Rasif: mar que arrebenta – Marcelino Freire

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Marcelino Freire nasceu em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. É um dos principais nomes da geração consolidada através das antologias da Geração 90. Entre seus livros, se destacam Angu de Sangue (2000) e Contos Negreiros (2005), pelo qual venceu o Prêmio Jabuti de contos.

Livro: Publicado em 2008, o livro reúne 17 contos. A edição conta com capa dura, apresentação de Santiago Nazarian e gravuras de Manu Maltez.

Tema e Enredo: Os temas tratados em Rasif às vezes acompanham pautas da mídia, o que confere ao livro uma revigorante contemporaneidade.

Forma: O autor repete a receita dos seus trabalhos anteriores, abordando a temática dos problemas sociais por um viés estético, que une rimas à violência, miséria e preconceito.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Uma literatura do enfrentamento

Há alguns meses, tive oportunidade de assistir a uma aula na qual foram discutidos contos de Marcelino Freire. As opiniões se polarizaram: uns não gostaram dos textos, ao passo que outros estabeleceram uma conexão imediata e íntima com eles – uma paixão de nocaute. A concisa obra deste pernambucano de Sertânia, ganhador do prêmio Jabuti, aceita os riscos e o inegável fascínio do confronto: é cabeça contra cabeça – e cabeças esmigalhando paredes, mordendo caminhos através delas.

O leitor pode perceber isto pelo título do seu novo livro, Rasif – Mar que arrebenta, que acaba de ser publicado pela editora Record com belas gravuras do artista plástico Manu Maltez. Na epígrafe, somos informados que a palavra-título, de origem árabe, deu nascimento à palavra Recife, ao passo que o subtítulo é a tradução do tupi-guarani “paranã-puca” (que origina o nome do nosso estado). Não se trata apenas de uma homenagem às origens. Temos aqui duas imagens que sinalizam o embate de forças que moldam uma a outra: o mar, deformado em espuma por arrecifes que, por sua vez, são redesenhados, depois de anos, pela água salgada. Ora, as forças que nos deformam, isolam e assassinam são importantes temas da literatura de Marcelino Freire.

Em Contos Negreiros, isto é visto sob o viés do papel do negro na nossa sociedade; em BaleRalé, o enfoque recai na sexualidade. No caso de Rasif, contos como Amor cristão (“Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe”), O meu homem-bomba, Maracabul e Meu último Natal constroem um acentuado horizonte de apocalipse social, o que aproxima o livro, neste sentido, de Angu de Sangue. Em Rasif, estamos aos pedaços, rodeados pelos esqueletos das nossas edificações embargadas e pelas grandes curvas de concreto e fuligem.

O primeiro conto, Para Iemanjá, funciona como um canto introdutório que nos apresenta às imagens bastante concretas e cotidianas da prosa do escritor pernambucano: “Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha”. Como o leitor pode perceber, não é à toa que seus livros caem tão bem nos palcos. Sua prosa não tem apenas a cadência e as rimas do rap-repente. Trata-se de uma musicalidade cuja alma está nas músicas populares das antigas, os bregas dos bons, que tantas vezes nos contam histórias viscerais de amor (lembrem de Coração materno, de Vicente Celestino). Roupa Suja, I-no-cen-te, Os atores e Ponto.com.ponto tematizam desejos explosivos, escancarados, que muitas vezes terminam numa cartografia de pólvora retorcida em sangue.

Como outros livros da ficção brasileira hoje, os temas tratados em Rasif às vezes acompanham pautas da mídia, o que confere ao livro uma revigorante contemporaneidade. Dialogar de forma próxima com os meios de comunicação, aliás, parece ser uma importante tendência da nossa prosa atual. Muitas vezes queremos gritar contra o social junto com um texto que acompanhe nossos passos, nossas revoltas e nosso olhar, pois com ele construímos um valor de reconhecimento de impasses. Isto implica, porém, num desafio: como escrever textos que já não nasçam tão previsíveis quanto os penteados de William Bonner?

Como João Alexandre Barbosa apontava no prefácio de Angu de Sangue, o importante é mudar as coisas de lugar, acrescentando ângulos inusitados ao que já foi por demais pisado. Este é o trunfo dos melhores contos de Marcelino Freire, principalmente quando optam por um bem-vindo, embora doloroso, humor. É o caso do ótimo Amigo do rei, que conta o sonho de um menino pobre em virar poeta, o que angustia o pai (“Meu filho vai ser bicha. Credo!”) a ponto deste achar que seu filho está apaixonado por um tal de Manuel Bandeira. Com menos humor e mais afeto, Junior, outro bom conto, constrói uma cena tocante entre um homem casado, seu amante travesti e o filho daquele. Por outro lado, contos como We speak English, Tupi-guarani e Sinal fechado não funcionam bem. O humor do primeiro não consegue ir além da ironia pop, ao passo que os dois últimos caem nas armadilhas dos temas do dia.

Rasif indica um autor de carreira firmada e obra amadurecida. A partir de agora, o maior desafio de Marcelino Freire e de outros escritores da sua geração será evitar o impasse do estilo, um dos dois fantasmas de qualquer escritor (o outro é o branco da página e tudo que ela esconde: expectativas, ambições, silêncio, indiferença). O conto-canto que encerra o livro, O futuro que me espera, talvez metaforize pontos de chegada e inquietações de partida. Nele há aquele tipo de utopia reversa que tanto nos dói, a nostalgia de um lugar que só pode ser habitado bem, bem dentro. Apesar de sombrio, Rasif, ao seu final, nos concede um acalanto, um resgate da fratura, um suspiro de alívio antes dos olhos fecharem.

Crítica originalmente publicada em 2008 pela Revista Continente

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/05/cristhiano1.jpg[/author_image]

[author_info]Cristhiano Aguiar

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Currículo: Escritor e crítico literário, doutorando  [/author_info] [/author]

O trunfo do estranhamento

No Brasil, há quem defenda que a realidade social do país deva ser retratada pela arte do jeito que ela é, sem interferências, como um documento, registro fotográfico, na tentativa de não embelezar o feio e maquiar as mazelas. Uma estratégia que, se bem utilizada, consegue catalisar as injustiças da realidade e, por meio de uma linguagem crua, transformá-las em revolta, criando cenários assustadores como o apresentado por Rubem Fonseca, no conto Feliz Ano Novo.

Mas essa tendência está longe de ser unanimidade. Nessa outra seara, o nome que se apresenta com maior contundência é o do pernambucano Marcelino Freire, vencedor do Prêmio Jabuti 2006, na categoria de melhor livro de contos por Contos Negreiros. Em sua obra mais recente, Rasif: mar que arrebenta, o autor repete a receita dos seus trabalhos anteriores, abordando a temática dos problemas sociais por um viés estético, que une rimas à violência, miséria e preconceito.

Aqui, porém, o estilo de Freire já parece ter se consolidado. Sua poética não se mostra tão incômoda como em Angu de Sangue, embora ainda soe estranha quando esquecemos a figura do autor e nos concentramos apenas nas suas histórias. O que, com o passar do tempo, torna-se cada vez mais difícil. Hoje já não pegamos um de seus livros atrás de bons contos, mas porque se tratam de histórias de Marcelino Freire, com seu jeito tão marcante de combinar palavras quanto a força com que ele lê seus escritos.

Algo que pode ser encontrado em todos os contos de Rasif, mas salta aos olhos do leitor com mais evidência em Para Iemanjá, Amor Cristão e O futuro que me espera. Esses textos são quase discursos retóricos do próprio autor, onde quase não existe enredo, assemelhando-se à estrutura das crônicas. Nos outros contos, no entanto, as características marcelinianas quase passam desapercebidas, ofuscadas pelo peso de suas denúncias sociais, como no caso da criança que pede um revólver ao Papai Noel (Maracabul), da outra que planeja o assassinato do bom velhinho (Meu último Natal) e da mulher que se nega a ir a uma passeata pela paz (Da paz).

Mas, se nesse quarto livro Freire consegue transformar seu estilo em trunfo, ele ainda mostra que não sabe os limites de sua arma. O deslize nos contos O meu homem-bomba e We Speak English é gritante, parecendo que eles entraram no livro apenas para aumentar a quantidade de páginas, fazendo um malabarismo de palavras esvaziado, sem alma, sem dizer coisa alguma.

Lido em Set. de 2008

Escrito em 27.09.2008

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Como jornalista e crítico, tenho acompanhado o trabalho de Marcelino Freire desde Angu de Sangue, o que sempre nos faz entrar em contato para entrevistas. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Rasif: mar que arrebenta

Marcelino Freire

Ilustrações: Manu Maltez

Record

1a. edição, 2008

123 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Leco ficou esperando. O olho grudado no alto. Apertando o pedaço de paralelepípedo. Também trouxe uma faca, caso fosse preciso. Ou se o velho gordo revidasse. E gritasse. Eu disse para o Leco. Papai Noel não grita. Faz só ho, ho, ho. Leco riu, meio apressado. E me disse que Papai Noel era rico. Eu disse que não era. Leco disse que era. Papai Noel era dono de uma fábrica. E vinha de longe. De um país cheio de neve. País pobre não tem neve. E Papai Noel era gordo. Muito gordo. E sorria. Era um homem muito rico, sim. Por isso fazia ho.” (p. 45, conto: Meu último Natal).

[/learn_more] [learn_more caption=”EPÍLOGO” state=”close”]

Adaptação

Assim como o livro Angu de Sangue, Rasif também foi levado aos palcos pelo Coletivo Angu de Teatro em 2008, com direção de Marcondes Lima.

Finalista

Rasif foi um dos onze finalistas na categoria de contos e crônicas do Prêmio Jabuti, em 2009. Nesse ano, o vencedor foi Canalha! de Fabrício Carpinejar.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Fábio de Souza Andrade, na Folha de São Paulo, em 13 de setembro de 2008.

(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1309200815.htm).

Apesar da contundência do universo que expressa, exigindo a tomada de posição, Freire ganha corpo de escritor na capacidade, ora irônica, ora simpática, de conferir consistência às vozes em primeira pessoa. A exemplo de Dalton Trevisan, está inscrito numa tradição de exímios recriadores da oralidade, que dominam a coordenação enumerativa, a elipse alternada com a redundância, ocasional e funcional, típicas da do discurso direto informal.”

José Castello, na Cronópios, em 15 de setembro de 2008.

(http://cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=3523).

“Não, Marcelino Freire não faz como Dalton Trevisan que, interessado nas vozes pequenas dos homens comuns, as apequena e esmaga, e sobre estes restos escreve. Mais valente, Marcelino incorpora essas vozes — aceita-as como são, por mais medonhas e repulsivas que pareçam —, e se oferece como um transmissor. Seu trabalho é o do editor que depura, procura relações ocultas, alija fraudes, desenha o possível. Ele atua como um browser, instrumento que habilita seu leitor a navegar por um vasto oceano de vozes, a acessar vozes hospedadas nas mais distantes profundezas, e ainda assim retornar à superfície.

Marina Monzillo, na revista IstoÉ Gente.

(http://www.terra.com.br/istoegente/edicoes/468/contos-rasif-mar-que-arrebenta-99267-1.htm).

O autor tem um estilo marcante e agradável de brincar com as palavras, de escrever prosa como se fizesse poesia. E desse exercício, do qual virou mestre, saem pérolas, com teor de crítica social e até humor”

Eduardo Araújo Teixeira, no Cronópios, agosto de 2008.

(http://cronopios.com.br/site/lancamentos.asp?id=3441).

“Amalgamando lirismo e crueza (a exemplo do trecho anterior), Marcelino Freire dá vazão em Rasif a um estranho saudosismo da ingenuidade perdida, da infância, de uma natureza não-corrompida, de uma modernidade sem a vertigem do consumo.”

[/learn_more] [learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

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Angu de sangue – Marcelino Freire

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Contos Negreiros – Marcelino Freire

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Entrevista

Entrevista de Marcelino Freire ao Vacatussa (julho de 2014)

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