Bigode – Daniel Vas

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Quando o cachorro lançado da janela do oitavo andar se espatifou no chão, fez-se um barulho tão gelatinoso que, assustado, o homem do segundo andar acabou raspando o bigode.

Seu reflexo encarava indignado, mutilado, inquirindo sobre o que deveria fazer. Não dava para esconder, isso estava na cara.

Estava, agora está na pia.

Não é hora pra piadas, sabia?

Procurou um lápis de olho, não achou. Estranho, ali devia ter maquiagem. Ela estava maquiada.

É claro que não tem, onde cê pensa que ela tava?

Cala boca, estou pensando. Me ajuda aqui, vai.

O reflexo ergueu o rosto para ter um ângulo melhor. Como sair do banheiro naquele estado? Um bigode falho, um buraco na alma. Ficou de perfil e aproveitou a vaga ilusão de não ter se machucado. Mas o estrago continuava lá.

O que eu faço?

Cê pergunta pra mim? Cê que fez a cagada.

Olhou pela janela e viu aquele resto de bicho, explodido no asfalto. De todos os prédios, por que desse? Que jogue o cachorro, foda-se, mas precisava ser justamente ali? Agora? Enquanto aparava o bigode?

Ele ouviu um “meu Jesus!” vindo do quarto, ela devia ter acordado. Estremeceu se lembrando do passado. Foi o bigode que a seduziu, anos atrás.

Isso e o álcool.

Ele tinha 25 anos, um desemprego e a loja da família como uma perspectiva inglória. Assim como o pai, nasceu sob a sombra de uma estrela errada, sempre tomando péssimas decisões e piorando situações que não podiam ficar mais enrugadas. Medíocre da escola até agora, o homem não recebia um elogio, ofensa ou nada que o tirasse da condição de paisagem. Bonito até, mas não passava disso. E, como pedia a época, um bigode de vassoura velha que tinha mais personalidade que ele. Foi justamente isso que ela viu nele, no restaurante.

Foi no posto de gasolina, lembra?

Não enche. Você nem devia falar.

Tão rápido quanto má notícia, ele estava em cima e ela fingindo. Ela era uma mulher do interior que, junto com a virgindade, abandonou um avô moribundo, um noivo num altar e uma torneira aberta. Ela sabia rimar e ele gostava do cabelo dela. Ele era uma boa fachada. Casaram.

Por três dúzias de menstruações ficaram juntos. Enquanto arrecadava chifres, ele galopava de um bico a outro, ganhando o suficiente para manter o bigode. Era um prêmio de consolação, por falta de coisa melhor, e ele ficou tão obcecado com aquele buço peludo que tinha mais sonhos eróticos com ele do que com a mulher.

Depois cê ficava putinho quando te chamavam de pervertido.

Não tem nada a ver. Me pegaram pra Cristo, no colégio.

E eles tavam errados?

Você não devia só me copiar?

O bigode era o símbolo da masculinidade, virilidade, a fronteira que separava os meninos dos homens, o poder da submissão. Todos os grandes homens tinham bigodes. Einstein, Chaplin, Dali, Fernando Pessoa.

Hitler tinha bigode.

E agora a gloria ia ralo abaixo.
Num súbito de integridade, decidiu que encararia aquilo de um modo adulto, sem se desesperar. Nem tudo estava perdido, ainda havia a outra metade.

Olhou seu reflexo, que zombava dele, e sem pensar arrancou a parte falhada. Sentiu frio. Estava meio ridículo, meio tosco, meio bigode e o homem se questionava o que iriam pensar dele. Ele mesmo não sabia, sem aquele pedaço sobrava pouco a dizer.

Cê tá uma graça.

Pensou em tirar o outro lado, mas aí ela não teria mais porque manter as aparências e ele mesmo não teria onde se esconder.

Ignorando o reflexo, saiu do banheiro.

E que se foda.

Daniel Vas nasceu em São Paulo-SP, em 1994. É estudante de Psicologia na USP e usa o que aprende em sala de aula como material para criar alguns de seus textos. Já publicou os contos Espelho e Chuveiro na coletânea Edifício Marquês de Sade. Mantém o blog argumentoinverso.wordpress.com

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Sobre o autor

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