Paisagem roubada – Joana Rozowykwiat

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Da sua casinha de vão único, ele vê um mundo fatiado através do basculante. É um homem sem horizontes. Logo ali começa o mundo do vizinho, com uma parede de tijolo vermelho enclausurando seu olhar resignado. Mais que dono de uma casa, sempre quis ser dono de um quintal com uma mangueira, onde ele moleque se pendurava para chupar a fruta e brincar a vida. É um homem de outro tempo, do tempo dos quintais.

Percorre as ruelas do progresso inconcluso, desvia dos fedores pelo caminho, algumas nesgas de céu ardem na sua cabeça. Nenhuma árvore lhe protege. Nenhuma beleza lhe enche os olhos. Entra no ônibus e, do corredor espremido, só avista coisas e gentes pela metade. Vê meia menina, meio velho, meio prédio, outro meio prédio e outro e outro. Um cachorro inteiro. Meio tronco de ipê, ele imagina, sem conseguir mirar a copa. Ouve buzina, freio, bate-estaca, o barulho da catraca e a voz desmedida que sua companheira de viagem lança ao telefone.

Quando chega ao seu destino, já está cansado. Presta atenção às florzinhas coloridas que brotam do jardim de um prédio de luxo e sorri. No trabalho, troca de roupa e entra no elevador. Acompanha com os olhos os andares de um edifício que se revela, parece infinito. Consegue ver, lá dentro, em cômodos empilhados, uma senhora sentada no sofá, um homem à frente do computador, muitas cortinas fechadas que enclausuram outros olhares resignados. Fios e antenas enfeiam o teto das coisas.

Quando chega ao último andar da construção, ele sente certo orgulho. Vê o cinza a seus pés. Vê inteiro. Vê a cidade como ela é, tão distante. Tão sufocada. Um amontoado de concreto, motores e passos apressados. Mas ele nem liga. No topo, ele tem o céu. Tem o vento. Fecha os olhos e inventa ali a sua mangueira carregada de manga espada. Sente até o cheiro.

Volta por um instante a ser um homem com horizonte. E vem uma alegria temporária. Porque não é seu aquele horizonte. Porque construiu com cimento, tijolo e suor a paisagem de outra gente. Mas ele nem pensa muito nisso. Quer aproveitar enquanto pode aquela imensidão. Quer estar por cima por alguns momentos. Curte um pouco a vida nas alturas, antes de voltar para sua realidade operária. Antes que se ouça mais um bate-estaca na vizinhança. Antes de descer para o seu mundo fatiado. É um homem como muitos, em uma cidade para poucos.

Joana Rozowykwiat nasceu no Recife-PE, 1981 e hoje mora em São Paulo. É jornalista, especialista em Jornalismo Político. Tem contos publicados na coletânea Recife conta o Natal I (2007) e no Suplemento Cultural Pernambuco. Integra o Vacatussa.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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