Revista #2 | Réquiem da boemia – Mário Lins

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Réquiem da boemia
Mário Lins

Para Luís e Aristides , toda quinta era dia de tomar uma no Bar do Tonhão. Bebiam lá havia tanto tempo que Luís tinha até morrido, mas ainda assim eles continuavam a se encontrar. Aristides estava angustiado:

–  Garçom, mais duas doses de uísque. Please.
–  Eu parei. Pede só uma.
–  Não, as duas são pra mim.
–  Pega leve, Aristides.
–  Ótimo conselho, pra alguém que morreu de cirrose.
–  Pronto, já começou.
–  Comecei o quê?
–  A implicar comigo porque eu cuido da minha saúde.
–  Que saúde? Você tá morto, cacete, não dá pra morrer de cirrose duas vezes.
–  Ah, é como dizem: mente sã, corpo são.
–  Só que morto não tem corpo. E mente você nunca teve.
–  Você tá muito negativo hoje.
–  Sério? Tirando o fato de que eu acabo de morrer, não imagino por quê.
–  Todo mundo morre, Aristides. Eu mesmo já parti faz tempo.
–  Mas não desse jeito.
–  Queda no chuveiro é normal.
–  Não quando você tá batendo uma.
–  Ah, todo mundo bate uma.
–  Mas logo na hora da morte é foda.
–  Gozou?
–  O quê?
–  Você gozou?
–  Porra, Luís, eu aqui desse jeito e você vem com gozação?
–  Isso foi um trocadilho intencional?
–  Daqui a pouco Helena me encontra morto lá no banheiro, coberto de sangue e o com o pau na mão.
–  Ela supera.
–  Que humilhação. Meu casamento vai acabar.
–  A morte acaba qualquer casamento, é assim mesmo.
–  Não tô falando disso. Eu levei umas fotos da Ciça pro banheiro.
–  A irmã dela?
–  É. Umas fotos no motel.
–  Aquela gostosona?
–  Ela mesma.
–  Tem uns peitões…
–  Do outro mundo.
–  Helena vai te matar.
–  Eu sei.

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