A morte é bela – Julieta Jacob

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Eu queria muito morrer. Desejava isso todos os dias ao dormir, embora não me achasse merecedora de morrer durante o sono – a melhor das mortes, na minha opinião. Se tivesse direito a um pedido antes de morrer, aliás, seria exatamente esse: morrer durante o sono. Uma morte indolor e higiênica. Sem sangue, sem sofrimento, sem esforço. E o principal: sem culpa.

É que o suicídio era demais pra mim. O ato mais corajoso que alcançava era o de desejar a morte com muita força, já que eu era fraca demais para interromper a minha própria vida. No máximo, me deixaria morrer passivamente, sem reagir. Sem mexer uma pestana, sem mover um músculo. Sem culpa.

Minha vida já tinha culpa demais e não suportaria o risco de ser julgada – e condenada – mesmo depois de morta. Afinal, minha vontade de morrer justificava-se exatamente pela vontade de me libertar da culpa que carregava.

E a culpa era dos meus pais.

Eles que me disseram que sexo era feio, sujo e doloroso. Que na primeira vez sangrava muito. Um horror. Acho até que vem daí a minha obsessão por uma morte bela, limpa e confortável.

Mas o pior que eles me fizeram foi dizer que fazer sexo – incluindo a masturbação – antes do casamento era um pecado horrendo e irreversível, inegociável. Essa ameaça era tão temida por mim, que, só de imaginar o castigo correspondente a tal desobediência, já sofria por me achar merecedora da punição. Doía no corpo e na mente.

Difícil era controlar minha imaginação. Aos 19 anos, eu era uma insaciável explosão hormonal. Se imaginava o castigo, era porque fantasiava com o pecado em igual ou maior medida. E tudo isso, embora me trouxesse algum prazer, me trazia também muita culpa. Essa maldita. Insalubre. Insuportável. Incompatível com a vida. Viver com culpa? Ora, faça-me o favor. Não nasci pra isso.

Para livrar-me da culpa, portanto, era necessário que me livrasse da vida, já que, no meu corpo, ambas viviam em (con)fusão. Na morte eu seria livre. Essa era a minha escolha, a minha solução.

Naquele sábado acordei feliz. Não por estar viva, mas porque a vida era o meu passaporte para a morte. Eu estava certa de que encontraria a liberdade.

A cidade estava agitada. Havia motins por toda parte. Grupos terroristas saqueavam lojas. A polícia não conseguia manter a ordem. Pedestres eram espancados e presos à revelia. Na avenida principal, os bombeiros tentavam controlar um incêndio devastador.

Ao tomar conhecimento do caos pelo noticiário, fui tomada por uma onda de alegria que só as recém-casadas sentem na noite de núpcias. Eu trabalhava no maior shopping da cidade, ali bem no meio do agito. Meu plano de morte estava traçado.

Asfixia por gás lacrimogêneo seria perfeito. Bala perdida, podia ser, desde que o projétil – apenas um e fatal – não atingisse o meu rosto. Morrer pisoteada ou atropelada, jamais! Carbonizada? Por que tamanho castigo? Eu fazia questão da integridade do meu corpo, sobretudo da aparência facial. Queria uma morte sem hematomas nem mutilações. Sem sofrimento nem culpa. Uma morte tranquila, numa boa e – por que não? – com uma certa beleza.

Enquanto imaginava as possibilidades, me arrumei vagarosamente. Cuidei de cada detalhe, como se estivesse cumprindo um ritual. Feito uma noiva que se prepara para entrar na igreja.

Primeiro, raspei as pernas, virilha e axilas. Decidi então passar hidratante de lavanda no corpo para acalmar um pouco minha ansiedade. Mas, ao me tocar e me insinuar diante do espelho, fiquei mais excitada. O desejo represado no meu corpo encontrou uma brecha de permissividade e inundou a brecha por entre as minhas pernas. Tarde demais para me arrepender ou para temer. Sabia que aquele orgasmo seria o último. Eu seria absolvida.

Um pouco trêmula, vesti minha melhor lingerie – um conjunto de calcinha e sutiã com estampa de oncinha comprado dois anos atrás, mas que ainda estava na embalagem lacrada. O que de mais sexy eu pude ter nesta vida. Em seguida, uma meia-calça cinza-chumbo, um sapato de salto e pronto. Chegou a hora da maquiagem. Debrucei-me na penteadeira, pintei os olhos com uma sombra escura, combinando com a meia-calça, colori as bochechas com blush rosado para dar um ar de saúde, e finalizei com um batom vermelho-clichê, mas que para mim era inédito e, por isso mesmo, era um vermelho-fetiche, o mesmo que escolhi para as unhas.

Era outono e soprava um vento frio. Coloquei um casaco e saí de casa com o corpo e o coração aquecidos. Eu estava bonita como não costumava ser e as pessoas na rua não disfarçavam olhares na minha direção. Sem tempo para alimentar vaidades nem agradecer elogios, eu só fantasiava com o momento em que me encontrassem morta na rua e me levassem para a necrópsia. A tranquilidade de saber que na hora do exame – quando minha intimidade seria inaugurada por um estranho – meu corpo estaria bem apresentado numa lingerie sensual, com virilha, pernas e axilas depiladas e com a pele levemente perfumada de lavanda, foi tão gratificante, que deixei escapar um sorriso.

Sorri com o rosto inteiro e desejei que essa expressão de prazer ficasse visível e imortalizada na minha rigidez cadavérica como uma fotografia que resume o sentimento de uma vida inteira.

Se tivesse direito a um pedido antes de morrer, pediria que acreditassem que eu fui feliz.

Gio Simões Glasner nasceu em Recife-PE, em 1985. É formada em Administração de Empresas e trabalhou cerca de 10 anos como estilista. Em 2012, quando decidiu morar  em Berlim, descobriu sua paixão pelas artes plásticas e sua afinidade com o pastel seco e o papel.

Julieta Jacob nasceu em Recife-PE, em 1981. É jornalista, educadora sexual e pesquisadora em sexualidade pela UFPE. Trabalhou em diversas emissoras de TV (TV Globo, TV Cultura, TV Brasília) e atualmente faz parte da equipe da TV Pernambuco. Fundou o blog Erosdita e tem contos publicados no site e Revista Vacatussa.

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