20.01.20&¶ – Lulina

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É muito importante respeitar os prazos de validade. Tem gente que insiste em consumir o produto até o cheiro e o gosto mudarem por completo para algo detestável. E digo por completo, porque ainda tem gente que insiste em retirar apenas a parte que visivelmente se transformou em bolor e consumir o resto.

Estamos juntos há 9 anos, sendo 1 como namorados, 4 como casados e mais 4 como pais de Isabela. Toda semana nos unimos na tarefa de jogar fora os produtos vencidos da geladeira. Ela é como eu: respeita os prazos de validade. E é ansiosa como eu: verifica dia sim dia não como estão os prazos, para saber em quanto tempo teremos que consumir o que ainda não venceu.

Consigo disfarçar bem a suave angústia que sinto sempre que olho para a data impressa nos produtos. Algumas estão bem visíveis, outras vêm em letras quase indecifráveis, mal impressas ou distorcidas por algum amassadinho da embalagem. As datas que encontro com mais facilidade são as que me deixam pior. O tempo que passaria distraído realizando a minuciosa tarefa de achá-las ou decifrá-las, passo contemplando aquela grandiosa, legível e arrogante data, parada diante de mim. Parada e em movimento, porque cada segundo que nos encaramos é roubado dela por mim e de mim por ela. O ligeiro pavor que sinto nesse momento vem da lembrança de que também eu tenho um prazo de validade. Mas só conseguirei descobrir qual é a data bem no dia que ela chegar. Isso me angustia de verdade, mas só um pouco.

Quando será que ela vai me jogar fora? É a primeira coisa que penso. Será que o patê vai durar mais do que a minha vida? É a segunda coisa que penso. Como será que a minha vida vai estar quando esse leite, com prazo de validade de quatro meses – se mantido fechado e armazenado em local seco e arejado – ficar velho? Será que até lá eu terei desenvolvido intolerância a lactose?

Nosso relacionamento muda de sabor como uma fruta que amadurece bem devagar. Posso não saber a data exata da validade da nossa relação, mas, como nos amassadinhos da embalagem, consigo ver um ou outro número, talvez o ano, mas não tenho certeza. O número, no caso, é um símbolo para uma vaga percepção de que talvez, só talvez mesmo, não tenho certeza, ela esteja experimentando um produto novo no mercado. Esse produto pode ser o novo amigo do novo curso que depois sempre sai para tomar um café com ela e às vezes até sorvete para discutir algum assunto que não ficou tão claro na aula.

Jotapê é o nome dele. Não sou um cara ciumento, mas sou medroso. De tanto contemplar prazos de validade, tenho a plena consciência – talvez não tão plena, senão ficaria um pouco desesperado – de que tudo na vida acaba. Penso que 9 ou 10 anos é um excelente prazo para uma relação, eu já deveria estar satisfeito com isso e não deveria me comportar como aqueles que não respeitam prazos. Insistir em consumir algo que já não lhe faz bem é, também no caso dos alimentos emocionais, pedir para ter asco ou muitos problemas de saúde. Será que para ela eu já apresento algum bolor?

Essa marca de café me lembra dos nossos 20 anos de casados. Essa massa fresca de validade curtíssima me lembra das nossas curtíssimas brigas nesses 30 anos de casados. Esse ketchup já no fim me lembra que os netos vêm no fim de semana e que precisamos comprar mais ketchup.  Dividimos o último iogurte da bandeja, que venceria amanhã. Todos os Jotapês tinham um prazo mais curto que o meu. É muito importante respeitar os prazos de validade, também no que se refere a saber esperar – e aproveitar – até que ele realmente chegue.

 

Derlon Almeida nasceu no Recife-PE, em 1985. A partir de pesquisas sobre a xilogravura popular e a street art, criou um novo projeto de linguagem contemporânea incorporando elementos do grafite e da xilogravura. Com poucas e contrastantes cores, apropriação da estética da xilogravura, criou uma simbiose da intervenção urbana com um dos principais meios de comunicação impressa da cultura popular.

Lulina nasceu no Recife em 1979 e vive em São Paulo desde 2003. É formada em Publicidade e Propaganda pela UFPE e trabalha como redatora, compositora e cantora, com dois discos lançados pela gravadora Yb. Em 2008, publicou de forma independente o artesanal Livro das Lamúrias e em 2010 participou da Coletânea Antônio Maria de Crônicas, lançada no Recife.

 

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