Relatos de um leitor (2012)

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Relatos de um leitor (2012)
Thiago Corrêa

Fim de ano chegando e bate aquela mania de rever o que aconteceu, avaliar o andamento da vida e comparar as realizações com as metas traçadas feitas há um ano, lá em dezembro de 2011, que era a de escrever minha dissertação de mestrado. Cada vez mais desligado da urgência jornalística aos lançamentos, minhas leituras em 2012 tomaram outro rumo, deixando passar em branco o oba-oba das novidades. A única exceção foi a leitura realizada já em janeiro do romance em gestação de Ronaldo Correia de Brito, que meses depois viria a ser lançado com o título Estive lá fora. Ainda não li a versão final para poder opinar sobre o livro, embora o esboço já seja suficiente para afirmar que se trata de um livro importante por trazer o tema da ditadura para a discussão, ambientando o medo da época no Recife, com seus personagens, cenários e segredos.

Em seguida, devido a uma conjuntivite que insistia em me deixar socialmente isolado, comecei a corrigir uma das inúmeras falhas da minha formação e li o volume de contos Música e literatura de Machado de Assis, organizado por João Cezar de Castro Rocha. Com essa falta de autoridade sobre Machado, me limito a dizer que a coletânea é um bom caminho para conhecer a sua obra, oferecendo uma visão generosa de como o Bruxo do Cosme Velho encarava a arte (com preciosas observações sobre a vaidade humana e relativizações sobre distinção entre a cultura erudita e popular) e o fazer artístico, através da exigência de esforço, dedicação, mas também de algo sobrenatural e inexplicável.

E antes de começar 2012 pra valer, precisei me livrar de pendências do passado e escrever os artigos das disciplinas do semestre anterior. Apesar do aperreio natural de ter que colocar a cabeça pra funcionar já com o carnaval apitando nas esquinas da cidade; esses artigos me fizeram um bem danado por me colocarem em contato com Antão, o insone, escrito pelo artista visual Marcelo Coutinho. Escrito originalmente como uma dissertação de mestrado, esse livro é uma joia perdida nas estantes das livrarias, um exemplo de como a invenção e o objetivismo científico podem conviver e, acima de tudo, uma aula de como a literatura pode reconfigurar o mundo ao modificar o nosso olhar.

Mas como nenhum ano é perfeito, também tropecei em obras de engenharia duvidosa. É o caso da coletânea Silas, do escritor Sergio Fantini, com seus contos que parecem querer ganhar o leitor no grito, trocando a reflexão pelas convenções da ação, geralmente movidas pelo apelo do sexo e pela necessidade do confronto rápido e rasteiro típicos da adolescência.

Depois do carnaval, quando o ano realmente começa, bateu a responsabilidade e a dissertação se impôs no horizonte. Em direção a esse norte, segui um caminho de leitura empoeirado, que remete a uma época nem tão distante assim, mas que soa como algo remoto aos ouvidos desses tempos de tablets, smartphones e redes sociais. Como o tema do projeto envolve narrativas nacionais criadas e veiculadas na web, fiz uma viagem no tempo, relembrando o barulhinho do Trompet pra se conectar à internet, as conversas no mIRC, a onda de correntes e textos apócrifos que circularam por e-mail, o surgimento dos blogs… Um ótimo guia para fazer essa viagem é o livro-reportagem Os bastidores da internet no Brasil, onde o jornalista Eduardo Vieira conta com leveza os primeiros passos da rede através dos perfis dos principais desbravadores do mundo digital no Brasil.

A contextualização histórica desse momento foi completada com a leitura da produção literária na web, reconstruindo a transição de milênio por meio dos primeiros flertes dos nossos escritores com a internet. Desde o saudoso e adolescente e-zine veiculado por e-mail Cardosonline (responsável pelo surgimento de nomes como Daniel Galera) até a chamada tuiteratura, muito bem representada na minha dissertação pelas Estórias mínimas de José Rezende Jr. De lá para cá, esse intervalo ainda me reservou escalas no surgimento dos blogs (com a coletânea Wunderblogs e o romance Máquina de pinball da blogueira Clarah Averbuck), no potencial criativo dos e-mails com eu@teamo.com.br, escrito e vivenciado por Letícia Wiercowzchi e Marcelo Pires, na incursão de João Ubaldo Ribeiro no mundo eletrônico com Miséria e grandeza do amor de Benedita.

Nessa trilha, um capítulo especial foi dedicado a Mario Prata. Por conta de sua experiência fascinante de escrever Os anjos de Badaró ao vivo enquanto os leitores acompanhavam a criação via internet; acabei lendo praticamente toda a sua obra, o que me fez descobrir que pôr ordem na sequência de leitura ajuda e muito a entender melhor a obra de um autor, percebendo seus artifícios e visão de mundo através da comparação dos seus livros. No caso de Mario Prata foram: Buscando o seu Mindinho, Minhas vidas passadas (a limpo), os folhetins James Lins, o playboy que não deu certo e Purgatório, os policiais mais recentes Sete de paus e Os viúvos e as coletâneas de crônicas Minhas tudo e Minhas mulheres e meus homens.

Como também dediquei um capítulo às narrativas hipertextuais, a menção a Tristessa do desconhecido Marco Antonio Pajola se faz obrigatória neste relato de leituras de 2012. Além do valor histórico, afinal ela é uma das poucas que sobreviveram às mudanças constantes da informática; a obra é tem seu valor literário. Bem escrita, Tristessa apresenta densidade temática e inovações formais, revelando-se um ótimo registro da época em que a informática começava a transformar a sociedade, despertando um misto de curiosidade e receio.

E claro, em se tratando de um ano dedicado à dissertação não poderiam faltar teóricos. Se tivesse que resumi-los em duas palavras, eu o faria assim: Pierre Lévy. Tanto pelo livro Cibercultura, como pela obra As tecnologias da inteligência e O que é o virtual?. Mas aí seria uma injustiça com o clássico Os meios de comunicação com extensões do homem de Marshall McLuhan e um crime contra O show do eu, de Paula Sibília, livro que considero essencial para entender a literatura e a sociedade contemporânea. Nessa leva, ainda merecem menções O pacto autobiográfico de Philippe Lejeune, A era do hipertexto de Antonio Carlos Xavier e A aventura do livro experimental de Ana Paula Mathias de Paiva, além dos pilares de fundação onde ergui meu raciocínio: O livro depois do livro de Giselle Beiguelman, Literatura eletrônica de Katherine Hayles e Hamlet no Holodeck de Janet Murray.

Mas como ninguém é de ferro, além de muitos seriados e filmes baixados na internet, equilibrei as leituras acadêmicas com quadrinhos. Nesse quesito, o argentino Liniers teve lugar de destaque nas minhas retinas, primeiro com o non-sense das tirinhas de Bonjour e depois com a genialidade dos dois primeiros volumes de Macanudo. Também houve momentos para os super-heróis com a leitura do Projeto Marvels, da dupla Ed Brubaker e Steve Epting, cujo visual retrô me levou a releitura de Marvels, trabalho revolucionário de Alex Ross e Kurt Busiek que reconta o surgimento dos heróis pela perspectiva humanista do fotógrafo Phil Sheldon. E momentos mais sérios, com as leituras das graphic novels Maus (em que Art Spielgman relata brilhantemente a trajetória do seu pai, um sobrevivente dos campos de concentração nazista); e Gênesis de Robert Crumb, baseada no texto bíblico, expondo todas as suas contradições narrativas, traços de oralidade, métodos escusos de deus e indícios de manipulação da História para justificar o poder de um povo.

Ano que vem tem mais…

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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