Pontes – Sabrinna Alento Mourão

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De fato!, eu responderia, rindo, enquanto ele (outrora tão robusto, barba crescida e cabelo rebelde, parecido com o Raul – o Seixas, que o Castro ele detestava, apesar de ser um Castro, só que vindo dos recônditos do agreste) contava uma história sem graça sobre os presidentes da década de noventa depois de me contar que perdeu a virgindade com uma mulher casada em troca de uma garrafa de toucinho. Eu, pernas cruzadas e os braços também, ar distante, dois anos passados na cidade grande, quase completando vinte anos de idade. Eu que, fugida, bebia cachaça em espeluncas empoeiradas no Ceará. Dezessete anos nos couros, cara de quinze, muito Belchior nos ouvidos já deficientes, algumas poesias dickinsonianas na ponta da língua inglesa das gringas de Iracema. Versuvius at home. Eu que, alimentada e acolhida pelas sapatonas sindicalistas que me levavam às passeatas e protestos, gritava coisas vermelhas e igualitárias enquanto bebia a cerveja com a estrelinha da revolução e o cigarro do camelo (de filtro vermelho, claro) em plena crise e Guararapes, olhando de soslaio aqueles que nos assistiam de suas calçadas, embrulhados em seus mantos e lençóis manchados de sangue de briga ou de pneumonia e úmidos de chuva e mijo de rato, sem entenderem tchongas. Esbravejo Fora, Medo! enquanto espero meu sanduíche de picanha ficar pronto. Juventude transviada!, alguém grita. Já muito bêbada, gargalho. Pode crer, cara, eu sou mesmo um tiro pela culatra do caralho. Eu juro que fiz de tudo e mais um pouco, não é assim que dizem? Tudo e mais um pouco. Mas fazer o quê, se eu era dessas menininhas piegas que fazia universidade & poesia & recebia elogios maçantes tipo nossa-você-brinca-deslumbrantemente-com-a-última-flor-do-Lácio? De fato!, eu responderia, rindo, pernas cruzadas e os cotovelos pousados na mesa, esperando minha apoptose enquanto te desejo lembranças e felicidades num fim de bilhete de aniversário que escrevo diretamente da ponta submersa desse iceberg monumental chamado seguir adiante.

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Sobre o autor

Nasceu em Parnaíba-PI, 1997. É estudante de Ciências Sociais. Tem textos publicados na plataforma Escrever sem Fronteiras e publicou o livro de contos IN VIVO pela Livrinho de Papel Finíssimo em 2017.

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