Retalhos – Craig Thompson

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PRÓLOGO

Autor: Craig Thompson nasceu em Traverse City, no estado de Michigan, Estados Unidos. Trabalhou para a Dark Horse Comics e depois de uma tendinite passou a se dedicar a projetos mais pessoais. Além de Retalhos, entre seus trabalhos mais importantes estão Good-bye, Chunky Rice (1999) e Habibi (2011).

Livro: Retalhos foi publicado nos Estados Unidos em 2003 e chegou ao Brasil em 2009 pela Companhia das Letras. A obra ganhou três Prêmios Harvey (melhor artista, melhor cartunista e melhor álbum gráfico), dois Prêmios Eisner (melhor álbum gráfico e melhor escritor/artista), dois Ignatz (artista destaque e graphic novel destaque) e o Prix de la critique.

Tema e Enredo: História autobiográfica onde o autor conta as dificuldades de sua infância e adolescência, vividas numa pequena cidade dos Estados Unidos onde havia uma forte influência da Igreja Católica.

Forma: Craig Thompson alterna momentos da sua infância com da adolescência como uma maneira de estabelecer relações entre a sua formação católica com os desafios do crescer.

CRÍTICA

O universo escolar americano está tão presente no nosso imaginário por conta dos filmes e seriados de televisão que até parecia um tema esgotado. Embora trilhe pela mesma tensão dos valentões e excluídos do high school, Retalhos de Craig Thompson consegue desmontar essa estrutura arquetípica através de um relato pessoal do autor que confere a narrativa um nível de sinceridade que acaba se transformando em poesia. Pela perspectiva pessoal de Craig Thompson, o relato do adolescente, que é perseguido na escola apenas por ser diferente, faz com que a tensão seja observada não como um problema em si, mas como uma experiência pessoal que leva o autor a investigar sua própria existência.

No quadro composto pelo autor, as chacotas dos valentões na escola se somam às dificuldades econômicas de sua família e à tradição católica que guia o lar dos Thompsons numa pequena cidade de Wisconsin, levando o jovem Craig a se retrair em seu interior e se expressar através de desenhos. Uma estratégia de sobrevivência que se reflete nas páginas de Retalhos, seja pela delicadeza do traço de Craig Thompson ou pelo ímpeto do autor em mergulhar fundo em sua alma, buscando experiências, feridas e pesadelos na tentativa de se entender e expurgar seus fantasmas.

Assim, a narrativa é intercalada pelos tempos de infância e a insegurança típica de um adolescente que não se encaixa nos padrões e é constantemente forçado a crescer, adaptando-se a mudanças do corpo, da vida, da sociedade. Nesse jogo cronológico que explica o título da graphic novel, o autor estabelece relações inteligentes entre o Craig criança com o adolescente, como uma forma de justificar atitudes, culpas e receios de um jovem que se encontra na iminência de decidir seu futuro e é apresentado ao amor após conhecer Raina, num acampamento bíblico de inverno.

O carinho entre eles crescem e, ao passar uns dias na casa de Raina, uma nova realidade se estende aos seus olhos. À medida em que se envolve na vida de Raina, conhecendo os amigos, os dois irmãos deficientes e os pais recém separados dela; Craig naturalmente passa a comparar esse novo mundo com o seu, descortinando sua precária relação com o irmão Phil (lembrada através de brigas, distância e reprimendas dos pais), sua solidão em Wisconsin e sua formação católica, posta em contradição diante do amor.

Nessa justaposição de fatos que marcaram a sua vida, Craig Thompson tem o mérito de não se preocupar apenas com o conjunto, com a costura do plano geral da narrativa. Cada retalho é construído como uma peça única, pedras lapidadas que integram uma joia maior. Um cuidado que está na escolha de palavras que compõem uma frase, na frase que descreve um sentimento, o sentimento que norteia um desenho, o desenho que compõe um quadro, o quadro que rende uma página, uma cena, uma situação, uma história, a vida.

Tanto esmero faz com que cada parte, ao mesmo tempo em que se harmoniza com o conjunto, pareça independente, plena por sua beleza poética individual. Algo que ele alcança não apenas através da sua capacidade técnica como desenhista, mas por conseguir expressar sentimentos em palavras e imagens, num perfeito casamento entre eles. É dessa fusão que Craig Thompson parece extrair o poético, combinando a sinceridade dos relatos pessoais que conferem à narrativa uma concentrada essência humana, com a liberdade de criação que permite uma abordagem às situações pela inventividade da ficção.

Numa demonstração de pleno domínio da arte narrativa, o autor explora esses elementos, numa mescla que envolve o uso da imaginação (a exemplo do quadro em que Craig relaciona o cair da neve com o brilho de uma viagem espacial e do olhar infantil que aparece nas brincadeiras entre ele e Phil); das metáforas usadas nos desenhos para traduzir o texto (como nas sequências em que Craig tenta se livrar do passado); das entrelinhas para tratar do abuso da baby-sitter sofrido na infância e a depressão da mãe de Raina; e da ênfase dos quadros em páginas inteiras (como na sequência de afeto entre Craig e Raina, que ressaltam a importância daqueles pequenos instantes).

Lido em novembro de 2014
Escrito em 07.12.2014


Relação com o autor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Retalhos
Craig Thompson
Tradução: Érico Assis
Editora: Companhia das Letras
1ª edição, 2009
592 páginas

TRECHO

 

OUTRAS OPINIÕES

Raphael Draccon, no site Raphael Draccon, 31 de julho de 2009.

(http://www.raphaeldraccon.com/blog/?p=418)

“Ler essa graphic novel é um tipo de experiência que fica na alma; a narrativa é tão sincera que chega a doer dentro da gente. Ela aperta o coração, e, assim como um bom filme fica na memória após o sair da sala, essa história fica na nossa mente mesmo após o fechar do livro.”

Nego Dito, no site Livrada, 9 de setembro de 2012.

(http://livrada.com.br/2012/09/09/craig-thompson-retalhos-blankets/)

“Então é basicamente isso, o Retalhos: uma história sobre a descoberta da própria sexualidade, das próprias opiniões, e da tristeza que é envelhecer. O mais legal do livro é a linguagem bíblica com que ele embasa todas as pequenas revelações da sua vida, a narrativa não linear que vai e volta à sua infância”

Mel Panteliou, no site Leitura Sabática, 31 de outubro de 2014.

(http://leiturasabatica.com/2014/10/31/retalhos-craig-thompson/)

Retalhos se faz inteiro ao mesmo tempo que reúne pedaços da história do autor e expõe seus fantasmas e esperanças. A crueza da vida desafia o leitor a se manter impassível diante das coisas que dão errado para Craig.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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