A palavra ilustrar é como um boy de gêmeos – Adelaide Ivánova

0

A palavra ilustrar é como um boy de gêmeos: tem um quê de luminoso e ao mesmo tempo de escorregadio. Sua etimologia é illustratio, uma palavra linda, e no dicionário significa “conjunto pessoal de conhecimentos”); ao passo que no cotidiano o termo é usado para nomear a imagem que serve de muleta para alguma outra coisa – um texto, um poema, uma cartilha, uma placa de “sem saída”. Significado e aplicação são completamente opostos. Como num boy de gêmeos, a promessa do que algo poderia ser não corresponde à prática.

Boris Schnaiderman, o tradutor de Dostoiévski para o português brasileiro, escreveu, em um ensaio sobre Oswaldo Goeldi, que ilustrar um texto é como traduzi-lo – o que ele chamou de “tradução intersemiótica”. Goeldi, que fez os desenhos para diversos livros de Dostoiévski, Edgar Allan Poe e Machado de Assis, era, como Dostoiévski, escorpiano (ninguém perguntou mas eu queria dizer).

Existem textos que nos despertam imagens e existem imagens que nos fazem pensar em textos. Quando vi esse trabalho de Daniel, a primeira coisa que me veio à mente foi Roberto Bolaño e Kung Fu Panda. Numa certa cena, a Tartaruga (que interpreta apenas Deus) explica ao Panda que tudo está interligado.

Como tinha bebido um montão de vinho, achei a frase mais genial do que na verdade é (ou talvez tenha achado genial o fato de que ela tenha sido dita por uma tartaruga? Não sei), e na mesma noite tive um sonho em que me era revelada a equação matemática que explica o universo. Era uma equação aplicável a todas as coisas, vivas e mortas, que mostrava sua interligação, o aspecto uno da existência. Foi um sonho pesado, porque tive uma sensação muito física de clareza, quase um Nirvana, e a certeza que esse estado de consciência não se pode sentir por muito tempo; é uma aproximação do real que não acho estarmos habilitados (ou autorizados?).

Acordei e fui doida reler a parte de Amalfitano em 2666, que faz perguntas semelhantes. O personagem nos dá a impressão de que depois de atingir certo nível de conhecimento, a única saída é enlouquecer. Se o sujeito realmente para para pensar o que une uma antena parabólica a uma mulher deitada em posição fetal a um homem segurando um microfone, pode chegar a conclusões mais duras do que a vida em si (que já não é mole).

É o próprio Bolaño quem sugere a solução para esse problema. “(…) deixar o livro de geometria pendurado às intempéries, para ver se aprende alguma coisa da vida”. O exercício, que originalmente é proposto por Duchamp, é para mim como uma performance que tenta buscar esse elo perdido entre todas as coisas, unindo o divino (“traduzido” na imagem de um livro) e o mundano, que é o ato de pendurar em si. E deixar a vida entrar (as intempéries, talvez?).

Se Schnaiderman chama de tradução intersemiótica o ato de desenhar para um texto, como chamar o ato de escrever para ilustrar uma ilustração? É isso que estou tentando fazer há dias com esse desenho de Daniel. Tem sido muito difícil – olho para o desenho e só consigo pensar em mim (e no Panda). Tem quem diga que só assim se olha (e se vê) arte; eu não sei. Ontem vi um livro de Rafal Milach (dê Google, é maravilhoso) em que um dos seus fotografados diz: “What I like best about Russia is myself”. Ao ler isso entendi que, ao contrário do boy russo (que devia ser leonino), o melhor do desenho Daniel não sou eu, mas gosto muito do que o desenho fez comigo.

Daniel Edmundson é designer e diretor. Sócio da mooz Branding & Design em Recife e da Bateu Castelo Filmes, em 2013 fundou a Engenhoca, uma marca de softwares educativos responsáveis. Recebeu o prêmio de melhor animação no Pernambuco Design 2004 com a abertura do programa Sopa Diário. Dirigiu o documentário No Ar Coquetel Molotov 2011 e também o curta Faraway, que entrou na seleção oficial do La Jolla Fashion Film Festival 2014 (California, USA).

Adelaide Ivánova nasceu no Recife em 1982 e desde 2011 mora em Colônia, na Alemanha. Estudou fotografia na Ostkreuz, em Berlim, tendo sido orientanda de Ute Mahler. Tem 3 livros publicados, faz parte do acervo do Museu de Belas Artes da Bretanha e tem exposições individuais e coletivas em diversos países, a mais recente sendo no Dieselkraftwerk Museum, em Cottbus, na Alemanha.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!