Os 11 textos literários mais macabros para se ler no Dia dos Namorados

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Chega de fofura no Dia dos Namorados!

Se você não é fã da data, ou concorda que O amor não tem bons sentimentos, como escreveu nosso Raimundo Carrero, o Vacatussa selecionou algumas obras literárias que você não pode deixar de ler. Escolhemos textos em que o desejo, o amor e os afetos são narrados de uma maneira a causar estranhamento, reflexão e mesmo choque. Mas literatura boa a gente sabe que não é feita com papel crepom, portanto aqui vão os selecionados:

A serva alheia, Adolfo Bioy Casares

bioyAlguns dos textos mais conhecidos do escritor argentino, tais como A invenção de Morel e Em memória de Paulina, são basicamente histórias sobre os fantasmas reais e imaginários do amor. Mas poucos contos contêm a dose exata de humor, loucura e violência alcançada por um dos grandes contos do fantástico no século XX: A serva alheia. Como tantas outras histórias na nossa lista, o conto trata de um triângulo amoroso que não acaba bem: um poeta se apaixona por uma mulher belíssima, mas casada com outro homem, Rudolph, que é literalmente um monstro. A esposa, por outro lado, sofre com seu esposo, mas não consegue abandoná-lo pelo outro. Logo, a relação entre os três se transforma num labirinto de consequências fatais.

A causa secreta, Machado de Assis

Muitas vezes escuto os seguintes clichês a respeito de Machado: sua obra seria “amena”, “tímida”. Mas um conto como A causa secreta com certeza ajuda a defazer o estereótipo da “amenidade”. Poucos personagens da literatura brasileira são tão sombrios quanto Fortunato, um homem rico que usa uma máscara social de benfeitor apenas para praticar atos de crueldade física e psicológica. Quando o recém-formado médico Garcia passa a frequentar a casa de Fortunato e da sua esposa, Maria Luísa, a trama se torna cada vez mais macabra, com direito a beijo em cadáveres e tortura em ratos!

Assombrações do Recife Velho, Gilberto Freyre

freyreO Recife é velho, bom e malassombrado. Vovô Freyre resgata para nós histórias de assombração sobre a capital pernambucana, que só não são mais apavorantes do que o projeto Novo Recife, do sarapatel formado por Moura Dubeux-Prefeitura-Governo do Estado. Fantasmas, mães d’água, lobisomens, calvinistas mortos-vivos do tempo de Nassau e toda sorte de maldições são recontadas pela insuperável prosa do autor de Casa Grande & Senzala.

A história do olho, Georges Bataille

batailleOs textos de Bioy e Machado são soturnas narrativas em que o sexo é sublimado ou velado, mas não é o caso da nossa quarta indicação. Marcela e o narrador sem nome de A história do olho descobrem que possuem a “mesma angústia do sexo”. Por isso, decidem se iniciar sexualmente e começar um relacionamento: “não quero mais que você bata punheta sem mim”, Marcela diz logo no começo da novela. Para os que não conhecem Bataille, não esperem nenhum erotismo tradicional. Pelo contrário, Marcela e seu companheiro se envolvem numa série de jogos sexuais que procuram transgredir todos os limites, o que inclui, por exemplo, o assassinato. Orgias, globos oculares enfiados em vaginas, brincadeiras com excrementos e ovos quebrados com o cu são algumas das cenas encontradas no livro.

Canção tórrida, James Ellroy

Uma boa história policial não poderia faltar na nossa lista e por isso indicamos um dos melhores contos do livro Noir americano: uma antologia do crime de Chandler a Tarantino. Spade Hearns é um detetive durão que se apaixona por uma cliente, a “cantora de bistrôs de segunda” Lorna Kafsjian. O caso dura 4 meses, até que Spade leva um pé na bunda e se envolve numa trama de roubo e violência. Aqui, Ellroy faz uma paródia dos próprios filmes policiais e das novelas de cavalaria: ninguém é bonito, ou inocente, e muitas vezes o mocinho é apenas um bobão que se deixa tragar por um amor não correspondido.

I-no-cen-te, Marcelino Freire

O universo da criminalidade aparece com frequência nos contos de Marcelino Freire e, de modo geral, é apresentado através de pontos de vista inusitados. Em I-no-cen-te, publicado no livro de contos Rasif, temos a confissão de amor e desejo de um pedófilo por uma criança. O monólogo é dito, provavelmente, diante do delegado que prendeu o criminoso. Não há justificativas, ou explicações, para o comportamento criminoso, mas apenas uma voz patética e angustiada de um homem ao mesmo tempo vilão e vítima de si próprio.

Amor, Clarice Lispector

Publicado originalmente no livro de contos Laços de Família, este é um dos contos mais famosos de Clarice. Ana é uma dona de casa entediada e de classe média, que após observar um cego mastigando chicletes, subitamente é tomada por uma epifania que abala tudo: seu casamento, seu papel de mulher de “bem”, a cidade, a natureza, o desejo. O amor que Ana passa a conhecer é uma força inumana, desestabilizadora e que a atravessa sem concessões. Talvez não seja macabro no sentido estrito do termo, mas Amor mesmo assim nos perturba ao abrir uma espécie de clareira no nosso estar-no-mundo.

A dócil, Fiódor Dostoiévski

Olhar para trás e tentar dar conta do tempo perdido. Este é um dos temas mais frequentes da literatura. Em muitos casos, é o falecimento da pessoa amada o gatilho para este exercício da procura do passado. Na novela A dócil, diante do caixão da mulher, um homem de caráter duvidoso relembra a sua vida e como chegou até ali. Até que ponto o amor basta? Qual o peso do poder, do dinheiro, das diferenças de classe e das distâncias em um relacionamento? Pode um homem ferido amar de verdade? Estas são as perguntas difíceis que esta novela, e a literatura em geral, não se cansa de fazer.

A aranha, H. Heinz Ewers

Quem nunca teve medo de um quarto vazio? É a curiosidade que leva um estudante de medicina a se hospedar em um quarto supostamente amaldiçoado, onde três homens já cometeram suicídio. Mas o detalhe macabro não para por aí, porque os 3 cadáveres foram encontrandos com uma aranha negra na boca. O escritor alemão, hoje esquecido, H. Heinz Ewers fez um dos contos fantásticos mais assustadores que li até hoje. Qual será, ali[as, a relação entre os suicídios e uma misteriosa mulher por quem o protagonista da história se apaixona? A resposta pode ser conferida  na antologia Freud e o Estranho: contos fantásticos do inconsciente, organizada por Braulio Tavares, na qual o conto foi publicado.

A última nevoa e A amortalhada, María Luisa Bombal

La_ltima_NieblaEstas duas excelentes novelas, publicadas recentemente em conjunto pela Cosac Naify, falam de mulheres ricas e infelizes, presas pelas convenções e a moral conservadora do Chile da primeira metade do século XX. Presenças etéreas, névoas misteriosas e uma realidade imprecisa, que oscila entre a morte e a vida, entre o cotidiano sem encantos e o mundo dos sonhos, fazem de Bombal uma das escritoras mais originais do século XX.

 

O homem de Areia, E.T.A. Hoffmann

Não adianta. Sempre que releio este que é o conto mais famoso de E.T.A. Hoffmann, me pergunto: “o que diabos aconteceu realmente?”. Mistura de ficção científica com terror, o coração da história reside no embate entre o egocêntrico e traumatizado Natanael, e sua racional e ponderada pretendente, Clara. Completando o triângulo amoroso temos Olímpia, um ser artificial por quem Natanael se apaixona. O quanto o amor sem fim de Natanael não é apenas uma paixão por si mesmo? Quanto mais amor na vida, melhor? Ao final da história, tanto Clara, quanto nós, aprendemos algumas duras lições quando estas duas perguntas finalmente são respondidas.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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