A paixão nas ondas do rádio – Raimundo Carrero

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Esconderam-se no tronco da árvore – um tronco de cipós entrançados e de folhas vivas; cessaram as palavras e os risos e entraram no tronco de Amor Triste. É um tronco? De verdade? Chama-se um tronco. Assim, dizem. Sentaram-se, e quando se sentaram, retomaram as palavras e os risos. Sem perguntas. Sem respostas. Não iam inquirir, não queriam. Não agora. Ali era tranquilo, silêncio. As folhas, às vezes, sacudidas pelo vento. Sempre o mesmo vento ralo do sertão. Em tudo o que dizia, sobravam gargalhadas. E o que diziam não era piada. Resmungos e interjeições internas.

Trinta anos depois, sentado no banco dianteiro, as mãos segurando o volante, parado, Lelo ouviria a voz de Lívia cantando bem baixo, voz de ternura e sentença, sangue tupi, pouco antes de escutar o estampido a bala a entrar por baixo do ouvido, para liberar um filete de sangue, incapaz de denunciar o assassinato, com a leveza de uma folha voando. Sobretudo depois que a mulher fugiu, e o silêncio alastrou-se na rua noturna, os postes sem lâmpadas acesas e o rádio do táxi tocando a tua imagem sempre comigo vai.

Que o repórter também escutou quando se aproximou do carro na noite sombria seguindo a denúncia ao telefone mataram um motorista de táxi aqui na rua, mas ninguém ouviu tiros nem barulhos, apenas as luzes do carro apagaram e a buzina ficou tocando porque ele ficou debruçado no volante.

Já disse ao senhor, não gosto de repórter que chega antes da polícia, mesmo assim vou permitir que o senhor faça o que quiser, mas não coloque as mãos no carro porque deixo de lhe denunciar como testemunha e lhe coloco como suspeito, está entendendo, não está?

Doutor, as pessoas só viram um vulto de mulher saindo do carro. Andou apressado e sumiu. O garçom do bar ali da esquina disse que pelo jeito do andar parecia um homem vestido de mulher. Que é isso, repórter, tá querendo saber demais? É o meu dever: seja como for, estamos aqui para isso, não é investigador? Vocês dois parem com besteira: afinal, quem fugiu foi um homem ou uma mulher?

Uma semana depois o repórter recebeu a denúncia de que uma mulher suspeita se apresentara, mas chamou o repórter de menino que costumava brincar em árvores com ela, desde criança. Os dois choraram e o repórter sumiu.

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Sobre o autor

Nasceu em Salgueiro-PE, 1947. É jornalista e escritor. Entre outros, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com A minha alma é irmã de deus (romance, 2009) e o Jabuti com As sombrias ruínas da alma (contos, 1999).

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