Retratos Imorais – Ronaldo Correia de Brito

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, interior do Ceará em 1951. É médico formado pela UFPE e escritor. Em sua obra, destacam-se os livros de contos Faca, Livro dos Homens e o romance Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009.

Livro: Retratos Imorais reúne 22 contos criados entre 1973 e 2010. O livro finalista do Prêmio Jabuti, semifinalista do Prêmio Portugal Telecom e indicado como um dos 10 melhores do ano pelo jornal O Globo.

Tema e Enredo: Os contos trazem como matéria-prima o acúmulo de quatro décadas de sentimentos, recordações familiares, imagens colhidas pelas ruas do Recife, obras de arte e relatos ouvidos nos hospitais em que o escritor vem trabalhando como médico.

Forma: Os contos funcionam como fotografias, compostas por detalhes sutis que se combinam no mesmo enquadramento, dando a impressão de formarem uma só paisagem onde tanto se registra o trivial, como são sugeridos caminhos para a imaginação.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

22 solos de Ronaldo Correia de Brito

Com os livros Faca (2003), Livro dos Homens (2005) e Galiléia (2008), o escritor Ronaldo Correia de Brito mostrou que suas histórias surgem da mesma maneira que acontece o processo de formação do solo. Elementos minerais, lixo, restos orgânicos, dejetos, poeira e múmias se acumulam ao acaso, constituindo camadas de tempo onde tudo parece se acomodar em harmonia, socadas pela pressão da vida até se confundirem com um único corpo. Em seu novo livro, Retratos Imorais, as 22 camadas em forma de conto trazem como matéria-prima o acúmulo de quatro décadas de sentimentos, recordações familiares, imagens colhidas pelas ruas do Recife, obras de arte e relatos ouvidos nos hospitais em que o escritor vem trabalhando como médico.

Com textos criados entre 1973 e 2010, o autor decanta essa poluição de referências explorando o conceito de imagem e da memória. Os contos funcionam como fotografias, compostas por detalhes sutis que se combinam no mesmo enquadramento, dando a impressão de formarem uma só paisagem onde tanto se registra o trivial, como são sugeridos caminhos para a imaginação. Como leitores, assumimos o papel de arqueólogos escavando a superfície de palavras para encontrar as nuances escondidas nas entrelinhas. A cada linha percorrida com os olhos, afundamos mais um grau no universo de personagens atormentados pela solidão, violência e sexualidade.

Nesse sítio arqueológico da memória ficcional de Ronaldo, o Recife tem lugar de destaque. O retrato que o autor faz da capital pernambucana é carregado de lembranças afetivas de quem conheceu a cidade sentindo o cheiro de mijo de suas ruas, brincando o carnaval, ouvindo os batuques de maracatu e sofrendo com a proliferação dos meninos de rua, da violência e com a mudança das calçadas de pedras portuguesas disformes por blocos de concretos retilíneos. Uma relação de amor e tristeza que aparece nos contos Duas mulheres em preto e branco, Rainha sem coroa, Homem atravessando pontes, Homem folheia álbum de retratos imorais e Catana.

Nesses dois últimos, o escritor constrói um painel verossímil do que é o Recife através da perspectiva singular de quem passa boa parte do dia dentro de hospitais públicos. Homem folheia álbum de retratos imorais se aproxima de outro conto de Ronaldo Correia de Brito – Qohélet, presente em Livro dos Homens. Narrado em primeira pessoa por um doente internado em estado grave, o texto nos dá acesso a um universo solitário de esperanças despedaçadas causada pela falta de perspectiva de quem vive em locais periféricos como o bairro de Brasília Teimosa. Uma denúncia carregada de urgência montada em cima de recordações de infância do narrador, do poder de redenção da religião e da insalubridade do ambiente hospitalar.

Já em Catana, Ronaldo revela a sua exuberância narrativa ao apresentar a capital pernambucana a partir de uma cirurgia durante o carnaval. Por meio de uma habilidosa alternância de narradores, são colocadas questões éticas que envolvem a profissão de médico, os dilemas da família contemporânea, as condições da saúde pública e a violência da cidade. Num texto desconcertante, que exerce força semelhante a do conto Feliz ano novo de Rubem Fonseca, o autor nos oferece um poderoso exemplo de como a sua preocupação em descobrir outras formas de narrar pode potencializar o conteúdo.

O domínio narrativo do escritor cearense volta a aparecer em Toyotas vermelhas e azuis. Aqui, ele mostra que é um autor diferenciado ao não optar pelo óbvio, recusando-se a indicar o caminho logo na primeira frase e partir para o ataque na vertical. Consciente do seu poder de narrador, Ronaldo parece nos convidar para um passeio. Num exercício de paciência, ele serpenteia pelas beiradas do conto, como se estivesse nos testando, para só aí dar o bote ao apresentar o personagem Francisco.

Uma lógica que não demora muito para o escritor subverter. No conto Homem-sapo, o autor de Galiléia aparece com pressa, nocauteando-nos a cada trecho intercalado por orientações típicas de um set de filmagem, o que além de dar um dinamismo à história também dialoga com o universo do personagem. Um risco assumido na intenção de se renovar como autor, mas que nem sempre alcança os resultados esperados. Em alguns momentos percebemos que o terreno de Retratos Imorais ainda está totalmente acomodado. Desse solo também brotam galhos a serem podados, frutos verdes e disformes.

Em Rainha sem coroa, por exemplo, Ronaldo se vale da mesma estratégia de intercalar dois planos narrativos, como se um deles fosse a representação e o outro a realidade. Entretanto, diferentemente de Homem-Sapo, a junção desses dois discursos não apresenta a mesma costura, o que termina tirando o foco da bela história que se passa no ambiente do maracatu.

O mesmo se pode dizer do efeito de se tentar reproduzir um discurso histérico em Duas mulheres em preto e branco, onde autor dispara uma metralhadora de referências. A rapidez com que isso acontece implica no desprendimento das citações em relação ao contexto, soando como rangidos causados por parafusos frouxos. E, se em Duas mulheres em preto e branco a sensação é de falta de contextualização, em Romeiros com sacos plásticos o problema se torna o excesso. Embora seja um conto chave para entender o processo de transição do autor, estabelecendo diálogo direto com o romance Galiléia; a narrativa derrapa quando o escritor associa as viagens em pau-de-arara às torturas do período de ditadura, fugindo do universo da personagem.

No entanto, experimentações mais radicais, como a inserção de páginas em branco no conto Mãe em fuligem de candeeiro, são sempre bem-vindas no campo artístico. Ainda mais porque representam a inquietação de Ronaldo em se renovar enquanto linguagem num momento em que qualquer escritor corre o risco de se acomodar, logo após entrar em evidência pela conquista de um prêmio importante feito o São Paulo de Literatura, vencido em 2009 por ele com Galiléia.

Lido em Ago. de 2010
Escrito em 27.08.2010
Reescrito em 31.08.2010

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o autor: Próxima. Como jornalista, tenho acompanhado a carreira de Ronaldo, o que sempre nos coloca em contato para matérias, entrevistas, mediações de mesas e projetos.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Retratos imorais

Ronaldo Correia de Brito

Alfaguara

1a. edição, 2010

182 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“O mundo cheira a talco ordinário, a bosta e mijo secando debaixo do sol quente de fevereiro, nos becos estreitos da cidade enlouquecida. Ecos desse carnaval chegam às emergências dos hospitais com os sobreviventes bêbados e feridos: de ambulância, nos camburões da polícia, a pé, se arrastando. São bacantes do deus trácio mestiçados no Recife. Na cola suarenta dos corpos resistem confetes; nas bocas, um bafo pestilento de álcool e cebola frita. Egressos de ruas e praças, encharcados de frevo e chuva fora de época, eles nem percebem os jardins circundando o hospital, as flores apagadas na noite escura. Entram no mundo de lâmpadas fluorescentes, percorrem corredores e salas onde médicos e enfermeiras se agitam possessos de Asclépio, um deus avesso à folia.” (p. 59, conto: Catana).

[/learn_more] [learn_more caption=”EPÍLOGO” state=”close”]

Teatro

O conto Duas mulheres em preto e branco foi levado aos palcos, com direção de Moacir Chaves e atuação das atrizes Paula de Renor e Sandra Possani. A trilha sonora da montagem é de Miguel Mendes e Tomás Brandão, filho de Ronaldo Correia de Brito. No festival Janeiro de Grandes Espetáculos, a peça ganhou os prêmios de cenografia pelo trabalho de Fernando Mello da Costa e sonoplastia.

Cinema

Segundo o autor, os direitos do livro foram adquiridos pelo cineasta e diretor de fotografia Walter Carvalho, responsável pelo documentário Janela da alma.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Marcus Pasche, Rascunho

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-artista-quando-jovem/)

“O leitor familiarizado com as páginas densas de Faca, O livro dos homens e Galiléia vai perceber em Retratos imorais um nítido desnível, visto que o autor dá passos vacilantes ao buscar sua voz literária entre a temática da brutalidade escancarada e a da ambigüidade humorística, entre a concisão discursiva e a descrição detalhista, entre a linearidade narrativa e a disposição fragmentária de vozes, e entre a abordagem mais restrita do Recife (cidade onde Ronaldo mora há anos) e a mais ampla do Ocidente, geográfica e culturalmente falando,

Alcino Leite Neto, Folha de S. Paulo, em 18 de setembro de 2010

(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1809201020.htm)

 “O interesse desse livro está na sensibilidade do autor para testemunhar, em toda parte e por meio de diferentes dispositivos de narração, esse mundo destroçado. E identificar aí uma experiência que não é só local, mas universal, em que “explodiram valores e visões”.”

[/learn_more] [learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

Do mesmo autor

Faca – Ronaldo Correia de Brito

Livro dos Homens – Ronaldo Correia de Brito

Galileia – Ronaldo Correia de Brito

Retratos imorais – Ronaldo Correia de Brito

Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

Entrevistas

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito ao Vacatussa (outubro de 2014)

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito sobre Retratos imorais (agosto de 2010)

Links relacionados

Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

Crítica: Feliz ano novo – Rubem Fonseca

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

3 Comentários

  1. Ronaldo Correia de Brito em

    Thiago, parabéns pelo ensaio. Eu discordo de vários pontos de vista, mas percebo sua cuidadosa leitura e a seriedade com que você constroi a crítica. Fico orgulhoso em descobrir que além de escritores, e você é um deles, começamos a formar uma geração de jovens críticos, possibilitando um diálogo fundamental para a literatura. Vou anotar e responder ponto a ponto a sua leitura. Precisamos retomar esses diálogos. Parabéns mais uma vez e muito obrigado. Ronaldo.

  2. Thiago, com dia. Aqui na Paraiba tem uma contista fabulosa chamada Marília Arnaud, não sei se você jà ouviu falar dela. Ela tem “O livro dos afetos”, A menina de cipango, Sentimento Marginal e está com um romance pronto para ser editado. Está aguardando o sinal das editoras..Tem um conto dela que faz parte daquela seleção feita , salvo engano por Luis Rufato, contos cruéis, vale a pena conhecer.

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