Ópera e outros contos – Newton Moreno

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AVALIAÇÃO

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Muito bom
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PRÓLOGO

Autor: Newton Moreno nasceu no Recife-PE, em 1968. É formado em Artes Cênicas pela Unicamp, área em que também se tornou mestre e doutor pela USP. Como dramaturgo, recebeu prêmios como o Shell, APCA e Bibi Ferreira.

Livro: Publicado com incentivo do Funcultura, Ópera e outros contos reúne 25 contos. A edição conta com prefácio do escritor Marcelino Freire e projeto gráfico de Bruno Parmera.

Tema e enredo: O livro traz histórias sobre personagens que se encontram a margem, seja por questões raciais, econômicas ou sexuais. Em outros contos, o foco é mais o amor, com relações passionais, narrativas românticas e histórias de abandonos.

Forma: A veia teatral do autor se apresenta na predominância de histórias baseadas em personagens, no cuidado com descrições físicas, em narrativas baseadas em ações e na caracterização direta das emoções dos personagens.

CRÍTICA

Eu, você e Newton Moreno: uma questão de alteridade

Newton Moreno é hoje um dos principais dramaturgos do Brasil. Autor de peças celebradas como Memória da cana, As centenárias, Agreste e Maria do Caritó, ele já teve seu trabalho reconhecido conquistando prêmios como o Shell, o APCA e o Bibi Ferreira. Embora já tenha outros dois livros publicados – Agreste bodyart e As centenárias & Maria do Caritó –, Newton Moreno agora se aventura no terreno da literatura com a publicação de Ópera e outros contos, que reúne 25 histórias, algumas delas já adaptadas para o teatro na montagem Ópera, de 2006, pelo Coletivo Angu de Teatro.

Nessa estreia, a veia teatral não o abandona, revela-se em histórias baseadas em personagens, no cuidado com descrições físicas, em narrativas baseadas em ações e na caracterização direta das emoções dos personagens. Na literatura de Newton Moreno, não há muito espaço para mergulhos na alma, mistérios, fragmentações e sugestões, como se prega na literatura contemporânea. Seus personagens carregam as exigências do palco, são caricatos, não no sentido de rasteiro ou ridículo, e sim da necessidade comunicativa de se impor de imediato.

E como se impõem. Aqui, o resquício da necessidade da linguagem teatral se alia à urgência de suas vozes em reafirmar suas posições, desejos e direitos. A sensação é que somos um dos passageiros do conto Uma história que alguém me contou, acuados pela presença de uma mulher negra e bêbada no metrô. Ou pelo cachorrinho gay de Surpresa, pela filha em A língua, a “noiva” Alexandre em sua primeira visita íntima ao presídio em O primeiro casal, a prostituta aposentada Luz, a mãe presidiária de Medea ou Agenor (futura Ângela) em A despedida.

Suas histórias de vida provocam estranhamento, mas na medida em que eles nos contam, somos envolvidos e o efeito de suas narrativas se volta para o mundo. O resultado é de alteridade, que, numa explicação rápida, seria a noção de diferença surgida a partir da relação entre o eu e o outro. A soma de vozes periféricas evocadas por Newton Moreno promove uma espécie de inversão: o olhar não se dirige mais para a margem e sim para o centro. Se no primeiro plano acompanhamos a história desses personagens, nas entrelinhas somos instigados a observar o que está ao redor deles e fazer uma reflexão sobre o status quo, percebendo a violência de preconceitos e intolerâncias que permanecem incrustrados na sociedade. Sejam elas mais explícitas, como o abuso do agente penitenciário de O primeiro casal, ou reações mais sutis, como a apatia dos pais em A despedida e a relutância do pai em continuar com o cão em Surpresa.

Quando alcança esse efeito, Newton Moreno demonstra que a urgência de suas criaturas não representam necessariamente limites às suas narrativas. Os melhores exemplos disso talvez sejam o conto Duas crianças (sobre a história de um casal formado por uma loira e um negro que decide adotar uma criança, colocando a questão racial num patamar ainda mais enraizado) e Surpresa, com o impasse provocado na família pelo cão gay. Em ambos, o autor tece histórias complexas a partir de situações cotidianas, como o cruzamento de um bicho de estimação ou da discordância do casal, para questionar a naturalização do preconceito.

Lido em maio de 2016
Escrito em 13.05.2016


Relação com o escritor: Por conta do lançamento deste livro, entrei em contato com o autor para fazer uma entrevista.

FICHA TÉCNICA

Ópera e outros contos
Newton Moreno
Edição do Autor
1ª edição, 2016
114 páginas

TRECHO

“Pai e mãe estavam ruminando a ceia e esperando o que de tão importante o filho tinha vindo lhes dizer. Desabou-se da capital até a quase fronteira com o inferno nordestino. A mãe estava desconfiada, o pai já havia desistido de considerar problema. Estava esvaziado, esgotado, avizinhado da morte. Só queria um balanço, um arroto temperado, meio morno, e um cochilo na brisa da noite. Mas o filho solicitava uma palestra, um encontro familiar, uma ágora na margem do lar.” (conto: A despedida, p. 88)

EPÍLOGO

Teatro: Os contos Ópera, O troféu e Surpresa foram adaptados para o teatro e encenados pelo Coletivo Angu de Teatro, com direção de Marcondes Lima. O espetáculo ainda contava com outra narrativa, chamada Culpa, que não foi incluída no livro.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 Comentário

  1. George Ferreira em

    Olá senhores, bom dia!

    Li o trecho do livro(ópera e outros contros de Newton Moreno), fiquei surpreso e ansioso para ler por completo, mas infelizmente já tentei de todas as formas adquirir o livro e ainda não tive sucesso, então venho solicitar ajuda e informações para o processo de compra do mesmo.

    Agradeço antecipadamente a atenção e fico no aguardo.

    Att. George Ferreira

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