O pacto – Joana Rozowykwiat

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Na penumbra do quarto, a luz fraca e vacilante do pequeno abajur deixa ver um edredom grosso, com centenas de aviõezinhos estampados, e parte do rosto de Nico. Seus olhos saltam esbugalhados, interessados naquilo que miram. Ele presta atenção ao pai, sentado na pontinha da cama, a contar mais uma de suas mirabolantes histórias. A janela está aberta, deixando passar um vento agradável, que balança suavemente a cortina.

O pai gosta de criar climas, gesticula, muda a voz e o olhar a cada reviravolta no enredo que transmite. Naquela noite, mistura terror e magia, verdade, fábula e catástrofe. Conta a história de um tempo antigo, quando surgiram as primeiras cidades. O homem tinha aprendido a plantar seu próprio alimento, não precisava mais vagar em busca de comida, brigando com outros homens e enfrentando os perigos da mata. Decidiu morar em um só lugar e, aos poucos, foi construindo paredes e muros. Começava a criar então seu local de abrigo, descanso e proteção.

Nico ouve tudo encantado. Desenha dentro da cabeça os monstros da floresta e do mau tempo, as disputas entre tribos, a construção de uma grande vila murada. Vê torres e pontes levadiças, pessoas agora felizes e tranquilas.

O homem ao seu lado então começa a falar pausadamente, franze a testa e incorpora um ar soturno. Lembra que, para construir suas cidades, os homens afastaram-se da natureza. Roubaram-lhe os recursos de que precisavam. A cada machadada num tronco de árvore, os seres encantados das matas soltavam gritos de dor e tristeza. E, à medida que os homens ampliavam seus domínios, mais precisavam das águas, das madeiras, dos minerais, do solo. As criaturas da floresta iam pouco a pouco definhando. Temiam perder seus poderes, temiam perder seu lar, mas temiam, sobretudo, a ira da deusa-terra.

E ela se apresentou em uma noite sem lua, como aquela em que Nico viajava pelos contos do pai. Veio na forma de ventos raivosos, que arranharam sem piedade pedras, barros, madeiras e tudo o mais que encontravam pela frente. Carregou telhados, carroças, plantações. Deixou destrambelhadas vilas e aldeias. Largou sem nada as gentes que tinham aprendido a acumular coisas e coisas.

Atônito, o líder do povoado rogou aos céus que aquela ventania parasse e lhes fossem concedidas novas graças, para que pudessem reconstruir seus pertences, para mais uma vez serem felizes e tranquilos, abrigados e protegidos.

Das brenhas e bosques então ela surgiu, propondo aos cidadãos um acordo. Para cada pedacinho de sua mata que fosse violentado, cobraria como pagamento o coração de um homem. O líder tentou em vão negociar. Mas o que teria ele a oferecer às forças da natureza? Desolado, foi à praça e comunicou aos irmãos o acerto.

Naquela noite, ninguém dormiu. Um conselho se reuniu para decidir quem seria posto em sacrifício pelo bem dos companheiros. Para ter conforto de volta, teriam que abrir mão de alguém. Entre choros, maquinações, acusações e defesas desesperadas, a aldeia decidiu que um ancião seria ofertado à deusa da mata, para que todos pudessem começar a ter suas coisas de volta.

O menino nem pisca mais. Viaja através das palavras lançadas pelos lábios do pai. O homem então acaricia sua testa e pergunta se ele quer saber o fim da história. Nico sente medo, raiva e pena. Mas lembra que, no fim, as histórias sempre terminam bem. Sabe que ali, no seu quarto, cercado por muros e pela família, está abrigado, protegido. Abre um sorriso e pede que o pai continue.

No dia seguinte, os cidadãos foram ao bosque recolher o material que precisavam para reconstruir a vila e trabalharam dia após dia para erguer novas paredes. Até que uma criatura da floresta surgiu para cobrar o preço acertado. Sem conseguir esconder a vergonha do semblante, o líder ofereceu o ancião. Ali mesmo na praça, o velho teve o coração separado do peito e exposto a toda a comunidade. Com seu passo lento e ruidoso, o gigante desapareceu na floresta carregando não só um órgão ensanguentado, mas também a alma de uma cidade corrompida.

Curioso e amedrontado, Nico fita os olhos do seu contador de histórias. “E o que acontece com as pessoas que ficam sem coração, pai?”. Antes de ouvir a resposta, o menininho sente que algo está errado e agarra com força a ponta do edredom. O vento deixou de correr e a luz do abajur parece estar indo embora. Por entre uma brecha na cortina, vê com seus olhinhos apertados um gigante se aproximar. Aterrorizado, escuta a voz agora trêmula e soluçante do pai se distanciar, enquanto a mão da criatura adentra pela janela: “E não somos todos sem coração, meu filho?”

 

Christiano Mascaro nasceu no Recife em 1974. Designer e ilustrador profissional há mais de dez anos, colaborou para as principais revistas do país além de editar a revista de quadrinhos autorais Ragu. Participou de coletâneas nacionais e internacionais, ganhou prêmios importantes tanto como designer ou ilustrador. É editor de artes no Diario de Pernambuco.

Joana Rozowykwiat nasceu no Recife, em 1981, e hoje mora em São Paulo. É jornalista, especialista em Jornalismo Político e autora do livro Subversivos – 50 anos após o golpe, recém-lançado pela CEPE. Tem contos publicados na coletânea Recife conta o Natal I (2007) e no Suplemento Cultural Pernambuco. Integra o Vacatussa.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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