Das invasões trôpegas, dos exércitos mancos e de eu como par de botinas – Marcelo Coutinho

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Eu é clareira para a madrugada. Eu é palco onde, ao som de clarins, adentra decidida e claudicante a silhueta escura de uma outra tribo. Eu, aquietado, apenas ouve o tremor do solo sob as botinas deste exército manco. Encolhido em seu canto, de olhos bem fechados, eu assiste a solenidade de hasteamento desta outra bandeira. Eu vê-se terra ocupada, hospedeiro aturdido. Afinal, eu não sabia: nunca ocupara por inteiro sua própria terra. Eu surpreende-se, assusta-se ou maravilha-se com a face estrangeira deste desconhecido que desde sempre dividiu consigo a mesma morada. A voz que mastiga esse sotaque sempre forasteiro, não vem “do alto”, tampouco “de baixo”. Esta outra topografia sempre esteve ali, sempre arrastou o pó do mesmo chão. Nele sempre ergueu suas cidades e para elas projetou o mesmo devir arruinado.

Por que Eu é um outro. Aquele que se deixa invadir pela língua desse Outro servirá de pradaria para as patas desta cavalaria. O solo que nos compõe já foi revolvido e não é mais o mesmo. Poder-se-ia alertar os desavisados: não ofereça a Isso nem um copo d água. Pois de bom grado Isso aceitará. E após o aceite tua mesa não será mais tua e nela não mais serão servidos alimentos para ti. Tua cama não acomodará mais teu descanso.

Teus filhos não terão os mesmos olhos a te mirar. Teus próprios olhos não mais reconhecerão no espelho a mesma velha face. No coração de tudo passará a habitar este estranho galope.

A cada naco de carne arrancada a dentadas deste íntimo desconhecido, os efeitos da ingestão permanecem vibrando, invadindo a vida desperta. A cada nova imagem abatida e arrastada desta outra pradaria, os efeitos da experiência de caça passam a vazar e invadir os olhos em pleno dia. Foi assim com os surrealistas. E é assim que Isso costuma se deixar entrever para mim. Muitas vezes, os restos de uma atmosfera na qual estive envolvido durante o sono se estendem e permanecem vibrando ao acordar. Meu corpo desperto arrasta atrás de si o peso dos membros adormecidos de um corpo que não é mais meu. Nas ruas, ouço o ranger das coisas em movimento. Um talher cai no chão e faz ressoar um sino. Por um ínfimo instante, meus olhos se surpreendem ao me verem à distância, multiplicado, cruzando a pé uma ponte, debruçado em uma janela, entrando em um restaurante. Ou uma mesma frase ressoa insistentemente com a urgência de um atropelamento. Abro meu caderno e como uma forma de assepsia, escrevo: “tive de pedir fezes emprestadas, tive de pedir fezes emprestadas, tive de…”

Neilton Carvalho nasceu no Recife-PE em 1971. É músico, artista plástico, designer gráfico, eletrônico de amplificadores e pedais de efeitos para instrumentos musicais. Formado como desenhista de artes gráficas, é o responsável pelas capas dos vinis e CDs da Devotos desde 1997, banda em que é guitarrista. Também ilustrou capas de discos, sites e DVDs de bandas como Cordel do Fogo Encantado, Orquestra Popular da Bomba do Hemetério e Cascabulho.

Marcelo Coutinho nasceu em Campina Grande-PB, em 1968, e, desde 1986, mora em Recife. É artista visual e professor do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE e da Pós-Graduação em Artes Visuais-UFPE. É mestre em Comunicação e doutor em Poéticas Visuais. É autor do romance Antão, O Insone publicado em 2008 pelo Documento Areal e Editora Zouk e de Isso: Entre o Acometimento e o Relato, a ser publicado também pelo Documento Areal e editora Confraria do Vento.

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Sobre o autor

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