Poesia e percurso

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Era pouco mais de 11h da manhã, num boteco de esquina na rua do Príncipe, bem em frente ao Parque Treze de Maio, quando das marcações de um livro vermelho, a voz de um artista de verbo marginal entoou os versos… bendita reunião pontual da beleza … entendo a juventude transviada … não escrevo poema … escrevo escada. Éramos quatro os que ocupavam uma das mesas do boteco, entre um gole de cerveja e um recorte de vida costurados com poesia.

Faz mais ou menos três meses que deixei as normatividades da zona sul e vim me misturar ao orgânico e heterogêneo centro da cidade do Recife. Sou agora habitante da rua da Aurora, uma das paisagens expoentes da cidade onde nasci e vivo. Nas dinâmicas de vizinhança aqui da rua, onde vira e mexe rola uma visita para um café com conversa, pelo interfone recebi um chamado de Iemanjá e prontamente fui atende-la, rainha dos mares que me fluem. No apartamento de Cássio Bonfim, fui apresentada a uma moça alta, negra, de porte ao mesmo tempo que forte, incontestavelmente doce. Minha intuição não falhou em nada ao elucubrar sobre tal dualidade. Cássio me mostrou dela um livro que deveria ser lançado no evento que ele estava organizando aqui na rua. Meu corpo é um esconderijo, Mariana de Matos. O tempo curto que me havia disponível para a visita não me permitiu conhecer melhor a moça, com quem devo ter trocado nada muito além de um singelo Opa, tudo bem?. Mas pude, mesmo que em páginas saltadas, percorrer suas linhas. Deixei com Iemanjá as conversas e os livros de poesia, para seguir horas de rotina.

Dias depois, a sagaz e inteligente colombiana Lorena Lopez, que no seu intercâmbio em terra brasilis caiu nas graças da Aurora recifense, me contou que Mariana havia mostrado seu livro de poesia ao poeta marginal, Miró, que se encantou pelos versos e topou declamá-los alguns. Lorena me pediu a câmera emprestada para documentar o momento. Em troca, lhe pedi que eu pudesse filmar o encontro. No dia seguinte, às 8h da manhã, ao deslizar das portas do elevador do edifício Iemanjá, descortina-se aos meus olhos um homem negro, postura levemente curvada, cabelos crespos, grisalhos e curtos, pernas cruzadas, sentado contemplativo em uma cadeira à borda da longa janela que enquadra um trecho do rio Capibaribe. Um livro vermelho em suas mãos. Um copo de cerveja aos pés de sua cadeira. No outro ambiente da sala, outro homem, sendo este de pele vermelha e enrugada, trabalhava incansavelmente em seus bordados. Ao seu redor, quadros pintados com traços naif da vida de bairro por ladeiras de paralelepípedo. Disseram que quando Miró encontrou Antônio de Olinda na sala de Cássio, abraçaram-se fortemente, identificados em suas trajetórias. Hoje minha vida, é minha noção de luta estampava a pele e o porte desses homens que percorreram a dura estrada do ser sensível na vivência e na arte.

Os olhos de Miró, um pouco marejados, dos anos, da dor dos dias, do encanto nas horas, projetavam sua alma para fora. O discurso sempre poético, de quem conta causos como quem recita versos, traduzia seu laboro diário com o verbo. Miró contou que sempre tem em mãos um caderno, onde anota qualquer vento que lhe surpreenda a mente. Trabalha sua poesia no cotidiano, dessa gente e coisas todas que se vê por aí a fora, jocosas, pervertidas, inusitadas, melancólicas, hilariantes, pornográficas. Disse que as vezes, mesmo as coisas não estando lá muito bem, se te cai no colo uma notícia boa, parece até que essa logo puxa outra, e outra, e que nessa manhã justamente ele estava feliz.

Mariana chegou um pouco depois de mim. Ar levemente ansioso, seus olhos tinham aquele um frescor de descoberta que cintila nos jovens. Vestia amarelo. Eram notórios o carinho, cuidado e respeito com que conduzia aquela manhã. Quando estávamos no boteco, logo antes das filmagens, em frente ao Parque Treze de Maio, Miró abriu o livro de Mariana e pescou seu gosto das palavras que são líquidas e não repousam na língua ostra areia limão maresia brisa carinho farinha e eu nisso pesquei Manoel de Barros, e isso tudo era ela afinal.

Miró saiu da casa de Cássio algum tempo depois da chegada de Mariana para exilar-se um pouco do fuzuê pré-produção do evento que aconteceria no dia seguinte. Mais ou menos às 11h da manhã, Mariana, Lorena e eu o avistamos do outro lado da rua do Príncipe, no boteco de esquina onde nos havia dito que estaria. Acenava-nos sorridente com a mão. Ao chegarmos, o encontramos cortês e simpático, com o livro vermelho em mãos já todo marcado com filetinhos de papel.

Para a filmagem não tínhamos enredo, não havíamos definido versos exatos, nem locações e talvez eu deva dizer que foi essa a nossa maior sorte. Na fluidez dos acontecimentos, caímos no Parque Treze de Maio que justo a nossa frente estava. No parque, Lorena e eu paramos em um tapete rosa de flores caídas da copa de um pé de jambo. Miró e Mariana vinham logo atrás e, ao nos alcançarem, Miró prontamente deitou-se sobre o tapete rosa. Mariana fez o mesmo ao lado dele. Eu, câmera na mão que vibrava e coração nos olhos, apertei o play.

 

Ao chegar em meu quarto, depois das filmagens, carregada por duas trajetórias de vida eminentes, uma da ascendência, outra da nostalgia, uma do frescor, outra da solidão, uma do deslumbramento, outra da dureza dos dias, ambas sobreviventes da poesia, não houve o que em mim não explodisse e as lágrimas que escondi durante as filmagens a cada intensão que Miró colocava no texto de Mariana, a cada suspiro dos dois, já não se fizeram tímidas.

Você é mera dúvida e o abismo que te habita é a casa que te espera.

Gratidão
a Lorena, Mariana e Miró.

 

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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