Processo 146952404 – Carol Rodrigues

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Comprei a flor sim. Um mano lá amigo meu pinta fina, pinta fina, se tem pinto fino eu não sei. É branquelo. Pinta, jeito elegante, posso continuar? Falou que a rosa colombiana é a melhor pra pegar mulher. Porra, desculpa, eu queria né. Faz dois anos já eu falei te amo ela falou posso até casar mas troca os dentes. Aí eu trabalhei em obra empilhei cascalho pra trocar os dentes todos ó, os da frente, os detrás, tudo novo. Aí depois que eu troquei ela fez doce que tinha outro cara na parada. Aí eu disse qual cara. Ela disse teu primo. Eu disse o Lucas? Ela disse é, o Lucas. Eu disse mas porra, desculpa, o moleque tem vinte anos. Ela disse mas ele chegou antes, cheiroso, trouxe flor. Eu disse porra tá de sacanagem. Desculpa. Aí eu fui falar com o Lucas que entendeu mas continuou, pegando ela, aí eu consegui dele ir pra faculdade, um bacana fez a ficha, no ProUni, eu paguei, no cascalho, e mandei ele pra Minas, isso, Gerais, direito, tá fazendo, segundo ano, quer ser promotor. Aí pra chegar nela eu pedi assistência, pro amigo, o Inácio, pinta fina. Ele falou dessa rosa, no Box 12, Ângelo Flores, do cemitério. Aí fui perguntar o preço vinte pilas. Eu não tenho, meu senhor, uma nota de vinte, na mão, desde que eu mandei o filhadaputa do meu primo pro ProUni. E queria um buquê né, um ramalhete, o Ângelo falou, da Ângelo Flores, que funciona melhor que a rosa solta. Aí voltei pro esquema né. Pedi ajuda, viração, um camarada, tava devendo, não vou falar o nome, não adianta, não vou falar, não é o Inácio, é outro cara, posso falar? Aí a gente foi fazer a transação. Tudo limpo tudo tranquilo. Comprei a flor, o ramalhete, dei pra ela, disse que casa, que me ama, sou cheiroso, e eu tô aqui agora. A gente tá noivo e nem beijou.

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Eu saí da agência às dez horas, isso, da noite, tava lá, dirigindo, ouvindo música, e no sinal da Heitor, isso, Heitor Penteado, dois criolos bateram no meu vidro, com a arma, calibre doze, eu sei, conheço arma. Eu pulei pro banco de trás um deles dirigiu o outro pediu o meu cartão a minha senha eu esqueci três vezes bloqueou ele apontou a arma eu lembrei do outro cartão falei a senha. Ele ligou pra alguém pediu pra eu repetir eu repeti ele disse rosa colombiana e desligou. Cocaína né só pode ser. Pensei tô fudida né comprando pó com o meu cartão. Desculpa. Aí eles pararam, na frente dum ponto, isso, de ônibus, aquele da Rebouças, com a Oscar Freire, me deixaram lá, o carro o cartão tudo. Levaram nada. Eu tinha feito xixi na calça nem percebi. Fui pra casa do meu namorado, mora ali, nos Jardins, desmaiou quase, coitado, coisa horrível. Aí no dia seguinte, vi no extrato, eles gastaram sessenta reais na floricultura da Doutor Arnaldo, dividiram ainda, três parcelas de vinte. É foda né, desculpa, mas arma na cabeça, mulher sozinha, pra comprar florzinha, colombiana, é foda, desculpa.

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A corte, em recesso, delibera agora se o réu é culpado ou inocente e retorna, em duas horas, com o veredicto, e a pena, havendo pena.

Carol Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 1985, e vive em São Paulo. Em novembro lançará Sem Vista Para o Mar (contos de fuga) pela Edith. Tem contos publicados na Revista Rosa (2014), no jornal Proibido Para (2013) e um poema na Antologia Off-Flip (2013).

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