Pequenas fatias de vida – Fillipe Rodrigues

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Eu lembro do imenso calor que fazia naquele dia. Lembro da sensação de sentir o suor escorrendo pelas minhas costas por baixo da camisa. Nós dois estávamos sentados um de frente pro outro no refeitório e nossos pés se roçavam levemente de vez em quando. Esse era um dos nossos sinais secretos, uma de nossas mais íntimas carícias, o máximo que nós nos permitíamos na frente de todos. Encostávamos não só os pés, mas também as mãos, os braços e qualquer parte do corpo que pudesse ter contato uma com a outra de maneira que parecesse com um simples esbarrão sem nenhuma outra intenção oculta. Como quando vínhamos em lados opostos em um corredor e, ao passar um pelo outro, deixávamos as costas das nossas mãos se tocarem por um pouco mais de tempo do que seria o normal. Nessas horas, a vontade que eu tinha era de apertar sua mão com força, de te abraçar, de gritar que eu te amava, de ver o teu sorriso que tive tão poucas oportunidades de ver e de provar teu beijo uma única vez, mas isso eu jamais teria. Fazer algo assim ali seria o fim pra nós dois.

A melhor lembrança que eu tenho é daquele dia quente no refeitório. As nossas pernas se encostando por baixo da mesa e um céu azul cheio de nuvens brancas na janela atrás de você. Eu te olhei bem, mesmo que rápido, e me concentrei o máximo que pude em escapar dali. Vi você em um campo aberto, verde e cheio de flores, desses que a gente só vê mesmo em filme, e acima de nós um céu azul igual ao que eu via pela janela atrás da mesa. Eu sempre fazia isso. Pegava pequenas coisas que encontrava durante o dia, pequenas fatias de vida, como eu gostava de imaginar, e remontava na minha cabeça do jeito que eu queria. Isso eles nunca conseguiriam tirar de mim. Na minha fantasia a gente comia frutas, sanduíches e bebia vinho sentados em uma toalha vermelha colocada sobre a grama. A gente conversava e ria tanto, mas tanto até a barriga doer e eu ficava maravilhado com a sua voz. Ali nós conversávamos como nunca tínhamos tido a chance de conversar. Nós usávamos roupas mais leves e coloridas, não essas coisas que eles nos obrigam a usar. No meu devaneio nós podíamos ser nós mesmos.

Acho que fiquei um bom tempo sonhando acordado nesse dia. Quando dei por mim, você estava me olhando e eu pude ver começando a se formar, primeiro nos seus olhos e depois na sua boca, um sorriso. Pequeno e quase imperceptível pra todo o resto do mundo, mas não pra mim. Você olhou pra baixo e disfarçou. Eu também disfarcei, com medo do que eles poderiam fazer caso percebessem algo. Você levantou os olhos novamente, levando a colher à boca e ele ainda estava ali, estampado em seus olhos, o sorriso. Seu sorriso atravessou a mesa e me encontrou. Marcou em mim como ferro quente e até hoje trago a lembrança vívida daquele dia.

Aquele foi o último dia que te vi. O dia que levaram você de mim. É engraçado que a minha melhor lembrança de nós seja a última.

Eu ainda continuo aqui. Fazendo os mesmos trabalhos, usando as mesmas roupas, comendo a mesma comida. A diferença é que agora estou mais velho, querido.

Imagino se você envelheceu também ou se continuou pra sempre do jeito que eu lembro de você.

Com o passar dos anos aqui dentro tenho usado cada vez mais minha imaginação pra criar meu próprio refúgio e você, mesmo que com os contornos borrados pela minha memória frágil, está sempre nele. Principalmente nos dias de céu azul com nuvens brancas.

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Sobre o autor

Nasceu em Belém-PA, em 1994. Estuda Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Pará e trabalha como freelancer com edição de vídeos. Esta é sua primeira publicação.

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