Polaróides – Adelaide Ivánova

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autora: Adelaide Ivánova nasceu no Recife-PE, em 1982. Hoje mora em Colônia, na Alemanha. É fotógrafa e tem colaborado com o Suplemento Pernambuco, a Revista Cesarea e a Revista Café Colombo.

 Livro: Publicado em 2014 pela Cesarea, o livro marcou a estreia da Cesareana edição de livros. A obra reúne 69 narrativas curtas e 4 crônicas. A edição traz introdução assinada pelo fotógrafo Pio Figueiroa.

 Tema e Enredo: Reflexões sobre o cotidiano, o que envolve desde lembranças a filmes e observações sobre esmalte a questões sobre relações amorosas e dúvidas sobre os rumos da vida.

 Forma: O livro é dividido em duas partes. Na primeira, os textos são mais curtos, como flashes de momentos e ideias. A segunda, chamada copiões, é composta por crônicas mais longas.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

A necessidade da moldura

No fim dos anos 90 e início deste século XXI, um padrão se estabeleceu no jornalismo voltado para a cobertura de literatura. Com a popularização dos blogs, as redações passaram a reproduzir perguntas como “existe literatura de internet?” e “blog é literatura?”. De lá para cá, essas dúvidas parecem ter se resolvido e hoje, aparentemente, parece ter ficado clara a ideia de que o blog é um veículo, um suporte de informações, assim como o livro, a televisão, o jornal impresso. E como qualquer outro veículo, sim, ele possui uma série de características que terminam por interferir no seu conteúdo.

A velocidade imposta pela internet, por exemplo, traduz-se em textos rápidos, curtos, fluidos e geralmente vinculados ao contexto momentâneo em que foram produzidos. Outra característica da rede que também deve ser levada em consideração é a possibilidade de desprendimento do autor em relação ao seu discurso, favorecendo a proliferação de boatos e de fenômenos como o avatar e a circulação de textos apócrifos em correntes de e-mail. Nesse ambiente carente de credibilidade, a pesquisadora Paula Sibilia aponta que a escrita confessional foi vista como uma alternativa para dar mais veracidade ao texto e acabou sendo amplamente explorada pelos blogs.

Ainda que ocorra a migração para os livros, como foi comum na década passada, essas duas características geralmente podem ser encontradas em obras originárias dos blogs. É o caso do livro Polaróides e negativos das mesmas imagens, da escritora e fotógrafa pernambucana Adelaide Ivánova, composto por uma seleção de posts do blog Bolhas, champanhe, cowboy e por colaborações da autora para publicações como o suplemento Pernambuco.

A própria escolha do título já reflete o caráter ligeiro dos relatos da primeira parte do livro, no processo de captura de instantes semelhante ao das máquinas fotográficas da marca Polaroid, cujo diferencial era a revelação instantânea e a baixa durabilidade das imagens. A fotografia também batiza a segunda parte do livro, sob o título copiões (reprodução de fotos de um rolo com cópias em miniatura que permite observar o processo de evolutivo de um ensaio) reúne quatro crônicas mais longas.

O que norteia ambas é a presença da autora. Verídicos ou não, os relatos criam a ilusão de estarmos diante de Adelaide Ivánova como alguém próximo, ouvindo confissões sobre suas relações amorosas, segredos de família, dúvidas, saudades, reflexões sobre o exílio, citações a filmes e músicas. É como se ela fosse a personagem do próprio livro, num paralelo ao da origem do seu próprio nome, retirado da personagem de Os irmãos Karamazov, como ela nos conta da crônica 2.

Embora o discurso confessional crie essa aproximação imediata com o leitor, isso não significa que tudo na vida automaticamente se transforme em matéria-prima literária. Ainda mais quando esses momentos aparecem soltos e isolados, fora do seu contexto original. Aforismos como “pisar na neve” (p. 43) podem funcionar no blog como indicação de mudança do tempo, mas no livro soam vazios e irrelevantes, já que a organização não é cronológica nem há uma constância temática ou força poética que justifique sua presença na obra.

E esse problema não é um caso isolado na primeira parte do livro. Os fragmentos apontam direções, sugerem caminhos, mas não se consolidam como pensamentos nem como criações poéticas. A personagem/autora aparece em tudo, mas não encontra espaço para se desenvolver. Apenas em flashes que pipocam aqui e acolá sem conseguir iluminar de fato um raciocínio, uma trajetória. Seja pela dispersão de temas ou pela incapacidade dos fragmentos vencerem a descontextualização do blog e se sustentarem de forma independente como linguagem escrita que transcende às palavras.

Num espaço curto como a autora propõe na primeira parte, as palavras precisam atuar como moldura para ressaltar a ausência e não apenas registrar um fato, que, sem moldura, revela-se vazio. Algo que podemos ver nas obras de autores como Helder Herik, José Rezende Jr. e que a própria Adelaide alcança na página 51, onde, com apenas 37 palavras, ela nos faz pensar sobre os efeitos do tempo. A questão é que, em Polaróides, isso é exceção, não regra.

No registro de um detalhe, a gente compartilha um segredo que se esvazia simplesmente por não leva a lugar algum. Isso fica ainda mais evidente pelo contraste a que somos impostos quando alcançamos a segunda parte do livro. Talvez a melhor imagem seja uma comparação entre uma estrada esburacada e a autobahn alemã. Em textos mais longos, as qualidades da escrita de Adelaide Ivánova deslizam sem contratempos, num fluxo narrativo que nos envolve pelo seu tom de cronista confessional. Detalhes mínimos como o seu interesse pela poetiza português Adília Lopes, ou a origem do seu nome dostoiévskiano, um problema dermatológico ou os sinais do corpo de seu namorado ganham sentido justamente por serem detalhes, não essência, por serem peças dentro de um contexto, organizadas com funções de causa e efeito num discurso.

Lido em setembro de 2014

Escrito em 11.09.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com a escritora: Participei da entrevista com Adelaide para o Café Colombo e trocamos algumas mensagens para viabilizar a entrevista para o Vacatussa.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Polaróides e negativos das mesmas imagens

Adelaide Ivánova,

Editora: Cesarea

1ª edição, 2014

94 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“como eu faço pra transformar

aquela obsessão do começo em

inspiração e sede,

agora que tudo está calmo

e eu sei

que tu és meu?meu deus

que sorte

mas como faz para ver

charme na perfeição?” (p. 51)

[/learn_more] [learn_more caption=”EPÍLOGO” state=”close”]

Origem

Foi por sugestão de Adelaide Ivánova que a Cesarea se tornou uma editora. Até a autora sugerir o livro, a Cesarea era apenas a Revista Cesarea.

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Priscila Campos, no blog da Revista Continente, 26 de março de 2014.

(http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/48-literatura/8755-sobre-instantes-literarios-que-libertam.html)

“A escrita de Adelaide lembra constantemente que o mistério, parte intrínseca a algo ainda não experimentado, está à espreita, assíduo nas mais corriqueiras e banais das situações”

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Entrevista

Entrevista de Adelaide Ivánova ao Vacatussa (setembro de 2014)

Links relacionados

Blog da autora: Bolhas, champanhe, cowboy

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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