Péter Esterházy fala sobre Os verbos auxiliares do coração

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O escritor húngaro Péter Esterházy não parece preocupado em definir claramente sua literatura entre ficção e biografia. O segundo livro de Esterházy no Brasil (o primeiro se chama Uma mulher), é Os verbos auxiliares do coração (Cosac Naify), uma história um tanto inventada, mas criada a partir do sentimento bastante real e duro da perda da mãe. A capa é uma fotografia de um ambiente, coberta quase inteiramente por um grande retângulo preto; uma imagem que sugere o luto, a memória que persiste, mas modificada pelo tempo, a lembrança de uma época passada obstruída pela perda. O livro tem 72 páginas, com textos que embora juntos formem uma narrativa única parecem ter certa independência, autonomia, um pouco como pequenos contos com identidade própria que formam uma história única. Neles, Péter é autêntico numa espécie particular de ironia confessional; escreve frases que parecem surgir da urgência, da necessidade intransferível de anotar rapidamente palavras antes que elas percam o sentido. Em entrevista por e-mail, Péter comenta o espanto diante do luto, a insolência consciente na arte como resistência sensível daqueles sem perspectiva e o benefício do humor inesperado.

HUGO VIANA | Seus dois livros lançados no Brasil possuem uma conexão de ordem sentimental, por tratarem de afetos, temas universais. O que atrai o senhor na ideia de abordar amor, família e perda através da literatura?

PÉTER ESTERHÁZY | Eu não tenho considerações teóricas. Posso comentar apenas que Interessa-me o que acontece comigo. Simplesmente experiências. E claro as palavras. Eu tento construir ou traçar uma ponte entre ambos – a isso denominamos literatura.

HV | Há algo de biográfico, no sentido de sua história pessoal aparecer, ao menos em parte, nos textos? É possível afirmar, durante a escrita, onde a ficção e a autobiografia se aproximam ou se afastam?

PÉTER ESTERHÁZY | Há sempre uma distância entre ficção e não-ficção. Para mim essa distância é: zero. Não tem sentido fazer essa distinção. Quando digo “eu”, não estou sendo necessariamente autobiográfico, apenas escolhi uma forma. Mas no caso deste livro é mais fácil porque minha mãe morreu de fato, então sem esse acontecimento não seria um livro. A vivência pessoal é uma grande experiência para mim.

HV | A sua formação foi em matemática. Como se deu a transição para a literatura, e como esse primeiro momento influencia sua produção?

PÉTER ESTERHÁZY | Não houve transição, eu sempre fui um escritor que apenas estudou matemática. Mas aprendi muito com esse estudo acadêmico, sobre formas, abstração e história da ciência. Escrevi uma peça de teatro com o seguinte título: Rubens e as mulheres não-euclidianas. Sem os estudos de matemática este seria um título difícil de imaginar. Quer saber o que significa uma mulher não-euclidiana? É complicado, mas tem a ver com triângulos.

HV | O senhor nasceu em 1950, na Hungria, então viveu momentos importantes da história política do leste europeu. Gostaria que comentasse como essa história é reprocessada na sua escrita, e se há interesse em debater temas políticos através da literatura.

PÉTER ESTERHÁZY | Em uma ditadura, para sobreviver, deve-se ter muita disciplina. Eu acho que esta disciplina espiritual é perceptível na minha escrita. Na ditadura, em que as questões políticas não são respondíveis, a literatura as responde. Mas a literatura é mais lenta. As questões políticas devem ser respondidas pelo leitor e não pelo escritor. Um escritor é também, naturalmente, um leitor.

HV | O livro parte de um interesse de falar sobre sua mãe, uma vontade de “se entregar ao trabalho antes que a necessidade demasiado ardente de falar sobre ela recue para o mutismo covarde”. Gostaria que o senhor falasse sobre a escrita como um meio para abordar perdas reais.

PÉTER ESTERHÁZY | Eu não vejo a escrita como uma ferramenta de ajuda. Ela não é uma aspirina. A escrita é mais como um predador. Através das minhas perdas pessoais uso as palavras para tentar falar sobre algo mais geral, para comentar também sobre a perda dos leitores. Minha literatura me é roubada assim que ela surge.

HV | Há um tipo inesperado de humor. O tratamento dado ao tema do livro parece em conexão com livros e filmes do leste europeu, artistas que mesmo em situações graves criavam um tipo de humor. Eles de alguma forma foram inspirações para seu uso do humor?

PÉTER ESTERHÁZY | Os filmes tchecos dos anos 1960, 70 são referências muito próximas a mim – o modo como lidam com o trágico e o cômico. Desse modo, estando muito próximos uns dos outros, nós ainda rimos, mas deveríamos chorar e, então, nós rimos sobre o que nós choramos. Algo assim. A ironia só é legítima com a auto-ironia.

Os verbos auxiliares do coração foi publicado em Budapeste em 1985. Você chegou a ler novamente, agora, com o distanciamento de tantos anos? É em alguma medida incômodo reler?

PÉTER ESTERHÁZY | Resposta curta: não. Uma pouco mais longa: sobre a morte da minha mãe eu posso chorar sem ler Os verbos auxiliares do coração. Eu posso chorar sempre, isso permanece. Então, mais tarde, meus filhos também irão chorar. Eu acho isso mais alegre do que triste.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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