O mico – Ronaldo Correia de Brito

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– E se eu te der uma tapa?

– Fica preso em minha cera.

– E se chutar tua barriga?

– Chute!

– Chuto?

– Você que sabe. Minha cera gruda e ninguém escapa de mim.

– Sei.

– Sabe mesmo?

– Imagino. Nunca se tem certeza, quando você empunha o revólver, apontando a própria cabeça. Ameaça cometer suicídio e somos nós que ficamos em cana.

– Represento a lei.

– De que lado?

– Ué! À direita, claro.

– Estou fora! Esquerda, direita, volver.

– Nem tente fugir! Não reparou? A arma aponta em sua direção. Se me aborreço, disparo.

– Já tinha sacado seu disfarce.

– Direita, esquerda, pum!

– Cansei de macaquinhos chineses. Olhos fechados para não ver e ouvidos que jamais escutam. E a boca? Não vai dizer nada?

– Não atirei, foi só um pum.

– Macacos!

– Você é quem fala. Eu só escuto e prendo.

– Gruda, seria mais correto dizer.

– Grudo, se prefere.

– Vou remover os prendedores de suas orelhas. Prendedores, escutou bem? Tudo o que se refere a você prende, embarga, contém. Não basta ter sido suspenso no varal, como peça de roupa lavada? E se eu pescá-lo, com um anzol.

– São necessários dois anzóis. Minha carne não possui a leveza de um peixe, sou duro de roer. Martelo o cérebro, mas ele nunca amolece.

– Sofri o terror dessa rigidez. Deixe eu passar.

– Uhn! Não abro nem para o trem. Sou uma porta fechada.

– Eu espero, tenho paciência.

– Por que não senta no chão?

– Acho que vou fazer isso.

– Não assobie, exijo.

– Ah!

– Nem cante.

– Ah!

– De qualquer forma, não escuto.

– Então, vou contar uma história.

– Tanto faz.

– Uma história curta.

– Ahn! Comecei a dormir.

– Dois palhaços olham uma porta fechada. “Ela abre?”, pergunta o mais baixo. “Tente abrir”, estimula o magro, de calças listradas e chapéu. O pequeno bate palmas, pergunta se tem alguém dentro da casa. Ninguém responde. Ele recua, planeja carreira, posiciona o ombro esquerdo como se fosse um aríete. Investe sobre a porta, mas esbarra sem tocá-la. “Eu consigo”, diz. “Consegue”, garante o magro, sem parar de rir. O pequeno avalia as dimensões do obstáculo. O de chapéu não se move. “Minha dança abre a porta”, garante o minúsculo. “Abre!”, confirma sem convicção o magro. Quando o mais baixo ensaia movimentos de bailarino, a sombra dele se agiganta. O de chapéu recua.

Ricardo Cavani Rosas nasceu no Recife-PE, em 1952. É desenhista, escultor e ilustrador. Colabora com as revistas Continente, Le Monde Diplomatique, Caros Amigos e os jornais Jornal do Commercio, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. 

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro-CE, em 1951, e hoje mora no Recife. É autor dos livros de contos Faca (2003), Livro dos Homens (2005) e Retratos imorais (2010), além do coletânea Crônicas para ler na escola (2011) e dos romance Estive lá fora (2012) e Galileia (2008), com o qual conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura.

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Sobre o autor

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