Paula Fábrio fala sobre Um dia toparei comigo

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CRISTHIANO AGUIAR | A primeira característica que me chama atenção no seu romance (ou seria uma novela?) Um dia toparei comigo é a voz da narradora. Como você a descobriu? Esta voz já nasceu pronta, ou foi um processo mais longo de criação?

PAULA FÁBRIO | Vejo Um dia toparei comigo como um romance, mas essa distinção crítica é repleta de nuances, muito complexa a meu ver. Com relação à construção da voz da narradora, foi um processo longo. Fiz várias tentativas para selecionar a linguagem da Isabel. Desde o princípio, Isabel seria a narradora da história, essa era uma das poucas certezas que eu tinha. Em uma das versões do livro, identifiquei sua afetação, uma afetação burguesa difícil de digerir, e isso me pareceu interessante, porque justamente o que mais me incomodava, em vez de ser cortado, deveria ser amplificado; imaginei que somente assim eu poderia auferir um tom irônico por trás da narração. E essa escolha acabou por afetar as vozes dos demais personagens, em contraste ou em paralelo com a voz de Isabel (caso da Consuelo).

CA | Li um texto de Juliana Gomes sobre seu livro e há uma definição dela bem interessante: “é um livro sobre se perder para se encontrar”. Poderia comentar um pouco?

PF | Sim, muito embora todos compreendam essa sensação, eu gostaria de complementar: seria sobre se perder para se encontrar e para se perder novamente e sempre. Isabel tem essa afetação, sobre a qual comentei na resposta anterior, e confesso que busquei abaixar esse tom ao longo da narrativa, conforme Isabel descobria coisas. Creio que a literatura de viagem contém essa reflexão, basta vermos Xavier de Maistre, na viagem empreendida dentro do seu próprio quarto, ou mesmo Thelma & Louise, no cinema.

CA | Tenho visto, nos últimos anos, e creio que parte da crítica tem apontado isto, uma série de narrativas na nossa literatura contemporânea não apenas sobre o tema da viagem em si, mas também sobre personagens brasileiros à deriva em terras estrangeiras. Para citar só alguns livros que me vêm à memória agora, temos Lorde, de João Gilberto Noll, Algum lugar, de Paloma Vidal, ou Flores artificiais, de Luiz Ruffato. Creio que seu livro dialoga com isto e gostaria que você comentasse um pouco.

PF | Eu não havia pensado nisto até ler esta pergunta. Talvez seja apenas coincidência. Mas esse movimento de saída para olhar o interior, imagino que deva ser próprio da vida. Assim como o reverso. Acredito que há um mosaico de forças que o ser humano percorre numa tentativa de se apalpar. E isso compõe a riqueza da literatura, somente todas as narrativas juntas — as que descortinam as margens, as burguesas, as intimistas, aquelas que tratam de um bairro, do interior, do miolo da favela, do campo, ou das viagens à China — podem mostrar e pensar um país, dos vários que somos, que se complementam e se antagonizam.

CA | Outro aspecto que me chama atenção em Um dia toparei comigo é o modo como você abordou a questão do poliamor. Confesso que até o momento eu não tinha visto nos romances contemporâneos brasileiros uma abordagem como a sua. Você poderia falar um pouco sobre como este tema passou a fazer parte de seu livro?

PF | Eu não consigo acompanhar a produção contemporânea de modo completo, mas eu também ainda não havia visto esse tema na ficção nacional. Arrisco dizer que a questão do poliamor seja antiga na sociedade, mas que somente agora ganhou espaço, devido à liberdade de comunicação que temos após a Ditadura. E não como fenômeno machista, um homem com várias mulheres. Mas sim com vários tipos de casais, dois homens e uma mulher, três mulheres, três homens, cinco pessoas, não importa. Democracia. Afinal, há tanta caretice que emergiu nos últimos tempos. Assisti a alguns vídeos no youtube e fiquei feliz e impressionada com a constituição dessas famílias. É algo legítimo demais pra estar fora da literatura. Uma licença que os processos civilizatórios nos retiraram, assim como tantas outras coisas. Conheço algumas pessoas que vivem o poliamor. Acho que tenho inveja delas.

CA | Por fim, quais os próximos passos? Já temos, por exemplo, um novo livro à vista?

PF | Próximos passos: dedicação integral ao Doutorado em Literatura, e depois um livro de contos que vai abordar o tema “separações”; já tenho a sinopse das histórias, mas devo levar alguns anos para desenvolvê-las.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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