Progênie – Karen Lima

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“Batizo-te como Cassandra em nome do pai, do filho e do espírito santo. Amém.”

Não sei bem por que esse nome e nem o acho muito bonito, mas foi nos primeiros dias de dezembro, daquele ano devastador, que ele me designou: Cassandra. Hoje, olho no relógio as horas, os dias, o tempo. Nem me lembro qual folha do calendário devo olhar. Mês de março? Acho que não. Em março é aniversário da Aninha, que sempre me convida pra festa. Deve ser fevereiro ainda ou então ela esqueceu que ainda não morri. Até eu me esqueço, às vezes: essa pele seca, essa olheira que esconde toda a beleza da minha íris cor castanho-claro, essa morte bebida a conta-gotas, esse cheiro de mofo pela casa. Não sou mais Cassandra. Sou só saudade de quem me deu um nome e uma vida.

Fui Cassandra durante um ano e nove meses. Um amor e uma vida germinada, pronta pra nascer. Eu quis ter filhos, escrever um livro, entrar no teatro e cantar algumas músicas pra ele ouvir. Só de paixão. Nem por mim nem pelo mundo. Muito menos pelos rastros que ficarão no fechamento de meu túmulo.

O meu nome me dava direito de ser quem eu era. Como nunca soube ser qualquer coisa, não suportei o peso de mim mesma. A infinitude me causava medo. Agora, olho as paredes e só vejo finito. O branco da tinta reflete na alma, atinge os olhos e arde. A lágrima desce ligeira, mas a minha testa não franze, meus olhos não fecham, minhas bochechas intactas e minhas mãos continuam na asa da xícara de café, que já esfriou.

Tenho vontade de pegar o telefone e discar pra qualquer um que atenda e escute a minha voz, que nem me recordo se é grave ou aguda. Desejo inútil. Não paguei a conta telefônica dos últimos meses e nem sequer recebo mais ligações. Isso me conforta. É um jeito de me enganar, como se fosse escolha minha essa solidão. A culpa é de Cassandra, que não soube carregar o amor no colo e derrubou como se arrasta o prato de comida na mesa. Enchi-me de amor até não suportar. O que eu fiz foi resguardar o meu pão.

Pego uma caneta e um papel. Faço traços finos. Alguns retos, outros circulares. Imagino se esses rabiscos parecem com alguma coisa. Mania de criança, isso de inventar o incriável ao olhar para a vida real. Como ver dinossauros nas nuvens, acreditar, depois passar a ver um morango gigante e acreditar novamente. Sempre acreditando, e desacreditando, para acreditar ainda mais. Eu que já estou na meia idade de mim, que nem é medida em anos, mas em sobrevivências, penso que a velhice parece mesmo com a infância. Às vezes, isso é tristeza, mas outras vezes é salvação.

Neste instante me vem uma vaga lembrança daquela que fui. Daquela que sobrou de mim. Essa que eu voltei a ser. Nesse corpo que é nada. Eu era Cassandra para quem me deu uma gramática que eu pudesse escolher e saborear as palavras todas. Aquele que, com a água do mar, batizou-me e então eu pude sentir: um coração, uma respiração, a veia pulsando no pescoço, uma visão. Viva. Soube que eu existia a partir dali. Um nascimento, mas em segredo.

“Vamos lá, agora você!”. Mas eu não podia. Era me dada a responsabilidade de parir alguém que viria ao mundo e cresceria por lugares que eu ainda não conhecia. Eu não tinha útero. Só coração. Ainda recém-nascida, perdida, e deslumbrada com o que era o sangue percorrendo nas artérias. “Agora não, depois.” Depois. Depois. Depois. “Quando, Cassandra?” E eu nunca era agora, eu só era atraso. Achava que dando nome a alguém, estaria abrindo caminhos e oferecendo o labirinto pra chegar no âmago meu. Tive medo. Não sabia que os espaços já estavam todos preenchidos por alguém que já tinha nascido em mim, só não tinha nome. Eu o neguei. Recusei por amor. Calei por não saber que letras dar a alguém que era todo um alfabeto e sons. Ele já ressuscitava, eu que nascia.

Mas sempre ao voltar em minha direção, trazia consigo a sensação de que eu continuava. Eu e meus átomos que funcionavam ainda mais aflitos perto dele. Assim, descobri. A gente só pode ser, se tiver alguém pra reafirmar essa certeza. Só dá pra se ver, se for no reflexo do olho do outro. Só se tem um nome, se alguém te chamar por ele. Então morri. Cassandra deve estar em alguma áurea perdida entre os outros seis sóis do cosmos. Eu? Eu não sou. “Vamos, Cassandra! Quero que seja entre seus lábios e seus dentes e seu timbre”. Depois. Depois. Depois. Entre um até logo e um adeus. Entre um pedido e um abandono. Dessa vez, ele não mais me encontrou. Depois: e depois eu fiquei sem ter por quem chamar.

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Sobre o autor

Nasceu em São Paulo-SP, em 1994. Mora em Petrolina-PE desde 2000. Jornalista pela UNEB, usa o lápis e a câmera fotográfica para revelar a grandeza das pessoas. Também esconde textos no blog pravacadormir.blogspot.com.br.

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