Proclama assim, Zacarias – José Luiz Passos

0

resumido a situação dele, as circunstâncias e o conflito no qual Zach foi se meter, deitado com as pessoas da casa entrando e saindo do quarto, todos querendo saber se já era hora, se ele sentia o momento chegando e iria precisar do vaso de nogueira passado de mão em mão, prontamente, para que afinal Zachary fosse montar nas bordas daquela bacia de cama. No bispote do menino, como diz o pastor, seu pai. E ele, o menino, casaria a traseira branca na craveira daquele utensílio porco, de tantas lavagens. Ele, de braços cruzados diante dos outros, apertando o rosto e a barriga, a cabeça por cima dos joelhos, balançando-se de olhos fechados, como se o vaso, atado ao chão por raízes profundas e pás de adubo fresco, não pudesse jamais emborcar ao pé da cama em que o pastor dormia.

A pequena Annabel admira o irmão nessa luta. Olha Zachary de frente, encostada ao lado da janela, sem esconder o rosto. Nos dias da barriga o menino é a ocupação da casa. Irrita o pastor, que põe a razão em frutas inchadas, no caroço das frutas, no desgosto que Zach tem pela cata. Mas um homem são seus esforços, diz o pastor. Por isso, o regrador fica na mesinha da sala, numa jarra azul com pires por tampa. E o pastor prepara a mistura com casca de lima e raiz amarga, até tirar dela uma calda castanha, que lembra aos pequenos o barro feito no curso sinuoso dos seus próprios corpinhos, Pois a causa é o efeito e o efeito é a causa, começo e fim se enredam numa malha sem pontas, o pastor repete, enquanto passa nas canecas de estanho, cedo na manhã, uma dose a cada um deles, aos seis filhos já enfileirados. E Zach fica por último, para que, à espera da vez, no rigor de uma expectativa prolongada, o menino se abra às causas latentes e dilate, ainda mais, os seus próprios fins.

O nome do pastor é Baldy Washington, mas ninguém chama o pastor pelo nome. Ele é alto e agitado, franzino, de rosto duro, e a barba é grisalha, queimada por um resto de ruivo. Quem passe àquela hora vê Baldy regrando os meninos, repetindo sermões que seu próprio avô, o velho Taylor, mandou publicar em vida. Num deles, o destino da região é prefigurado na imagem de dois rapazes que arriscam as cabeças dentro da boca de um urso. Às vezes, o pastor também lembra aos filhos a vontade de Sallie Liz Cordell, a mãe deles, Que vocês aprendam a me ouvir, ela disse. Deus a tenha, e o pastor faz o sinal da cruz. Sallie e Baldy são os pais de Annabel e Zachary Clay Taylor. Mas quando estão a sós, rindo embaixo do cestão de roupas, lendo as mesmas páginas dos mesmos livros de sempre, com mapas do Brasil contornados em amarelo, dando nomes aos besouros apanhados no caixote de madeira, Annabel chama Zach de Clayman, barromem. Nome que para ela, aos sete, já traduz o irmão, suas saídas, os mergulhos, a intensidade do irmão, a seus olhos um pequeno gigante, grave e metido consigo, e por quem ela cultiva uma imensa adoração.

A menina está certa. Zachary, nosso homem de barro, era, no clã dos Taylor, o mais firme e, no entanto, de todos eles, o único verdadeiramente flexível.

De repente, o pastor põe as mãos no bojo da jarra de regrador, estira os braços diante de sua fileira de filhos e diz, solene, com o vidro azul flutuando entre as palmas, Pra nós é justo sofrermos pelo que merecemos, mas Ele não fez nada de mal, o Nosso Salvador. E com o rosto ao alto, Lembrai-Vos de mim quando começardes a reinar. Os filhos se fixam nos botões costurados na gola do pai, e então o pastor se empertiga, estira as pernas, arregala os olhos e, como se girasse uma alavanca, entorna a jarra de boca para baixo.

As crianças saltam nas pontas dos pés, para longe do anel que o regrador vai fazer, ao se espalhar, lustrando o assoalho com sua capa fermentada e marrom, indo borrar as sandálias e os pés dos pequenos, que, no pulo, largam um rumor em coro, dando sinal de seu nojo imenso.

Mas o regrador está seco, o giro na jarra é uma peça pregada como lição. E que lição era essa? Mesmo com a surpresa aberta no rosto das crianças, que se abanam, aliviadas, o pastor não acha graça. Zachary é o único que ri, enquanto Annabel tapa os olhos com a palma da mão. Então, com os dentes trincados, o pastor apanha sua flauta em cima do banco de couro e começa a bater no menino. Annabel cobre o rosto. Zach se baixa e se dobra, depois se deita no chão, com os braços cruzados por cima da cabeça, aguardando como herói as suas doze flautadas.

Compartilhe

Sobre o autor

Nasceu em Catende-PE, em 1971. É autor dos romances O sonâmbulo amador (2012), O marechal de costas (2016) e Antologia fantástica da República brasileira (2017), entre outros. Ensina literatura na UCLA.

Comente!