a gente escrevesse nele. Na ocasião, eu ajudava um colega, que tinha vindo do sertão estudar em Campina Grande, a usar os comandos básicos da computação. O garoto tinha origem muito humilde e estudava na escola com uma bolsa de estudos. Prodígio da matemática e da física, apresentava muitas dificuldades em português e penava com os computadores. Desta forma, ajudávamo-nos.

Abri o programa e disse ao colega: escreve aí qualquer coisa e aperta o Enter. “Olá”, ele digitou, e em seguida ouvimos uma voz feminina, sem força, sem expressão, nos dizer Olá. Meu amigo afastou as mãos do teclado, surpreso – comecei a rir. Digitei as palavras e ouvimos: Qual seu nome. Nunca esquecerei a sua expressão de espanto. O dia acabava de se tornar muito estranho. As máquinas falavam! Éramos ficção científica. Minha vez!, ele quase gritou. Após sua digitação, lenta, ouvimos: Cristhiano babacão. Meu colega soltou uma gargalhada de supervilão dos quadrinhos; ao lembrá-la aqui, sinto uma ponta de inveja. Passamos um bom tempo escrevendo as frases mais malucas possíveis, coisas toscas, sem sentido. O computador, coitado, declamava, sem vergonha e consciência, a maior quantidade de abobrinhas possíveis de serem criadas por nós dois. Mas nada se comparou, e por isso, como esquecê-lo?, ao olhar e à primeira gargalhada do meu amigo. Porque era de coração, o flanco da alma exposto. Nosso espanto, nossas risadas, eram a gente abrindo os portais do mundo.

Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande-PB, em 1981. É escritor, crítico literário e doutor em Letras pela Mackenzie, onde hoje atua como professor. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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