O violeiro do apocalipse – Helder Santos

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Lá vai o arrombado! O meu filho. O arrombado. Arrastando sua viola cheia de fitinha. Arrastando desgraça por onde ele toca aquele troço.

A primeira vez foi na inauguração da estátua do Major Otacílio, avô do prefeito Isaías. Coisa da minha mulher. Aquela cobra de morder calcanhar. O menino veio com essa de ser artista. Ela apoiou, só pra poder se amostrar às custas do talento dele. Pense! O danado quando toca aquele pedaço de pau sai um som que parece o da harpa de um anjo. Mas o estrupício é envergonhado. A jararaca disse que dava um jeito. Convidou o prefeito pra um café e botou o menino pra tocar do quarto. O homem quando ouviu caiu pra trás com tanta beleza. Saiu de lá convencido pela surucucu que ia ser perfeito o menino tocar na tal inauguração. Ele ia lançar um artista que com certeza seria um sucesso. Devaneio!

Quando o menino tocou de cima do palanque, os olhinhos fechadinhos de vergonha, saiu uma música primorosa. Ao mesmo tempo começou uma tempestade, um vendaval, era raio, trovão e tome! Um relâmpago caiu bem em cima da estátua. Craque! Torou a bendita no meio. Tome! Nesse dia teve início uma falação na cidade inteira que o menino dava azar.

Mas nem todo mundo acreditou. Vado de Dina convidou o menino pra tocar no seu casamento. Ladijane, a noiva, disse não, que o menino dava azar. Ele retrucou que era superstição do povo, não ia acontecer nada. Então ela avisou, se acontecesse qualquer coisinha, assim, ele ia ver. Dito e feito.

Enquanto ela entrava toda radiante na igreja, o menino tocava “Ave Maria” do jeito mais lindo como nunca se ouviu. De cima da praça, lá da ladeira do juá, o caminhão de Doda descontrolou-se, o freio falhou. Desceu de ré atravessando a praça e entrou porta da igreja adentro. Carregado de estrume, no que finalmente freou, foi merda voando como nunca se viu. Claro que a culpa foi posta no menino, e claro que Vado de Dina não casou com Ladijane. Vixe!

Hoje foi a última tentativa, a urutu mandou ele tocar na praça pro povo da feira. Disse que não se abalasse com o que o diziam, era inveja do seu talento. Lá foi ele de novo! De cima de uma caixa velha, de olhinho fechadinho tocou uma música belíssima. No que ele tocou todos os bichos da feira começaram a enlouquecer, os burros, os cavalos, os bois, as galinhas, os cachorros. A bicharada ficou em polvorosa e disparou pela feira derrubando tudo. Voava ovo, tomate e pena pra todo lado. Parecia um terremoto. Quando o menino abriu os olhos não tinha viva alma, só as sobras do desastre. Bichinho ficou xoxo, soltou a viola que enfeitou toda e tá aí. Todo arrombado.

Só eu sei que não é azar. É maldição. Praga do cigano que ensinou ele a tocar. Porque o menino fez a desfeita de meter o coiso dele na coisinha da filha do outro. A cascavel não estava em casa quando o cigano apareceu se babando de raiva. Pediu pra honrar sua filha, o menino tinha que casar com ela. Aí não, violão! Botei-lhe o rifle na fuça, mandei chispar. O tinhoso levantou a mão cheia de unhas pretas, arreganhou os olhos e os dentes verdes, e gritou na língua dele – Rafinague trusque tori trasquetovsqui! Entendi patavina! Sumiu!

Hoje entendo. A praga era que toda vez que o menino tocasse o violão em público ia acontecer uma desgraça. Nunca ele ia poder ser artista.

Já pensasse? Que coisa boa. Que bênção. Agora não tem desculpa, ele vai trabalhar comigo na fazenda, onde é o lugar dele, e pronto.

Porque desgraça de verdade é ter um filho artista.

 

João Lin é artista visual com atuação na produção de quadrinhos, cartum, ilustração, xilogravura, serigrafia, videoarte e intervenção urbana. Como artista gráfico recebeu vários prêmios em salões nacionais e internacionais de humor e quadrinhos, edita a revista de quadrinhos autorias Ragu, ilustra para a literatura infantil e publicações jornalísticas diversas. É coordenador assistente do projeto Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia – Recife.

Helder Santos nasceu no Recife (PE) mas passou a maior parte de sua infância em Madison (Wisconsin), Estados Unidos. Formou-se em Design Gráfico pela UFPE, trabalhou em Luanda (Angola), fez mestrado em Barcelona (Espanha) e trabalha atualmente com direção de arte. Artista plástico, especializou-se em gravura em metal e xilogravuras. Escreveu Raiar, lançado editora Edith, seu primeiro romance em 2013. O livro também é ilustrado por ele.

 

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Sobre o autor

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