Outra coisa – Bruno Liberal

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Ela pede passagem, se identifica ao segurança do shopping e segue devagar, entrando nessa vastidão de cores, como se cada passo fosse uma decisão. O shopping é um lugar estranho, não dá para saber se é dia ou noite. O tempo é uma fronteira contínua sem arestas. Há o shopping fechado e o shopping aberto. Essa é a vida aqui, uma condenação. Um estado de putrefação humana onde os valores mais nobres escorregam e são substituídos por algum sentimento sedoso de possuir ou não possuir.

Ela para na frente do seu quiosque. Seu local de trabalho há três anos. Fica olhando a tristeza do lugar, o semblante ignóbil e transitório. Ela pensa que poderia ter sido alguma outra coisa na vida. Alguém. Uma pessoa como outras pessoas que estudam, trabalham e criam suas famílias e envelhecem e compram suas coisas no shopping. Poderia não ser assim como ela é. Um ninguém, uma ignorada, uma transparência. Poderia ser uma advogada e andar com outras advogadas com seus terninhos, suas bolsas e saltos e todo mundo olhar para elas com admiração e respeito, maquiada, sorrindo. Poderia ser uma médica e andar com outras médicas e ter a pele alva de médica, não essa sua pele manchada de quem pega dois ônibus todos os dias para trabalhar e ganhar um salário mínimo mais comissão. Talvez uma executiva de um banco com toda essa pose de executiva de banco e esses saltos monstruosos e tão lindas. Ela pensa que se escolhe uma executiva de banco pela beleza ou pela simpatia que ela nunca teve. É o que pensa sobre a vida. Deve ter aprendido no próprio shopping a dividir as pessoas também pelo que possuem. É o que o shopping ensina. Dividir tudo em categorias: criança, feminino, cosmético, alimentação, rico, pobre, alguém, ninguém.

A senhora quer provar essa base?
A senhora quer experimentar esse batom?
A senhora já conhece esse rímel?
A senhora…

***

É hora do almoço. A praça de alimentação lembra o grito esquizofrênico de cinco mil macacos reunidos no mesmo local. É como se fosse algum lugar perto de uma explosão infinita. E todos sorriem e agem como se fossem a mesma pessoa, o mesmo ser humano, uma multidão de clones. A forma de andar, de comer, de se vestir, de digitar no celular…

O prato que pede é o PF mais barato, o mesmo que sempre come e o salário parece que vai ficando todo ali mesmo, como se o shopping também se alimentasse dela. Senta com seu prato e fica um tempo parada olhando algum lugar entre a fila do cinema e o corredor escuro que dá acesso às salas. Sorri levemente lembrando de algo. Abre uma sacola do Bompreço e puxa um pacote. Desembala e uma faca aparece. Olha ao redor e todos continuam o que estavam fazendo nos celulares. Olha a faca com admiração. Parece concentrada. Aperta o cabo e, com um movimento firme, corta o pulso esquerdo tentando aprofundar ao máximo o corte. Depois o direito, que já não consegue tão profundo. O sangue expulso se amontoa no prato e transborda. Espalha seu aroma na mesa e escorre até o chão. Os macacos continuam seus gritos coletivos, mastigando a comida, andando com seus passos de clones e sorrindo todos iguais. A mesma cara. A mesma massa, a mesma alma. Ela pousa a cabeça na mesa e descansa com olhos abertos, olhos invisíveis.

Pouco depois um segurança passa o rádio para o pessoal da faxina vir limpar uma sujeira na ala SUL. Uma senhora de luvas amarelas pede licença e limpa todo o sangue. O chão e a mesa retornam ao estado natural de brilho. Está limpo como num hospital. A senhora de luvas agradece a compreensão e some. O segurança avisa que está tudo OK na ala SUL e uma criança vomitou na ala NORTE.

***

Posso retirar o seu prato? Diz outra senhora de luvas amarelas. E retira, agradecendo a compreensão. E todo dia, ao meio-dia, o rapaz do PF pega outro prato idêntico, pois ela só come isso mesmo, sempre foi assim. Já conhece a freguesia e entrega o mesmo prato de sempre, anotando para depois cobrar na loja.

Dessa vez um senhor de luvas amarelas pede licença e pergunta se pode retirar a bandeja. Ele agradece a compreensão.

Dois homens passam olhando insistentemente para ela. Retornam e perguntam quanto ela faz o programa. Com o silêncio eles saem sorrindo.

Três adolescentes pedem para sentar na mesma mesa pois o shopping está lotado e não tem lugar para sentar e ela está sozinha. Eles agradecem.

A mulher da bandeja, o homem da bandeja, o rapaz do prato, o segurança no rádio e os dias vão passando e ela com os olhos abertos, imóvel, respondendo tudo educadamente em silêncio.

Posso retirar seu prato? Obrigado, senhora. Com licença…

No vigésimo dia ela acorda, cansada de ser outra coisa. Toma um suspiro, olha o prato de comida ainda quente e come. Coloca a bandeja no lixo e anda em direção ao quiosque. Os passos são apressados agora, deve estar atrasada e precisa retocar a maquiagem.

A senhora conhece esse batom?

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Sobre o autor

Nasceu em Goiânia-GO e vive em Petrolina-PE. Com o livro Olho morto amarelo, foi o grande vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura em 2013. Em 2015, lançou O contrário de B. (Confraria do Vento). E-mail: bl.liberal@gmail.com

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