Revista Vacatussa #10 | Lunus fuscalus – Helder Herik

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Cinco, quatro, três, dois, um!

Foguete foi pelo subimento.

 

Velho:

 

“Será o lá o pensado cá?”

Velho cismava

de o caminhão de combustível.

Dele ser o lá subindo,

que era o pensado cá,

o desconfiado acá.

Velho cismava

que alguém, a maluquência,

o havia emborcado,

amavadeuzado de o tocar fogo,

ao que ele, pelo não ser bicho de o se correr

ou de o se bater asas,

pegou de ir subindo,

que era o subindo de coisa tocada fogo,

coisa de explodição.

“É até parecido a buscapé,

um jamais fraquejado.

Foguete deixava o rastro no céu.

Vez em quando o velho sentava,

ficava da admiração do rastro.

“Parece um pum,

fino pum

afilepado pum”.

 

Menino e o Velho:

 

Menino correu no ferro velho:

“Um motor, um radiador e fuselagens”.

“Que é lá isso, fuselagens?”

Perguntou o Velho.

“Carcaça de avião. Tem?”

“Aqui só mesmo se tem é carcaça

de fusca, belina, opala.”

“Já serve”.

 

Pelo a noite, já no deitado,

Velho entronchava a boca.

Jeito dele de pensar

era entronchando a boca,

que era o mesmo que torcer os miolos.

“Um motor, um radiador e fuselagens,

saquei a do guri.”

Pelo de manhã

o velho procurou o menino:

“Posso ir?

“Ir para o onde?”

“Para os ares”

“Para o fazer o quê?”

“Para o nada afazeres,

só mesmo o ver os ares estrelares”

Ficaram os dois, martelando e soldando,

pelo dia e pela noite.

 

Alguém observando:

 

Velho amalucado.

Juízo que tiver

por certo é anuviado.

Que é esse o meu ver:

da voz do Velho se falar

com Menino de nenhum lugar.

Menino de corpo nenhum,

ou que somente aconteça

no dentro de sua cabeça.

É o velho somente consigo:

dele pra ele

sem que se haja amigo.

 

Menino:

 

Cinco, quatro, três, dois, um!

Foguete foi pelo subimento,

já ele bem pequeno,

pra o menormente que mosca: mosquito.

Só mesmo o veria

quem untasse o colírico telescópico.

 

Menino soprou o bafo na janela, esfregou:

Cutú,cutú,cutú.

Que lá viu ele foram pessoas se formigando.

A cidade se formigandozinha.

A cidade se virava a um farelozinho num gramado.

“Se eu mijasse chuviscaria.”

 

Ao pouco tempo sumia a gravidade.

Menino ficava de câmera lenta, se boiando.

Menino soltava as chimbres,

ao que elas orbitavam.

“Cada uma que se seja um planeta”

 

Velho:

 

Ao pouco tempo sumia a gravidade.

Velho ficava de câmera lenta, se boiando.

Velho soltava bolas de bilhar

ao que se orbitavam.

A de mais vermelhura era o sol.

A de mais brancura era a luação.

“Cada uma que ilumine os planetas,

um pelo o dia e outro pelo a noite”

 

Pelo vidro do fusca

Velho olhou a lua.

Era um mundeu sem nem pé de planta,

sem nem pé d’água.

Era lá só mesmo o aquele cinza

da terra que foi incinerada.

Era só lá a terra de fuligens e plânctons sedimentando.

 

Já era o foguete pousado:

Velho ficava de enrolar papel alumínio pelo o corpo,

que era proteção do sereno ao lá de fora.

Pelo daí então o velho abriu o capô de fusca

ao que quem saiu foi o Menino

pelo nunca haver havido o Velho.

Keops Ferraz é ilustrador, designer gráfico e diretor de arte pernambucano nascido em Recife em 1971. Formado pela Academy of Art University – CA. Trabalhou em Recife, São Francisco e São Paulo em diversas empresas de comunicação: agências de publicidades, escritórios de design, e no portal Universo Online. Hoje comanda a Pleura Invenções Gráficas e as Camisetas da Pleura. Site: www.keops.ws

Helder Herik nasceu em Garanhuns-PE. Tem quatro livros publicados. Acorda, todos os dias, às quatro horas da manhã e vai escrever. Gosta de esticar formigas até virarem dobermanns e domesticar aranhas para lhe palitar os dentes. É dessas pessoas que inventam problemas maiores, para os reais ficarem menores. Por fim: sonha escrever para aqueles que ainda estão na infância, fase da vida da qual nunca saiu.

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