Peixes – Tadeu Sarmento

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– É só um trabalho como outro qualquer, a única coisa que incomoda um pouco é o cheiro e você pode até dizer que eu não estudei para isso, mas a cavalo dado, você sabe.
– Concordo.
– E o cheiro nem é grande problema, eu uso luva. Já meu pai era alérgico a látex, sacanagem do destino. Gostava de dizer que não importava o quanto lavasse as mãos, o cheiro de peixe não saía nunca. Ele lavava as mãos até a pele ficar na carne viva. Meu pai era muito rígido consigo mesmo. Está aqui, mais alguma coisa além do robalo?
– Não obrigado.
– Disse “robalo”, não “roubá-lo”, que fique claro, sobretudo em tempos tão confusos. Está acompanhando o que se passa no nosso Brasil? Vão votar o impeachment dela.
– Ela já foi afastada. Até amanhã.
– Até. E a senhora vai querer o quê?
– Roubá-lo também.
– Pegou o espírito da coisa, aqui tentamos divertir o cliente. Temos que rir para não chorar, não é? A senhora vai querer quanto?
– Quanto do quê?
– Quer que eu repita, não é? Para fazer a piadinha de novo.
– Um quilo e meio.
– Deveria levar dois, faltam só quinhentos gramas…
– Só se for dois pelo preço de um quilo e meio.
– Aí a senhora me quebra. A situação não está para brincadeiras. Eu mesmo estou fazendo o possível para não demitir ninguém. O país está afundando, não sente? Só ontem foram demitidos dez mil na Indústria.
– Foi anteontem.
– Anteontem também? Então são vinte mil. A coisa está pior do que eu esperava. Aqui está seu peixe, mais algo?
– Onde paga?
– Ali no caixa. Vai ficar mantido enquanto eu puder pagar seu salário. Depois querem falar mal dos patrões, mas é a pequena empresa que carrega esse país nas costas, o pior é que essa talvez seja uma das questões mais difíceis para as pessoas entenderem. Ofender é uma atividade tão mecânica que ninguém se dá mais ao trabalho de parar para ouvir o que ela própria ou o outro está dizendo. As pessoas estão entrando em parafuso e o clima do país anda bem propício a isso. A violência é só repetição de um padrão que é este: dentro de uma sala onde uma assembleia discutiu por dez horas sobre determinado assunto e ninguém chegou a consenso algum, alguém terá que entrar e passar uma rajada de metralhadora em todo mundo. Isso é o que se faz quando as pessoas não dialogam, a violência aponta um sentido, no mínimo uma finalidade. Que importa um punhado de mortes? O mundo continuará o mesmo. Olá, o que o senhor deseja?
– Pode terminar o discurso, eu espero.
– É que a senhora me deixou falando sozinho. São esses jornais, sabe? Eu fico assim, excitado.
– O que tem nos jornais?
– Ora, notícias. Costumo dar uma olhada antes de embrulhar os peixes. Acabo me informando mais do que gostaria. E tenho uma memória boa. É complicado, para ficarmos só nisso. Por isso preciso colocar tudo para fora. Esse balcão é minha tribuna, se falo para seis ou para seiscentos milhões não faz diferença. O importante é que nasci, e que nascer é como cair em um sonho ou um pesadelo, assim como esses peixes que nascem e já caem no mar ou no rio.
– Nunca pensou em falar sobre isso na internet, redes sociais, essas coisas? Você fala como um poeta.
– Não gosto e a razão é até bem simples: gosto do cheiro do jornal, do barulho que ele faz quando nós o manuseamos e, olhando para trás, claro, coisa de trinta e cinco anos atrás, meu pai ainda não tinha essa peixaria, trabalhava no centro da cidade, e toda vez que ia ao centro ficava admirado com aqueles homens no café, fumando, lendo os jornais entre a fumaça. Toda aquela fumaça ao redor deles parecia uma aura.
– Quer dizer que senhor fuma também?
– Fumava, agora o cigarro está pela hora da morte que, teoricamente, pode ser a qualquer momento e bem mais barata. Desculpe, o senhor já disse o que vai querer?
– Não. A verdade é que eu detesto peixe.
– Puxa. O senhor nasceu para ser discreto.
– Entrei aqui só para pedir uma informação. Sabe onde fica a Rua da Hora?
– A pé ou de carro?
– A pé.
– Dobrando a esquina, próximo sinal à direita.
– Muito longe?
– Cinco minutos.
– Obrigado. E sabe por que ela se chama assim? Rua da Hora?
– Acredito que seja porque para percorrê-la até o fim se leve esse tanto de tempo, claro, se você não for um cadeirante.
– Muito engraçado.
– Atrás do meu balcão sou dono do meu mundo. Aqui tenho tudo que preciso: peixes e jornais. As pessoas chegam o tempo inteiro, com algumas eu converso, com outras não, mas a sensação que eu tenho é uma só: não preciso ir lá fora atrás do mundo, o mundo vem até mim. E quase nada me preocupa, a não ser a atual situação do país. Está acompanhando? Qual a sua opinião? Nossa presidente sofreu um golpe ou o impeachment tem base legal?
– Ela já foi afastada?
– Achava que não também, mas acabaram de me corrigir.
– Ela foi afastada sim. Qual o melhor peixe para fazer moqueca?
– Badejo. Desculpe. Não vi que a senhora estava aí.
– Estava. O senhor tem?
– Com a graça de Deus.
– Um quilo, por favor.
– Saindo.
– Não sei o que acontece com eles…
– Com quem, senhora?
– Os cientistas.
– Não entendi.
– Agora estão dizendo que Plutão não é mais um planeta, uma decisão anunciada oficialmente pela União Astronômica Internacional, um nome pomposo, concorda? Então fiquei pensando: certo, Plutão não é mais um planeta, e daí? Minha vida vai mudar por causa disso?
– A senhora não acompanha o horóscopo?
– Não.
– Então não vai mudar nada. A ciência só resolve problemas que ela mesma inventa.
– Só acho que nós brasileiros somos pacíficos demais, não acha?
– Por que diz isso?
– Fico impressionada como até agora o Congresso e o Senado não foram invadidos. Uma turba de milhões nem o Exército seguraria.
– Acredito que parte dessa passividade se deva às redes sociais. Gritando em caixa-alta nas redes temos a falsa impressão de que algo está acontecendo quando nada está acontecendo. Não é uma linha reta, é só um círculo que se repete. Não é revolução social, é só entretenimento, rotina triste entre espoliados, desilusão e pornografia.
– O que são redes sociais?
– Li a respeito. Parece um lugar onde só se reclama.

Tadeu Sarmento é autor dos romances Associação Robert Walser para Sósias Anônimos (Prêmio Pernambuco de Literatura) e E se Deus for um de nós? (Confraria do Vento). Venceu o Prêmio Minas Gerais de Literatura com o livro Um carro capota na lua.

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