Revista #3 | Conto – Ana Lira

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Conto
Ana Lira

Eu matei porque me senti insegura no mundo. E se não revelei antes é porque não havia respostas, apenas aquela memória fermentando na alma, como veneno em banho maria. Lembro bem…foi uma morte tranqüila…sem dor. Coloquei o corpo no colo e pousei a mão sobre o peito, bem perto do coração. E senti as batidas minguarem. Assim…lentamente…como uma canção de ninar.

Depois, lágrima a lágrima fui expulsando aquele azedume até me sentir limpa. Purificada. Livre de qualquer resquício da insanidade que ele me implantou quando ocupou meu corpo sem permissão. E matar era a única maneira de perdoá-lo. De quebrar aquele elo de dor.

Por isso os sopros do remorso não me alisam quando lembro de seu rosto opaco, repousando na almofada verde. Talvez soubesse o que o esperava. Quem sabe até se preparasse para o momento em que eu cobraria a ressurreição e o ofereceria como um cordeiro ao Deus da minha segurança. Mesmo que a vivenciasse em uma cela, como esta onde hoje estou.

Não me flagelo. E se nunca deixei de pensar naquele dia é porque guardo comigo a recordação do rosto de minha mãe, aos prantos, sussurrando: por quê? Por que você matou o seu pai?

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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