a pequenina – Filipe Rassi

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a pequenina nada sabe

da Bíblia

das bombas

dos Bee Gees

dos Balcãs

não conhece coisa alguma
a respeito da impiedade mórbida, da obesidade mórbida,
da dízima da tabela da mortadela e da mortandade
periódicas

ainda vai demorar bastante
até que seja apresentada à Matemática,
à Gramática, à Metafísica, às margaridas,
aos Estudos Sociais
à Fórmula de Bhaskara
às fases secretas do Donkey Kong e do Mario Bros,

à diáspora europeia historiografada
em ganância e sarna,
às mazelas subequatoriais subsequentes,
às mazelas da África esquálida irada
às mazelas artísticas seculovinteeúnicas

às questões da Ética, da Estética, da Estática
e da Poética
(apresentar-lhe-ei meu mentor Charles – óbvio, tudo
no seu devido momento – além de outros combatentes de valor

Almirante Ginsberg
Marechal Maiakóvski
Sargenta Lispector)

um bom pedaço de calendário vai ainda se gastar em dias e semanas e anos até que a pequenina abandone as fraldas
o mamá caudaloso de sua madre
e comece a folhear meus libelos do Rubião, do Nietzsche
e do Monteiro Lobato – uma raridade em que ele traduz
os Irmãos
Grimm –,

até que passe a formular sentenças violetas e violentas
que irão me afagar e me aturdir
no meio de uma caminhada despretensiosa terça-feira de tarde ensolarada ou sábado cedinho pela manhã ventosa
até que ela intervenha, voluntária ou involuntariamente

turbulenta ou MUITO turbulentamente

no curso do destino das coisas desse mundo
cão, de homens cães

elucubrando
novas perguntas,
executando novas gentilezas,
preenchendo vazios e formulários e cabeçalhos de testes
ou tirando documentos pra registro numérico governamental

reparando aqui e ali (onde eu não havia prestado atenção, ainda)
e me alertando, sábia e por demais atenta

acerca das passagens mais legais e elaboradas e mágicas
dos concertos, dos trios, das sinfonias

e acerca da falta de afeto geral e disseminada
que é, no fim das contas, a doença terminal a comer o corpo
social composto decomposto por nós viventes cidadãos
de bem,

a pequenina ri e baba,
dorme, mija e caga
(em ocasiões já parece até que fala)

está alheia e agasalhada
do caos metropolitano, das guerras
além mar, das gritarias
dos policiais, das gritarias
das enfermeiras das passadeiras
das protestantes dos animais maltratados
e das minhas

está a salvo dos garotos funkeiros, dos filhotes da burguesia canalha, dos religiosos fanáticos, dos solitários patológicos, dos ejaculadores públicos, dos motociclistas sem capacete, amor próprio ou rumo
não raciocina e não lhe interessa
as questões da Lógica,
da política
da pintura surrealista
da Etiqueta
(acaba de arrotar altão bem na minha cara)
(e debocha)

seu cérebro
pouco mais graúdo que uma
maçã Gala –

no entanto

o olhar

da pequenina,
ao reconhecer
a face tatuada da mãe, e do pai
(mais da mãe)
quando recém desperta
de uma noite inteira
do mais acachapante e teletransportador sono

é algo que carrega decerto uma sabedoria
tão exata

tão mestra

orgânica

uma sabedoria tão lhana
e definitiva

certeiro é que mais complexa
(certeiro como voos rasantes
de um anjo bêbado
porém inspirado)
completa

e suficiente

que a
minha
e a sua –

juntas.

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Sobre o autor

Nasceu em Patos-MG (1989) e mora em Betim. Vindo de família burguesa desequilibrada e insalubre, frequentou hospícios e largou 2 faculdades pra entender o real valor da poesia. Hoje vive como artista de rua, vendendo os livretos que imprime.

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