Quatro poemas – Adelaide Ivánova

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um poema pra italo

a vida tem estado mesmo dura
vou poupar-te da ladainha sobre temer
AfD
#voltadilma
e o caralho
não ganhamos dos bancos
em caruaru ou karlsruhe
meu dinheiro e endereço: bloqueados
a moça do balcão cagou pra mim
ser cidadão não significa merda nenhuma
mas é privilégio nessa europa genocida
(e quando é que ela não foi?)
ser branco nunca deixou de ser
no entanto
dão-me tapinhas nas costas
pelo meu alemão impecável
meu alemão não é impecável
mas como em relação às minhas
capacidades já que sou latina
são extremamente
baixas as expectativas
qualquer coisa que eu não faça muito mal
(pros seus parâmetros)
os surpreende
mal sabem eles que o último projeto
(meu e de outras mulheres)
é escavar com uma colherinha estes alicerces
até que despenque sobre as nossas cabeças
mas sobre as deles também
esta europa de humanistas autodeclarados
morreremos todos
está claro
mas ninguém vai pro céu
(aprendi contigo)
e eu acho é pouco

os anos noventa

você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida
mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos
nunca estiveram presentes pra testemunhar
os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os

videntes você era apenas um menino quando
kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano
que causaria sua existência de crisálida taurino e
primaveril quando meu destino cruzasse com o seu

e andaríamos de mãos dadas e suando verão afora
como se fosse o primeiro (e era) berlim não era
tão esplendorosa quantos seu cachos jakob mas você
nunca soube o que foi ter 16 anos em recife na década

de noventa FHC presidente desemprego torneiras secas
filariose cólera sem vale do rio doce mas tinha chico science
abril pro rock o pior é agora não tem berlim não tem recife
não tem chico science não tem kurt cobain nem você mas FHC

ainda tem

piriguetismo de guerrilha

pra maria felipa de oliveira                                                                                              

diz que em nome da independência
maria felipa deu surra
de cansanção nos portugueses

tentando salvar salvador
e outras terras da sanha
dos homens brancos

era quando tiravam a roupa
crente que fornicariam que felipa
incendiava as caravelas

maria felipa seduzia como os librianos
(distract and destroy) adiantando em 100 anos
a tática hoje conhecida como black bloc

se cobain fosse vivo certeza
que seria para ela aquele refrãozinho
“poly wants a cracker”

(aquela história da moça que seduz
o algoz e se liberta e depois conta
a história para ouvidos moucos

como é o caso de maria felipa
cujo ato de piriguetismo de guerrilha
organizado é conhecido e celebrado por poucos)

passados 100 anos eu que te dou
uma surra não de erva (e sim aquela)
para salvar a mim mesma do espanto

tua república de coxinhas não
aceita a minha, de nordestinos-mortadela,
mas quiçá a zika nos igualará todos,

micro- ou anencéfalos, só eu e tu
seguiremos trepando, coquetel molotov
das trevas, fertilizas com teu esperma

todas as minhas capitanias até
que essa era ganhe o nome de cidade
sulista, “nova idade média”.

sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015

de que adianta esse pôster de madonna na
parede da cozinha indicando de qual lado
estou se na papua nova guiné continuam
linchando mulheres a quem chamam de bruxa
a papua pode até ser guiné mas nisso não
tem nada de nova e se for para queimar uma
mulher por bruxaria que queimem logo todas

de que adianta beyoncé avisando que vai sentar
o rabo na cara do boy e de que adianta eu me
inspirar nisso para fazer igual ou parecido se na
papua nova guiné sentam senhoras em telhas de
brasilit e com elas amordaçadas abrem nacos de
carne e sangue que na foto escorria pelas rugas da
telha pelas rugas das costas da mulher essa mulher
de cabelo curto e preto de costas na foto parecia a
minha mãe eu perdi o controle não consegui mais
almoçar e sei que não vou conseguir dormir mas

de que adianta minha insônia e meu jejum e esse
poema se na papua nova guiné não iriam entendê-lo
e mesmo a compreensão dele não salvaria a vida da
mulher e mesmo no brasil onde se pode entendê-lo já
se sabe que poemas tal qual leis não mudam nada tudo
sobre isso já foi legislado e dito em todas as línguas
também em português mas meu deus

de que adiantaria meu silêncio?
de quem estaria meu silêncio a serviço?

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Sobre o autor

Adelaide Ivánova (Recife-PE, 1982) é jornalista, ativista, poeta, fotógrafa, tradutora e editora. Tem três livros, sendo o mais recente O martelo. É fundadora do grupo de estudos B.R.U.X.A e edita o zine MAIS PORNÔ, PVFR!. Vive entre Berlim e Colônia, Alemanha.

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